Se você já sentiu desespero a ponto de cortar a própria pele ou tenta esconder as cicatrizes por baixo da roupa, saiba que você não está sozinho. Embora seja um assunto pouco comentado e complexo de falar, a automutilação tem acontecido com frequência. Muitas vezes, sequer sabemos o que fazer para dar a volta por cima ou ajudar quem passa por esse sofrimento.

Nesta edição, apresentamos o tema que precisa ser discutido abertamente em casa, na escola e com os amigos. Esta matéria tem o objetivo de auxiliar quem acaba tentando aliviar a tensão, acalmar a tristeza ou amenizar o vazio, machucando o próprio corpo.

Para isso, abordamos os motivos que levam à automutilação, onde e como buscar ajuda. Sem julgamento e com uma mão estendida, enxergamos nas cicatrizes um pedido de ajuda e convidamos a buscar solução para esse problema. Vamos juntos?

NOS CORTES, UM PEDIDO DE AJUDA

Se cortar era a única saída que Ana*, 16 anos, conseguia pensar no início de 2019. A estudante lembra que começou a se mutilar porque passava por um momento difícil e sentia que não tinha carinho e amor em casa. Para esconder os cortes nos braços e nas pernas, a jovem vivia com roupas compridas.

Ana foi encaminhada para o Centro de Atenção Psicossocial Infantil (Caps i) pela família. Como sentia que precisava de ajuda, logo topou ir ao local. “Eu queria ajuda, mesmo tendo medo. Quando cheguei no Caps i, fui bem acolhida e até hoje adoro ir lá”, garante.

Depois de receber auxílio, entendeu que automutilação não é a solução para os problemas. Atualmente, Ana está há cerca de 3 meses sem se mutilar, mas as cicatrizes permanecem nos braços e nas pernas. “Eu vejo as marcas e lembro do que passei, mas acho importante para lembrar também que melhorei, por isso não tenho vergonha delas”, expressa.

A menina, que vai para o 1º ano do Ensino Médio, comenta que percebia que, na escola, a maioria dos colegas eram depressivos e ansiosos. “Quando eu sei que alguém precisa de ajuda, eu vou conversar. Tento contar minha história e mostrar que não é só ele que passa por isso e que deve procurar ajuda de um profissional.”

Uso de roupas compridas, mesmo em dias quentes, pode ser um dos sinais de automutilação (Foto: Cassiane Rodrigues/Folha do Mate)

ACOMPANHAMENTO

Segundo o coordenador do Caps i, Paulo Roberto Fischer, em 2019, a unidade atendeu muitos casos de automutilação. “Parecia ter uma epidemia de automutilação nas escolas. Quase todos os dias recebíamos encaminhamentos de alunos que se mutilavam”, conta.

Os adolescentes que chegam ao Caps i recebem acompanhamento psicológico e psiquiátrico, de acordo com o caso. No ano passado, também foram realizadas palestras nas escolas com profissionais do estabelecimento de saúde e com colegas que já tinham superado o problema. “Eles ainda são atendidos, mas conforme ameniza o problema, vão tendo consultas com menos frequência. Porém, não podemos deixar de dar atenção, porque podem ter recaídas”, explica Fischer.

As psicólogas do centro, Michele Temp e Alessandra Moreira e Silva, afirmam que grande parte dos casos acontece com meninas, na faixa etária de 12 a 16 anos. Alessandra esclarece que nem sempre a automutilação está ligada a doenças psicológicas. “É uma violência autoprovocada, assim como o suicídio e, algumas vezes, pode estar ligada ao risco de suicídio. Por isso, acolhemos as pessoas com muito carinho aqui no Caps i.”


“No Caps Infantil trabalhamos como expressar o sofrimento de outra forma, com música, desenhos, textos e atividades que vão proporcionar prazer.”

ALESSANDRA MOREIRA E SILVA – Psicóloga


A psicóloga relata que, segundo a maioria dos depoimentos dos adolescentes que se automutilam, os cortes são feitos na tentativa de desviar a dor psíquica para a física. “É um alívio momentâneo”, comenta Alessandra.

A causa pode variar, mas, na maioria dos casos, tem o mesmo motivo. “Muitas vezes, é por questões familiares, falta de estrutura, de comunicação e apoio”, cita Michele. Entre os casos que chegam ao Caps i, existe automutilação na coxa, nos seios e na barriga, mas a nos braços ainda prevalece.


“É importante entender que automutilação não é uma bobagem. A pessoa que faz isso precisa de afeto, diálogo e ajuda.”

MICHELE TEMP – Psicóloga


Um dos riscos da automutilação é a contaminação com diferentes doenças. “Usar o mesmo objeto para mais pessoas se cortarem é perigoso”, alerta a psicóloga Michele Temp.

Psicólogas Michele e Alessandra atuam no Caps i. De acordo com elas, afeto e diálogo são fundamentais para auxiliar os adolescentes (Foto: Divulgação)

SITUAÇÃO NAS ESCOLAS

Na maioria das vezes, é dentro da escola que os sinais de automutilação são identificados. Isso acontece não só pelos professores, que percebem a mudança de comportamento das vítimas, mas também pelos próprios colegas. Além de cortes nos braços, na barriga e até mesmo na virilha, casos de adolescentes que arrancavam os próprios cabelos ou se queimavam, em ‘desafios’ entre os colegas, ja chegaram ao conhecimento de profissionais da rede de ensino de Venâncio Aires.

Orientadoras educacionais Mônica e Maria Susana lembram que os amigos têm papel importante de auxiliar colegas que sofrem com a situação (Foto: Taiane Kussler)

Segundo a orientadora educacional da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Professora Odila Rosa Scherer, Mônica Cristina Müller, às vezes, os próprios alunos informam que o colega não está bem. “A vítima não transparece o que está sentindo. Quem apresenta esse comportamento é muito discreto. A grande maioria se automutila porque se sente incapaz de lidar com determinada situação”, explica. Ela esclarece que, ao contrário do que muitos pais pensam, automutilação não é “modinha” e precisa de tratamento.

A orientadora educacional Maria Susana de Carvalho, que atua na Escola Odila e na José Duarte de Macedo, lembra que o diálogo é a melhor saída. “O adolescente que estiver passando por esta situação precisa se abrir, conversar com o amigo ou expor o problema para um adulto – pode ser um dindo, uma tia – contar para aquela pessoas que confia”, orienta. De acordo com ela, na escola, busca-se ter um jogo aberto com as vítimas e nunca usar um tom de discriminação.


“Quando encontrar algum amigo que está pensando em automutilação, pergunte se há algo em que você possa ajudar ou se quer que busque ajuda de alguém. Os amigos devem estar presentes nas horas boas e também nas ruins.”

MARIA SUSANA DE CARVALHO – Orientadora educacional


SINAIS DE ALERTA

– Uso de roupas compridas, mesmo em dias quentes, para esconder os cortes

– Uso de pulseiras e acessórios nos braços

– Desinteresse

– Isolamento

– Agressividade

SITUAÇÕES QUE LEVAM À AUTOMUTILAÇÃO

– Baixa autoestima

– Bullying

– Problemas no relacionamento familiar, como agressões verbais ou físicas, falta de atenção e separação dos pais

– Problemas no relacionamento amoroso, como término da relação ou impedimento dos pais de manter o namoro

– Frustrações

– Perdas na família

– Falta de regras

– Excesso de liberdade

– Rompimento de amizades

– Dificuldade de aprendizagem

MEU AMIGO SE MUTILA. O QUE EU FAÇO?

A melhor ajuda é o diálogo. Esteja disponível para escutar a pessoa, sem julgar. Oriente seu amigo para que busque ajuda com um professor, um profissional de saúde ou um familiar de confiança.

ONDE ENCONTRAR AJUDA?

A escola é um dos melhores intermediários nos casos de automutilação. Por isso, a família, os colegas ou até mesmo a própria pessoa podem procurar um professor para pedir esse encaminhamento. Também é possível procurar o Conselho Tutelar, ir direto no Caps i e se informar sobre os atendimentos ou procurar direto um psicólogo. O Caps i está localizado na rua Sete de Setembro, na esquina com a Avenida Ruperti Filho, e atende de segunda a sexta-feira. O telefone de contato é o 3983-1022.

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