O dia 13 de maio lembra a data da abolição da escravatura, quando, em 1888, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea. Apesar disso, em 20 de novembro, data da morte do líder Zumbi de Palmares, celebra-se a Consciência Negra.

Na semana que antecede o Dia da Consciência Negra, e no dia do 4º Bate-papo Pilhado Afro, realizado em parceria com a Secretaria Municipal de Educação e o Négo, preparamos uma edição especial sobre o tema.

De acordo com a professora de História, Helen da Silva Silveira, quando ocorreu a assinatura da Lei Áurea, a maior parte da população negra já estava liberta, por ter lutado por isso. Dessa forma, lembrar essa data não significava comemorar a liberdade dos negros.

A partir de um movimento originado no Rio Grande do Sul, o 20 de novembro foi adotado como a data para lembrar os antepassados negros que lutaram pela liberdade e por mais de 100 anos viveram em Palmares, buscando o fim da escravidão. “Os negros que lutaram nos representam e não a princesa Isabel, que só assinou a libertação”, explica Helen.

CONSCIÊNCIA NEGRA

Yasmin da Silva Lima, 19 anos, é natural de Porto Alegre e, desde criança, integra grupos e movimentos sobre a cultura negra. Quando tinha 5 anos e se mudou para Venâncio Aires, começou a frequentar a Associação Négo Futebol Clube Acadêmicos do Samba. A participação em palestras, eventos e grupos como o das Candaces – mulheres negras que se reuniam para debates e concursos – sempre fez parte da sua rotina, assim como o Carnaval.

Em 2018, Yasmin foi eleita Mulata Café, concurso de beleza que, segundo ela, abriu novos horizontes sobre a cultura negra. “Precisamos ter algum conhecimento sobre a cultura negra, porque os jurados fazem perguntas antes do desfile”, explica.

A menina iria representar a sociedade no Mais Bela Negra do Rio Grande do Sul, porém, o evento deste ano foi cancelado. Mesmo assim, Yasmin conta que já estava estudando. “Todo ano tem um tema e precisamos estudar sobre ele. Também temos que fazer uma apresentação artística e eu iria fazer uma dança da cultura negra”, compartilha.

A guria ressalta que o Négo não é um lugar só para negros e ressalta a importância da integração. “Teve um ano que uma menina branca, sem descendentes negros, participou do Mulata Café. O concurso foi um estudo para ela, pois conheceu a sociedade e a cultura dos negros.”

CABELO BLACK

Até a adolescência, Yasmin alisava o cabelo ou estava com ele sempre amarrado. Na época, gostava do cabelo liso. A estudante conta que, em algumas fases da vida, sofreu bullying por causa do cabelo, mas depois decidiu deixá-lo natural. “Eu me aceitei, e isso é importante: se aceitar. Não interessa se vai deixar liso, ondulado ou cacheado, o que importa é se sentir bem. Na minha família, sou a única com cabelo black, as outras mulheres alisam e está tudo bem”, destaca.


“Se costuma falar apenas da parte triste que nós, negros, vivemos e se esquece de contar as coisas boas que fizemos pelo país.”

YASMIN DA SILVA LIMA – Estudante


INFLUÊNCIAS NA HISTÓRIA DO BRASIL

Segundo a professora de História Helen da Silva Silveira, é importante lembrar que o Brasil passou por um processo longo de escravidão, por cerca de 350 anos. “A base da sociedade era a escravidão. Por isso, todos os aspectos da vida no país foram transformados por essas relações e também pelo período após a escravidão, nos 130 anos de liberdade”, explica a historiadora.

Conforme Helen, como os escravizados eram africanos, muitas formas de o brasileiro agir, comer e se vestir até hoje têm influência africana. O exemplo da música é um dos mais conhecidos. “Os ritmos musicais que mais se destacam no Brasil têm origem africana, como o samba, pagode, funk”, cita.

Outro aspecto observado pela historiadora é com relação ao jeito de falar algumas palavras. A pronúncia de ‘advogado’, com ênfase no ‘d’, é um dos exemplos da influência da fala dos africanos, pois as vogais são as letras fundamentais do vocabulário eles. “A palavra não tem origem negra, mas a pronúncia tem”, destaca a professora.


“Precisamos ver que essa não é só a história dos negros, é a história do Brasil. A escravidão durou 350 anos e os negros estavam trabalhando para os outros, não para si. A maioria da riqueza nacional foi construída com o suor deles.”

HELEN DA SILVA SILVEIRA – Historiadora


Apesar da presença e da contribuição dos negros na história do país, ainda falta conhecimento sobre isso. Para a professora, entender como os negros resistiram à escravidão é uma forma fundamental de compreender a história brasileira.

Na visão de Helen, a forma como se estuda a cultura e a história negra é um pouco equivocada e prejudica esse entendimento. “Muitas pessoas não sabem que o Egito fica na África, então começa por aí a falta de estudo sobre os negros”, lamenta.

Ela acredita que é preciso entender a África de outra maneira, como um todo, para realmente aprender sobre cultura afrobrasileira. “É preciso ensinar aos alunos que a África não é um lugar onde só tem animais. É o lugar que construiu grandes civilizações e impérios, como o império do Egito, Gana, Songai e do Mali. E eles desenvolveram matemática, escrita, ciência e diversas outras áreas”, acrescenta.

PERSONALIDADES NEGRAS IMPORTANTES NA HISTÓRIA DO PAÍS

– Zumbi dos Palmares: o 20 de novembro é a data do aniversário de morte dele
– Dandara dos Palmares: companheira de Zumbi, a mulher o ajudou a construir os palmares. Acabou se suicidando, após ser presa, para não voltar as condições de escrava
– Ganga Zumba: primeiro líder do Quilombo dos Palmares
– Luiza Mahin: africana e ex-escrava que participou de batalhas para conseguir o fim da escravidão

– Antônio e André Rebouças: engenheiros que construíram obras históricas do Rio de Janeiro e eram abolicionistas
– Oliveira Silveira: poeta gaúcho, responsável pela articulação do 20 de novembro no Brasil
– Juliano Moreira: psiquiatra negro que fez muitas descobertas na área da saúde
– Carolina Maria de Jesus: trabalhava como catadora de papel e, nas horas vagas, registrava o cotidiano da favela em cadernos que encontrava. Seu primeiro livro, ‘Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada’, virou best-seller, foi vendido em 40 países e traduzido para 16 idiomas
– Abdias do Nascimento: grande líder que propôs o teatro experimental do negro e a preservação dos Palmares, que hoje ficam no estado de Alagoas
– Machado de Assis: fundador da Academia Brasileira de Letras, é considerado um dos maiores escritores do país, reconhecido por obras como Memórias póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba e Dom Casmurro.
– Pelé: considerado um dos maiores jogadores de futebol do mundo, foi ministro do Esporte no governo de Fernando Henrique Cardoso.

EM VENÂNCIO AIRES

– João Generoso dos Santos: um dos fundadores do Négo, cedeu a sua casa para o início da sociedade. Foi o primeiro presidente da entidade.
– Maria Generosa dos Santos: esposa de João, que também ajudou na fundação e fez parte da diretoria do clube.
– Ataliba Rodrigues: jogador de futebol que atuou no Guarani, como goleiro, na década de 30.

Deixe um comentário

Digite seu comentário
Digite seu nome