Não estamos aqui para julgar ninguém, nem para dizer o que é certo e o que é errado. O que queremos é propor uma reflexão. Você já parou para pensar que dedica boa parte do dia – ou a maior parte dele – para mexer no celular?

Pode até parecer normal, mas às vezes o passatempo vira dependência. E ela tem até nome: nomofobia. O termo, utilizado para descrever pessoas que não conseguem ficar longe do celular, vem da expressão em inglês “no mobile phone fobia”, que em tradução simples significa algo como “medo de não ter um telefone celular”.

Nesta edição, abordamos o tema com um teste para que cada um possa repensar sua rotina com o celular. Garantimos que dá para aprofundar essa reflexão sem chatice. Quer algumas dicas? Indicamos a série Black Mirror, os filmes Her e O Círculo. Se quiser controlar o tempo que passa no Instagram, é só utilizar a ferramenta Sua Atividade.

Ao acordar, a primeira coisa que você faz é…

a) Ir ao banheiro e se vestir

b) Levantar, ir ao banheiro e depois checar as atualizações no smartphone, ainda de pijama

c) Checar as redes sociais e responder às conversas de WhatsApp, antes mesmo de sair da cama

Na hora do almoço…

a) Você almoça sem mexer no smartphone

b) Você almoça sem mexer no smartphone, mas, assim que termina, corre para ver as atualizações das redes sociais.

c) Você almoça com o garfo em uma mão e o celular na outra, e segue falando normalmente pelo WhatsApp

Com que frequência você desativa o wi-fi ou os dados móveis?

a) Pelo menos uma vez por dia

b) Uma vez por semana

c) Nunca

Você sai de casa para andar de bicicleta por 30 minutos e percebe que esqueceu o smatphone. O que você faz?

a) Segue para seu passeio de bicicleta sem o smarthone, afinal, não precisará dele para pedalar

b) Diminui o tempo do seu passeio para retornar para casa o quanto antes

c) Você se sente ansioso e vai rápido para casa para buscar o smartphone

Está rolando o show de uma banda que gosta muito e você está com sua turma de amigos

a) Você registra o início do show e depois guarda o smatphone para poder pular e dançar à vontade

b) Você faz alguns storyes para o Instagram

c) Você grava trechos de todas as músicas e, além de atualizar os storyes, compartilha com amigos pelo Whats, durante o show

Maioria letra A – Você consegue conviver de forma equilibrada com a tecnologia e encarar “de boa” momentos offline.

Maioria letra B – Embora tente viver alguns momentos sem estar conectado, você percebe dificuldade nisso, de vez em quando.

Maioria letra C – É praticamente impossível para você viver desplugado. Em alguns momentos, isso chega a deixar você ansioso. Que tal se desafiar e tentar diminuir o tempo conectado?

Para abordar esse tema tão complexo e elaborar esse teste conversamos com a equipe do Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Infantil. O coordenador Paulo Roberto Fischer e as psicólogas Michele Temp e Alessandra Moreira e Silva explicam que a dependência do celular pode ser desencadeada pelo uso excessivo do aparelho, na infância, e quando não há limite de uso na adolescência.

Na prática, deve-se ligar o sinal vermelho para a questão quando perceber que nada além do smartphone dá prazer e as atividades diárias começam as ser prejudicadas pelo uso excessivo. Confira alguns riscos de não se desplugar:

1 Socialização restrita (ficar longe dos amigos e da família)

2 Obesidade

3 Estímulo de conteúdo inspirando violência

4 Baixo rendimento escolar

5 Redução de concentração e perda da memória

6 Não conseguir dormir bem

7 Deixar de fazer necessidades básicas como comer, brincar e praticar exercícios

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Para repensar o seu dia a dia

Segundo os profissionais do Caps Infantil, dificilmente o próprio adolescente percebe que o celular se tornou um vício. No entanto, algumas questões podem ajudar você a repensar a sua rotina.

– Quando a internet falha, o que você faz?

– Você tem outros atividades prazerosas além de mexer no celular?

– Você consegue almoçar sem estar com o celular?

– Tem momentos em grupos além do virtual ou conversa com os amigos apenas pelo WhatsApp?

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Bora se desafiar?

Tem solução? Tem! Basta se autodeterminar a reduzir o tempo de uso, inserir práticas saudáveis no dia a dia, atividades como exercícios, teatro, trabalho comunitário, esporte, música e dança. O importante é se permitir experimentar.

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Em busca do equilíbrio

Para os estudantes Jéferson Ribeiro dos Santos, 18 anos, e Theo Góes, 19 anos, reduzir o tempo dedicado à internet é um desafio. No entanto, eles percebem que é importante buscar um equilíbrio com outras atividades.

Quando tinha entre 16 e 17 anos, Théo era viciado em jogos de computador. “Ficava mais de 12 horas jogando, dependendo do dia. Na época, não percebi, mas um tempo depois vi que aquilo não era normal.”

Jeferson, por sua vez, conta que demorou para criar um perfil no Facebook, mas, quando fez, não parava de utilizar a rede social. “Todo tempo livre que eu tinha não era livre, era para mexeu no celular.” O estudante lembra que uma situação o marcou muito e fez pensar sobre o quanto ele estava mergulhado na internet. “Um dia pedi um Xis para comer e fiquei mexendo no celular. Quando fui comer, ele estava completamente frio. Daí fiquei me perguntando quanto tempo tinha passado mexendo no celular sem perceber.”

Em 2017, os meninos integraram um projeto sobre o tema, no Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul) que deu origem à peça ‘Tanta gente on com o coração off’ – premiada no Festival de Teatro Adolescente Vamos que Venimos, na Argentina. “Quando comecei a participar do projeto, refletir e estudar sobre isso, comecei a ter tempo para outras coisas. Consegui ler mais”, afirma Jéferson. Uma das técnicas dele era desligar o celular enquanto estudava. “Se não, a cada notificação, pegava o celular para ver o que era. E se não pegava, o coração começava a acelerar.”

Jéferson e Théo já conseguiram reduzir o tempo na internet, mas confessam que esse ainda é um desafio. (Crédito da foto: Juliana Bencke/ Folha do Mate)

Theo também comenta que, mesmo durante a aula, é difícil se concentrar, por conta das notificações das redes sociais. “Não temos como fugir disso, mas acredito que dá para melhorar, se autoavaliar”, considera. Para ele, há certa pressão social que também contribui para que a galera fique conectada o tempo todo. “Parece que se não estamos fazendo nada é errado, improdutivo, e o celular passa a ideia de que estamos produzindo”, reflete. “A tecnologia não é ruim, mas se torna ruim como tudo o que é demais”, complementa Jéferson.

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