Monja Coen, 72 anos, é monja zen budista (Foto: Gil Silva/Divulgação)

Antes de começar a ler essa matéria, respire fundo. A partir de agora, um misto de bons sentimentos irá fazer você ‘mergulhar’ nessa entrevista exclusiva com a Monja Coen. A budista estará em Venâncio Aires, hoje à noite, a partir das 19h30min, por meio do projeto ‘Conexão com a felicidade’, promovido pelo Sesc, na Sociedade Olímpica de Venâncio Aires (Sova). Com os ingressos esgotados para o encontro, ela reservou um tempo antes de chegar à Capital do Chimarrão, para responder perguntas da Folha do Mate.

A conversa com Cláudia Dias Baptista de Souza ou a Monja Coen perpassa por diferentes áreas e faz uma reflexão sobre a forma como as pessoas estão levando a vida. Ela destaca que a autoestima só existe se você conhecer a si mesmo.

Folha do Mate – Em uma rotina tão corrida, como a meditação pode ser uma aliada?

Monja Coen – A meditação é a nossa grande aliada nas rotinas apressadas. Meditar não é apenas para quem vive sem problemas, sem pressões. É exatamente para pessoas como nós, estressadas, algumas vezes angustiadas, pressionadas, pois basta alguns momentos por dia de respiração consciente e retomamos nossas atividades com mais vigor e leveza.

Venâncio é uma das cidades com um dos índices mais altos de suicídios do Brasil. De que forma o modo de viver pode contribuir com a saúde mental?

Você me diz que Venâncio Aires é uma das cidades com um dos índices mais altos de suicídios do Brasil. Como podemos viver sem querer nos matar? É interessante pensar por que algumas cidades têm índices mais elevados do que outras. Por que seria? Vocês, que residem aqui, já têm alguma pista do que está acontecendo? Por que a vida está tão banalizada? Por que a morte aparece como solução de problemas, como escapatória de si mesmo e do mundo?

Será que falta o treinamento de resiliência? Algo a ser ensinado nas escolas, desde a tenra infância? É preciso que nos questionemos em profundidade. É possível transformar essa estatística. O aprofundamento em questões filosóficas, existenciais, o conversar mais, o não ter medo de expor suas fraquezas e insuficiências pode ser um dos elementos. Somos seres muito complexos. Não há apenas uma razão. Há inúmeras. Vamos refletir e tentar mudar esse quadro?

Nosso mundo é movido pela informação constante, seja ela positiva ou negativa. Elas estão ao nosso redor desde que acordamos. Como jornalista de formação, como você vê esse meio e a forma que ele pode auxiliar para uma sociedade mais feliz e confiante?

Informações incessantes. Somos bombardeadas por notícias e geralmente pelas notícias de crimes, roubos, brigas, desafetos…Há pouco do bom e do bem sendo divulgado.

Como jornalista de formação sugiro que, sempre que houver uma má notícia possamos dar a contrapartida…a outra face, um outro olhar. Se noticiamos policiais corruptos, devemos na mesma página, no mesmo espaço noticiar sobre policiais que salvam crianças, fazem partos nas ruas, cuidam para que pessoas não sejam feridas – os bons policias – que ainda são a maioria. É preciso divulgar o bem, sem esconder a realidade, mas apontando caminhos e soluções para cada situação.

Estudos mostram que nossa sociedade está cada vez mais sofrendo de ansiedade e depressão. Como o viver ‘o agora’ pode auxiliar na rotina?

Ansiedade tem a ver com não estar presente no que está acontecendo. É estar deslocado no tempo. O que irá acontecer, ou o que aconteceu. E a ansiedade pode levar à depressão. Assim, acho importante o treinamento da respiração consciente, da presença pura de estar onde estamos. Mesmo que seja planejando e nos organizando para o depois. O planejar acontece no agora. E até mesmo uma certa ansiedade benéfica, estimula a vida. Esta ansiedade pode se tornar doentia e quando se torna doentia leva à depressão. Depressão é doença e deve ser tratada por especialistas. Se houver alguém que você conheça, ou você mesmo, que se feche em sua casa ou seus aposentos, por mais de três ou cinco dias, está na hora de buscar ajuda. Precisamos uns dos outros para viver melhor. Ninguém é autosuficiente. Quando saímos do casulo da individualidade percebemos a vastidão da vida e das turbulências que todos passam. Isso é libertador.

A meditação ajuda a lidar com a ansiedade e a depressão, mas não é a cura. É a percepção que nos leva a procurar a cura.

Fazendo uma relação seu livro ‘sofrimento é opcional’, porque o sofrimento é opcional?

O sofrimento é opcional. A dor não. Sentimos dor, mas não precisamos criar mais pressão sobre o que já está machucado. Como levar uma flechada. Não é necessário enfiar outra flecha em cima da primeira e ficar pressionando. Podemos retirar a flecha e curar a ferida. A dor existiu – a perda, o luto, a doença, a traição – inúmeras insatisfações com a existência. Todas têm causas e condições. Ao observar em profundidade você poderá se libertar do sofrimento. A dor estará ali, mas você não vai torná-la pior. Sofrer é não deixar passar a dor que já passou. Tudo passa. Deixe passar.

Estamos em uma sociedade conectada. Como buscar e/ou encontrar nossa essência?

Podemos e devemos usar a inteligência artificial, as conexões da tecnologia para meditar, silenciar, apreciar melhor a vida. São escolhas. Qual a sua escolha?

O quanto o que se vive na infância, pode auxiliar na formação de um ser humano mais saudável de corpo e mente?

A infância é quando se forma as bases de um ser humano. Dona Zilda Arns, grande médica brasileira que cuidava dos pobres e ensinava às mães o soro doméstico para salvar seus filhinhos da desidratação – dizia que “a violência começa no ventre materno.”

Assim como a violência ali se inicia, também o amor e a alegria. Recebemos uma carga genética ancestral que nos dá certas característica. Depois passamos por experiências que vão nos moldando – desde o ventre materno. Na infância somos mais flexíveis e mais hábeis de aprender e nos transformar. Entretanto, se formos abusadas e maltratadas ficaremos com marcas até o final da vida, geralmente. Podemos aprender a viver com isso, com nossas cicatrizes e podemos até nos tornar pessoas mais bondosas e cuidadosas. Como também podemos nos tornar rancorosos e vingativos. Por isso acredito que devemos cuidar muito bem de nossas crianças. O salário de professoras e professores de educação elementar deveria ser maior do que de outros níveis. E, vejam só, a maioria das pessoas que trabalham com educação básica são mulheres. Assim vamos induzindo a nossas crianças que homens não são cuidadores ou educadores – com raras exceções. É preciso estar atentos para isso também.

Nossa sociedade está falando muito sobre amor-próprio. O que é amor-próprio e como ele pode ser desenvolvido ou, até mesmo, percebido.

Amor próprio ou autoestima só pode ocorrer se você conhecer a si mesmo em profundidade e acolher os vários aspectos da mente humana. As pessoas que se respeitam também respeitam outras pessoas. Conhecer a si mesmo, em intimidade, é para mim o caminho do amor e da libertação. Por isso insisto – e não sou apenas eu mas inúmeros neurocientistas, filósofos, religiosos e ateus – há um caminho de sanidade para a humanidade. Observar-se em profundidade, acolher-se com as insuficiências e com a sabedoria. Amar e ser amado.

Qual o papel de uma monja para quem não vive esse universo?

As funções de uma religiosa como eu, monja zen budista, é semelhante a de muitas outras tradições. Oramos, meditamos, trabalhamos, estudamos, ajudamos pessoas e sociedades. Abençoamos crianças, casas, empresas, pessoas. Damos aulas das nossas tradições espirituais. Temos dúvidas e questionamentos que procuramos resolver com nossos superiores ou com os textos sagrados. Dúvidas e questões que nos fazem mergulhar mais e mais na procura da verdade e do caminho. Assim meditamos melhor. Oficiamos casamentos, enterros, missas memoriais. Festejamos a vida em várias ocasiões, como Ano Novo, equinócios…As tarefas são múltiplas. Cuidamos dos locais em que moramos – faxina, compras, alimentação. Somos antes de mais nada seres humanos. Seres humanos que fazemos o voto de beneficiar abertamente todos os seres, de seguir os ensinamentos de Buda – chamado de Darma, e praticar com outras pessoas que seguem a mesma senda – a Sanga. Três Tesouros: Buda, o mestre, o ser iluminado, aquele ou aquela que desperta para a Verdade, o Darma – a Lei Verdadeira, os ensinamentos sagrados e a Sanga – a comunidade que se apoia e vive em harmonia com o Darma de Buda. Um círculo completo com três aspectos.

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