Fachada antiga da casa da família Chaves, antes de ser reformada. É no interior de Mato Leitão que, no século XIX, quilombolas teriam sido acolhidos e trabalhado com erva-mate (Foto: Arquivo pessoal)

Quando se fala da história da população negra no Brasil, a memória remete (naturalmente ou exclusivamente) a Zumbi dos Palmares. Qualquer um que tenha passado pela formação básica da escola estudou sobre aquele que virou símbolo de resistência e luta contra a escravidão no Brasil e que foi morto num 20 de novembro, há mais de 320 anos.

Mas, o que mais depois disso? Essa pergunta é difícil de ser respondida. Mais difícil ainda porque no Jornalismo se trabalha com fatos e fato é que ainda são escassos ou pouco divulgados os registros documentais da história dos afrodescendentes.

Do que se tem, está descrito em pesquisas mais recentes, com base no que se ouviu de gente que já se foi. Na história oral que talvez esteja esquecida nas próprias famílias e em registros que nunca existiram ou foram forjados há tempos. Às vezes, meros fragmentos na Literatura e na imprensa, seja por tamanho ou pouca divulgação.

Se essa é uma realidade nacional, no contexto local não é diferente. Vale a ressalva e o destaque a trabalhos de resgate que vêm sendo feitos por escolas e entidades como a Associação Négo e a ONG Alphorria. Mas mesmo para quem tem atuado nessa busca, é consenso que ainda existe uma dificuldade para confirmar pontos específicos. Uma das lacunas é sobre a formação de quilombos (como os dos períodos colonial e imperial), no atual território de Venâncio Aires. Existiram ou não?

Na busca de respostas, aqui também estão outras histórias de famílias que merecem ser lembradas e são parte importante na formação do município. Se houver dúvida, que possa ser uma espécie de provocação: quem souber de algo, ajude a registrar, para que nada seja perdido ou esquecido.

Um quilombo (ou quase) em Vila Santo Antônio

Randolfo Rodrigues Chaves (1850-1930) já era adulto quando veio de Passo Fundo, a cavalo, trazendo uma muda de erva-mate e a plantou no barro vermelho do então distrito de Santo Amaro. Eram os tempos findos do Brasil Império e poucos anos antes da abolição da escravatura. Foi no atual território de Mato Leitão, onde se formou a Vila Santo Antônio, que Chaves construiu sua casa e morou com a esposa Anna e os cinco filhos.

Randolfo Chaves, produtor de erva-mate, está enterrado no cemitério de Santo Antônio (Foto: Arquivo pessoal)

Randolfo, que chegou a ter escravos depois de os comprar em Porto Alegre, mantinha negros e brancos trabalhando como agregados, para ajudar nas lavouras de erva-mate. “O pai contava que o bisa chegou a ter 38 pessoas trabalhando com ele”, relata Nilson Rodrigues Chaves, 71 anos.

Ele é bisneto de Randolfo e as histórias que ouviu foram contadas pelo pai Adão, já falecido. Este, contava também da boa relação entre patrão e empregados. Para aqueles que trabalhassem bem, depois de um certo tempo, lhes dava um pedaço de terra. “Ninguém nunca falou que ele foi um homem mau. Mesmo antes de 1888, sempre procurou recompensar quem trabalhava.”

O relato de Nilson é sobre a fama de ‘bom patrão’ de Randolfo que se espalhou até os rios Taquari e Jacuí. Daí, vem a ideia de que escravos, fugindo do vasto território de Rio Pardo, se refugiaram por aqui. Por ele os ter acolhido, dizem que pode ter se formado um quilombo naquelas redondezas.

PESQUISAS

Essa versão também foi relatada ao professor de História, Jair Luiz Pereira. Segundo sua pesquisa, feita no fim da década de 1990 e que pode ser conferida em livros como “Abrindo o baú de memórias” e “Buscando raízes”, esses possíveis quilombolas fugiram de uma região que fica entre os atuais limites de Venâncio, Passo do Sobrado e Vale Verde. “Eles vinham cruzando mato até uma fazenda em Santo Antônio, até encontrar refúgio nas terras onde plantavam erva”, relata Pereira.

Segundo a professora e pesquisadora Viviane Weschenfelder, a ideia de refúgio e acolhida pode, sim, ajudar a conceituar um quilombo. Mas, na maioria dos casos, seria uma acolhida condicionada ao trabalho, recompensado ou não. “Oficialmente, a ideia dos quilombos que remete ao período de escravização, é de que os negros fugiam para alguma localidade e criavam algum espaço de resistência. Onde eram ‘acolhidos’, era estratégico para o patrão, porque precisava de mão de obra.”

CARACTERÍSTICAS

  • Conforme o professor Jair Pereira, é provável que quilombolas da localidade de Buraco Fundo, atual Vale Verde, se instalaram em Mato Leitão. “Mas o que se sabe, se ouviu. Não tem registro.”
  • Como vieram fugidos, procuravam apagar vestígios de sua existência e, por isso também, muito do que se tem é suposição e confiança em memórias. Segundo Pereira, a possibilidade de um quilombo em Mato Leitão pode ajudar a explicar a grande presença de negros em Santo Antônio.
  • Presença essa, que era ainda mais forte até meados do século XX, quando a convivência estreitou as relações e virou coisa de família. “O pai e a mãe e tios tiveram compadres negros. As famílias sempre foram próximas”, conta Vandir Nadir Chavez Zin, 74 anos, bisneta de Randolfo Chaves.
Imagem de Santo Antônio segue em devoção pela família e tem um canto especial na casa de Odecio Antonio dos Santos, também bisneto de Randolfo, atual proprietário da residência (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

SANTO ANTÔNIO

Randolfo Chaves era muito devoto de Santo Antônio. Como foi um dos primeiros moradores da região, é possível que a localidade tenha adquirido esse nome devido à fé católica. Em dos lados da casa, havia a pintura de uma grande imagem e, no pátio ao redor, eram realizadas missas.

O que se diz sobre Vila Santa Emília

Ao traçar o território venâncio-airense no fim do século XIX, grosseiramente se pode afirmar que era tudo ‘uma mesma coisa’ e léguas naquele tempo seriam comparadas, hoje, a poucos quilômetros. Assim, há rumores de que em Vila Santa Emília, também região do barro vermelho, de cultivo de erva-mate e limítrofe com Mato Leitão, tenha sediado um quilombo.

Em uma publicação da Folha do Mate, em 2008, e que se baseou no livro “Colônia de Santa Emília”, de Cláudio Carlos Fröhlich, já se reconhecia que a história da população negra era carente de pesquisa mais aprofundada, mas se sabia que, nas proximidades do Cemitério dos Machado, havia um local chamado “quilombo”, onde se reuniriam, praticavam seu culto e faziam festas, mas sem terem fugido dos donos.

Esse cemitério está ligado à história de família do Capitão Francisco Machado Fagundes da Silveira, um dos primeiros sesmeiros de Venâncio Aires. No campo santo, aliás, há muitos túmulos com sobrenomes como Machado, Fagundes e Bittencourt.

Das poucas lápides legíveis, ainda é possível ver nomes como Machado e Fagundes (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Da alforria antes de 1888 e do racismo que era fofoca

Se a existência de quilombos na região do barro vermelho pode ser apenas suposição, há outros registros importantes sobre o passado da população negra que merecem destaque. Alguns, inclusive, fazem parte da história da formação do município.

Elaci mantém os escritos com as memórias do avô Amarino da Silva (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Como a vida de Lucrécia Francisca da Cruz (1856-1936), que teria sido a primeira negra alforriada de Venâncio e cuja ‘liberdade’ foi adquirida antes de 1888. A história dela está ligada à família de Antônio Berlim da Cruz, o mesmo que integrou a primeira junta governativa da cidade, logo após a emancipação política, em 1891.

Fatos sobre Lucrécia estão em escritos do neto, Amarino da Silva (1918-2013) e organizados em um livro ‘caseiro’. Essa publicação é mantida por Elaci Teresinha Vicente da Silva, 56 anos, neta de Amarino e tataraneta de Lucrécia. “O vô sempre contou essas histórias, porque conviveu com ela. E começou a registrar isso em qualquer papel, até em embalagens”, conta Elaci.

Nos escritos de Amarino e que foram relatados ao professor Jair Pereira para sua dissertação de mestrado, está o momento em que Lucrécia não aceitou ser castigada e pediu o preço de sua alforria. “Para conseguir pagar o valor [500 mil réis], começou a fazer doces e vender. Quem ajudou muito ela foi a família do Ferdinando Kunkel, onde foi trabalhar”, destaca Elaci.

TÚMULO DE FORA

Uma história muito interessante foi descoberta pelo professor Jair Pereira, 59 anos, depois de adulto. Ouvindo dezenas de pessoas para sua pesquisa, também foi na oralidade que descobriu detalhes de um caso que lhe chamava atenção quando era criança: o porquê de um túmulo ficar do lado de fora do cemitério da Vila Rica, no bairro Macedo.

“Meu avô Eleuthério Francisco Pinheiro era zelador. Me contavam que um homem chamado Estácio Chaves quis ser enterrado do lado de fora para não ser ‘tocado’ pelo vô, que era negro. ‘Racismo, é por causa de racismo’, diziam as pessoas”, conta Pereira.

Adulto e já no curso de História, ele foi investigar. Pelo o que ouviu, o avô tinha um armazém de secos e molhados na região do atual Acesso Leopoldina, onde Chaves comprava fiado. O dono do armazém confiava, mas outras pessoas teriam dito ao freguês que Eleuthério o chamou de caloteiro.

“A relação piorou quando meu avô trocou o lenço branco pelo vermelho. Isso que ambos chegaram a estar do mesmo lado na política, quando apoiaram Coronel Thomaz Pereira. Toda essa história que seria por causa de racismo, na verdade não passou de uma fofoca.”

Como consequência do mal entendido, Pereira diz que o avô foi perseguido até perder suas terras e o tal Chaves ficou tempo enterrado do lado de fora do Vila Rica, para Eleuthério não lhe tocar. “Quem colocou o túmulo para dentro foi o ex-prefeito Almedo Dettenborn.”

Professor Jair Pereira mostra sua pesquisa onde estudou a comunidade afro na região (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

O interesse pela História

Conhecer a história da sua cidade, por mais jovem que seja (como é o caso de Venâncio Aires) leva tempo. Tempo para pesquisa, para ouvir, para aprender. O pouco que esta matéria talvez trouxe, ainda continua sendo só um fragmento do que representa a participação do negro na formação do município. Sempre esteve e está presente, mas esbarra na falta de protagonismo do que é ‘oficial’.

Das pessoas ouvidas, entre descendentes, professores e pesquisadores, alguns relatos ajudam a reforçar esse fato. Para a professora Clara Bernadete Ferreira Lopes, colaboradora da parte cultural do Négo, a história costuma omitir fatos que a seu tempo considera rebeldia ou contravenção, por isso também existe muita coisa ignorada.

“Eu diria que o acesso é mais difícil. Hoje temos um aumento de obras voltadas às questões étnicas, mas elas ainda não estão ao alcance de todos, seja pela divulgação ou questões financeiras que possibilitem a aquisição. Muitas livrarias não adquirirem porque pensam que não vende, mas estamos interessados cada vez mais na nossa história.”

Já o professor Jair Luiz Pereira entende que há pesquisas sendo feitas, mas que não são devidamente divulgadas. Assim, a história continua escondida ou esquecida. “Como diz aquele provérbio africano: enquanto o leão não tiver seu historiador, prevalecerá a glória do caçador.”

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