Casal Rosmar e Carmem levam o filho Estevão, de 3 anos, para a lavoura de orgânicos (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Dois produtores de Venâncio Aires passarão a realizar todas as terças-feiras, a partir do dia 4 de agosto, feira com produtos orgânicos nos fundos da Prefeitura, no espaço da Cooperativa dos Produtores de Venâncio Aires (Cooprova).

A novidade era uma demanda da cooperativa e do município. Agora, das 15h às 18h30min, as duas famílias irão comercializar produtos orgânicos no espaço. Os agricultores, que também são associados à Cooprova, já aguardam com ansiedade o início dos trabalhos que irão mudar a rotina das família.

Em Linha Isabel, Carmem Wessling Penck, 42 anos, e Rosmar André Penck, 35 anos, irão retomar a venda de hortaliças de forma diferenciada, com a certificação orgânica. Antigamente, o casal ao lado da mãe de Carmem, Remilda Wessling, 85 anos, produzia frutas e hortaliças e os comercializava em feiras que a Cooprova realizava em frente à Igreja Matriz São Sebastião Mártir. Carmem conta que em 2018 a família optou por parar. “Além de ter outras culturas na propriedade eu estava grávida do Estevão e minha mãe já não podia ajudar como antes. Nos faltava mão de obra”, recorda.

Família de Linha Isabel inicia o cultivo de physalis (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Porém, o casal não parou com tudo, continuaram com as hortaliças convencionais e atendiam os programas institucionais da cooperativa. “Nossa área com certificação orgânica permaneceu lá, intacta e preservada”, comenta Penck. A área certificada da família, tem quase meio hectare.

A intenção era retomar a feira no ano passado, mas o casal não se sentiu preparado e ainda faltava mão de obra. Além disso, a estiagem e a pandemia atrasaram o desejo da retomada.

Esse ano, a família do 5º distrito terá abacate, batata inglesa, batata-doce amarela, aipim branco, repolho coração de boi, beterraba comprida, alface lisa e aipo na lista de produtos orgânicos. Entretanto, uma lista de produtos em transição já está sendo elaborada e a oferta de variedade irá se expandir. “A gente planta e comercializa um produto ecologicamente correto, mas precisamos que seja economicamente viável. Pois o crescimento comparado com as hortaliças convencionais é mais lento, demanda mão de obra e o produto orgânico não é somente um produto sem agrotóxico, temos outros inúmeros cuidados na propriedade que garantem essa certificação”, explica Carmem.

Para o próximo ciclo de safra, a família pretende incluir acelga, tomate, brócolis ramoso, salsa, couve folha roxa e physalis. “Alguns desses produtos já estão semeados, outros ainda não. O manejo já é orgânico, mas estão em transição. Na próxima atualização junto ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) já vamos incluir mais produtos. É um ciclo”, acrescenta a agricultora.

Hora de realizar o sonho

Em Linha Olavo Bilac, o técnico agrícola Jair Antonio Graeff, 44 anos, cultiva produtos orgânicos em quase dois hectares. Ele e a família, de Linha Isabel, irão comercializar as hortaliças na feira. Dessa forma, o consumidor terá uma opção de mais variedades disponíveis. Graeff tem a certificação orgânica e terá outros produtos à disposição como: alho, quiabo, pimentão, rabanete, cenoura, cebola, tempero, tomate, entre outros. Essa será a primeira experiência de feira para Graeff, visto que os produtos orgânicos já são comercializados para uma empresa de Cruzeiro do Sul. “A feira será uma nova opção de mercado, uma nova aprendizagem”, frisa.

Produtor, que está há cinco anos no ramo, antes era sócio-proprietário de uma empresa de material elétrico no centro de Venâncio Aires. “Percebi que estava na hora de realizar meu sonho. Sempre trabalhei bem, com motivação e exercia bem minha função. Mas faltava algo. Hoje trabalho muito mais, mas estou realizado”, revela.

Morador da região central do município, Graeff arrendou terras no 4º distrito e cultiva várias hortaliças por lote. “Eu vou para a roça e esqueço o mundo”, acrescenta. Sobre a produção de orgânicos, Graeff enfatiza: “Eu não entrego o que não posso comer. Eu só vendo o que eu comeria. Acho que todo mundo deveria ter a condição de consumir produtos orgânicos.”

Apoio

Graeff acredita que a produção orgânica, para ter sucesso, precisa de troca de conhecimento entre produtores e técnicos. “A Emater é uma das grande incentivadoras”, frisa. Além disso, reforça que para muitos ainda falta a informação, por isso, hesitam iniciar a produção orgânica. Carmem também ressaltou a importância da Emater. “Por muitas vezes, eu e o Rosmar pensamos em desistir. A Djeimi e toda a Emater não deixaram e continuaram nos incentivando e mostrando alternativas. Era o gás que faltava para retomar”, conta Carmem.

Jair Graeff produz orgânicos para fins comerciais em uma empresa e realizará a feira na Cooprova (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Emater incentiva uma produção mais limpa

De acordo com a engenheira agrônoma Djeimi Isabel Janisch, que atua no escritório da Emater/RS-Ascar de Venâncio Aires, para um produtor dizer que o produto dele é orgânico ele precisa ter a certificação. “Não é só produzir sem o uso de agrotóxicos. Os cuidados vão além. O produtor precisa ter cuidado com os insumos, bem-estar das pessoas que atuam na produção, se preocupar com o meio ambiente e todo o sistema da propriedade.”

Uma vez que o produtor decide produzir de forma orgânica certificada, a Emater apoia no sentido de orientação técnica e certificação. Além disso, será necessário a participação do produtor em grupos organizados (orgânicos de Certificação) e registrados no Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) em futuras reuniões. Djeimi acredita que para aumentar a produção certificada, hoje uma alternativa seria viabilizar a certificação. Hoje, em Venâncio Aires, cinco produtores estão com certificação por controle social de venda e fazem parte de Organismo de Controle Social (OCS). “A comercialização é permitida apenas para venda direta ao consumidor nas feiras e mercados institucionais”, acrescenta a extensionista da Emater. Além disso, outros também têm a certificação, porém não realizam feiras na Cooprova. De qualquer forma, Djemi reforça que o número de agricultores com cultivo orgânico certificado ainda é muito pequeno.

A feira com agricultores com certificação na Cooprova irá difundir o conceito de produção orgânica, segundo Djeimi. “Será um processo educativo para o consumidor e produtor. Precisamos mostrar que alimentos orgânicos precisam de certificação pois não é apenas produzir sem agrotóxico. O produtor necessita buscar o equilibro do sistema produtivo e atender à legislação que rege a produção orgânica.”

Além disso, a extensionista reforça que o apoio e retorno da comunidade é fundamental para incentivar a produção destas famílias que se propõem a produzir alimentos de uma forma diferente. “Precisamos incentivar todos os feirantes na busca por diversificação e sustentabilidade na propriedade.”

Produção orgânica necessita de certificação para ser comercializada (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Credenciamento

  1. Atualmente existem três formas de certificação orgânica, um procedimento pelo qual uma certificadora, devidamente credenciada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa) e “acreditada” (credenciada) pelo Instituto Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Inmetro), assegura por escrito que determinado produto, processo ou serviço obedece às normas e práticas da produção orgânica.
  2. Um dos modelos de certificação é por auditoria onde uma certificadora pública ou privada credenciada no Ministério da Agricultura concede o selo SisOrg. O organismo de avaliação da conformidade obedece a procedimentos e critérios reconhecidos internacionalmente, além dos requisitos técnicos estabelecidos pela legislação brasileira.
  3. Outro modelo é o Sistema Participativo de Garantia (SPG) que se caracteriza pela responsabilidade coletiva dos membros do sistema, que podem ser produtores, consumidores, técnicos e demais interessados. Para estar legal, um SPG tem que possuir um Organismo Participativo de Avaliação da Conformidade (Opac) legalmente constituído, que responderá pela emissão do SisOrg.
  4. E outro formato de certificação seria por Controle Social na Venda Direta. A legislação brasileira abriu uma exceção na obrigatoriedade de certificação dos produtos orgânicos para a agricultura familiar. Exige-se, porém, o credenciamento numa Organização de Controle Social (OCS) cadastrado em órgão fiscalizador oficial. Com isso, os agricultores familiares passam a fazer parte do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos.
  5. A Organização de Controle Social (OCS) fornece um documento que é a conformidade de produção orgânica participativa. Esse documento contém todos os dados do produtor e da propriedade, incluindo o número de cadastro. É por esta forma que os feirantes estão certificados.
  6. O Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos é um arquivo dentro do site do Ministério da Agricultura que mostra uma lista com todos os produtores certificados no Brasil. Na dúvida, o consumidor pode buscar informações nesse cadastro. Acesse o link.

Fonte: Emater e Mapa

Feira

A Cooprova realiza as feiras nas segundas-feiras das 16h às 20h; terças-feiras, das 7h às 12h e das 15h às 18h30min com produtos orgânicos; quartas-feiras, das 7h às 12h; quinta-feira, das 7h às 11h30min; nas sextas-feiras, das 14h30min às 18h30min; e nos sábados, das 6h30min às 12h.

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