A conquista do título de rainha era um sonho, desde 2010, quando foi 1º princesa no concurso Mulata Café (Foto: Taiane Kussler/Folha do Mate)

Depois de um mês intenso de ensaios, de mudanças na rotina para deixar as duas filhas Larissa Abreu Dias, 5 anos, e Milena Abreu Padilha, 11 meses, aos cuidados da tia e das primas, Karolen Neves Abreu, 26 anos, estava preparada para realizar o sonho de concorrer à corte do Carnaval Municipal. Assim que ouviu o seu nome sentiu a vibração da torcida da Escola Acadêmicos do Samba Négo quando subiu oficialmente na passarela, do Clube de Leituras, no dia 11.

Enquanto fazia a sua apresentação solo aos jurados, ela escorregou o pé, mas, com coragem deu a volta por cima, como se nada estivesse acontecido. Assim como na passarela, a jovem também sabe driblar os desafios da vida, com coragem, perseverança e, acima de tudo, muita fé e humildade.

Moradora do bairro Coronel Brito, Karolen sempre foi uma mulher independente e corajosa, depois de ter enfrentado grandes perdas, como a do pai e dos avós; de ser mãe ainda jovem e passar por esta etapa longe da família; e, de mesmo assim, nunca ter desistido dos seus sonhos, principalmente de conquistar o título de rainha do Carnaval.

Apesar dos contratempos – depois de ter perdido um brinco e o acessório ter ficado embaixo da sandália de salto enquanto sambava – ela levou o título para casa, trazendo alegria para a escola de samba que representa, para a família e, principalmente, despertando um sorriso e um brilho do olhar da filha Larissa, quando chegou em casa e percebeu que a mãe havia ganhado o concurso. “Mãe, não acredito, você é a rainha”, afirmou a menina, atenta às flores e à coroa.

Depois de ter recebido a faixa da rainha do Carnaval 2019, Katiéle Pastorio, esse foi um dos momentos mais especiais para Karol, desde os primeiros dias de preparação para o concurso.

Larissa e Milena ao lado da mãe, na casa onde moram, no bairro Coronel Brito (Foto: Taiane Kussler/Folha do Mate)

“Além da desenvoltura e do samba no pé, foi preciso ter conhecimento do Carnaval e da escola para conquistar o título de rainha. A partir de agora, se eu não souber me expressar e desenvolver aquilo que aprendi, não vai valer de nada tudo isso.”

KAROLEN NEVES ABREU – Rainha do Carnaval de Venâncio Aires


Uma nova vida na Capital Nacional do Chimarrão

Natural de Canoas, Karolen veio com os pais e mais três irmãos para Venâncio Aires para morar com a avó, que ficou viúva. A família, que naquele momento havia construído a casa em Canoas, mudou- se para Capital Nacional do Chimarrão e tive que se readequar a nova realidade. “Desde os meus 13 anos eu já trabalhava em uma lancheria e a partir dos 15, já tinha carteira assinada. Sempre me virei e queria ter a minha independência”.

Com a nova vida, Karol teve que deixar os amigos e se readaptar em uma nova escola, quando entrou no 8º ano da Escola Estadual de Ensino Médio Crescer. Depois de adulta, ingressou na área do comércio e, aos poucos, foi conquistando o seu espaço. De atendente de lancheria, Karol se tornou consultora de vendas e chegou a gerente de uma empresa local. “Em determinados empregos na região, tive que enfrentar preconceitos, mas isso só me fez crescer como pessoa”, avalia.

Esta foi uma das ‘mínimas’ dificuldades quando comparada ao drama de conviver com a situação de saúde do pai. Ele sofreu um grave acidente de moto e ficou durante quatro anos acamado, sem os movimentos do corpo. “Ele estava apenas vegetando e faleceu no dia do aniversário dele. Um momento muito difícil para todos nós”, recorda.

Depois de um tempo, Karol engravidou da primeira filha: Larissa. A coincidência das datas sempre esteve ligada à vida da jovem. Com a chegada de Larissa, ela teve que passar por sensações de felicidade e tristeza no mesmo dia, quando foi informada do falecimento da avó, que teve que ser submetida a uma cirurgia cardíaca e não resistiu ao procedimento. “Eu não conseguia me permitir ficar triste naquele momento. Minha avó faleceu no mesmo dia em que a minha primeira filha nasceu. Este foi um dos momentos muito marcantes para mim,” afirma.

Com a chegada da Larissa, ela se tornou uma mulher independente. Na época, a mãe, Maria Delfina Porto Neves, retornou a Canoas para reconstruir a vida com um outro companheiro.

Mesmo assim, Karol permaneceu em Venâncio Aires, pois já havia criado laços aqui, lugar onde engravidou da sua segunda filha, cinco anos depois. “Minha filha Milena nasceu em Canoas, resolvi fazer isso para estar mais próximo da minha mãe”.

Contudo, quando Karol retornou para a casa sabia que a maternidade seria um grande desafio e que ela iria viver uma nova experiência. “Quando cheguei em casa me deparei com a realidade. Agora era só eu e as duas meninas”, relembra.

Karolen e as filhas com a tia Sarajú, ao centro, as primas Stefanny e Thalita e Miguel (Foto: Taiane Kussler/Folha do Mate)

O CARNAVAL E O SONHO DE SER RAINHA

  • Além da tia Sara Gonçalves, conhecida como Sarajú, e das primas Thalita Gonçalves e Stefanny Garcia Flores serem seus braços direitos na assistência com as filhas, elas também foram as incentivadoras para que Karolen concorresse à rainha do Carnaval. “Sempre gostei do Carnaval, mas em Canoas não participávamos da festa”, conta.
  • O primeiro título foi conquistado em 2010, quando ela recebeu a faixa de 1º princesa do concurso Mulata Café. Em 2012, veio o segundo título, quando foi eleita princesa, a convite do bloco Piratas do Trago. As participações nos concursos despertaram o desejo de ser rainha do Carnaval. “Em 2013, conheci pessoalmente o Neguinho da Beija-Flor, foi muito especial para mim”.
  • Antes da escolha da corte do Carnaval, Karol foi madrinha da bateria da Unidos das Vilas, em 2018. Porém, o sonho de concorrer ao título de rainha surgiu em 2019. “Quando fui convidada para concorrer à corte do Carnaval 2020, nem precisei de tempo para pensar. Sabia exatamente o que queria”, relembra.
  • Para ela, receber a faixa e carregar a coroa é mais que um compromisso. “Eu estava representando a minha escola, a minha família e todas as pessoas que estavam junto comigo”, salienta.
  • Karol acredita que a conquista da faixa foi uma consequência, que veio a partir da bagagem e da experiência de vida que adquiriu em consequência do seus valores familiares e escolhas. “No dia do desfile, eu era a mãezona do grupo, talvez pelo fato de ser mãe, de ter tido dois casamentos e de ser a mais experiente entre as candidatas, por isso, dei muitos conselhos para as outras meninas”, comenta, sorrindo, a rainha que comemora o resultado e as amizades que conquistou durante esta trajetória.
Karolen com os irmãos, a mãe Maria Delfina e os avós (in memorian), antes de mudar com a família para Venâncio Aires (Foto: Arquivo pessoal)

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