Medicamentos foram apreendidos no centro espírita. (Foto: Alvaro Pegoraro)

As denúncias contra o homem de 64 anos, que por quase 20 anos atuou como médium em um centro espírita de Venâncio Aires, se sucedem. Há casos que chegaram ao conhecimento dos delegados Felipe Staub Cano e Vinícius Lourenço de Assunção, mas em nenhum deles, as vítimas referem que mantiveram relações sexuais com o suspeito. No fim de semana, no entanto, uma moradora de Canoas – onde o médium reside oficialmente -, concedeu entrevista exclusiva à Folha do Mate e relatou seu martírio. Segundo disse, foi abusada sexualmente por três anos.

Hoje, 12 anos depois do começo do ‘pesadelo’, tenta retomar a vida, mas tem dificuldades no seu relacionamento. Casou, mas diz que até hoje não gosta que fiquem encostando nela. Assim como já referido por outras vítimas, esta moradora de Canoas disse que o médium usava medicamentos ‘faixa preta’ e garante ter visto ele operando e fazendo acumpuntura em pacientes

Há cerca de oito anos ela e um grupo de pessoas denunciaram o médium em uma Delegacia de Polícia de Canoas, mas segundo referiu, nunca mais tiveram informações sobre o andamento do caso.

Ontem, o delegado Vinícius, em entrevista à Rádio Terra FM, disse que o médium não atua mais em Venâncio. Os antigos responsáveis pelo centro espírita onde ele trabalhava deixaram o local e preparam um novo ambiente para atender quem estuda o espiritimo ou simpatiza com a crença. A intenção é de abrir as portas do novo centro espírita no mês de janeiro.


“Entenda que ele [a vítima cita o nome do médium] é uma pessoa diabólica, ele entra na mente da gente de uma forma destruidora. Meus pais se arrependem por terem me largado nas mãos dele, eu fiquei presa a ele de uma forma que não sei explicar. Minha família foi destruída por causa dele.”

MORADORA DE CANOAS – Vítima do médium


Folha do Mate – O que a levou ao centro espírita?
Vitima – Em 2004, quando tinha 13 anos, perdi meu irmão, que era três anos mais velho. Foi um choque, principalmente para a minha mãe. Três anos depois, quando eu tinha 16 anos, ela decidiu procurar ajuda em um centro espírita. E eu fui junto, somente para acompanhá-la, dar força.

Como foi o primeiro dia?
Foi tudo normal. A mãe se sentiu muito bem e começamos a frequentar o local. A mãe gostava de ir lá.

O médium se aproximou de ti já na primeira sessão?
Não. Aos poucos ele foi se aproximando da família e um dia nos convidou para trabalhar com ele. Fomos, já que aquilo estava fazendo bem para a minha mãe e todos gostávamos dele, inclusive o meu pai.

Como ele se aproximou de ti, especificamente?
Depois de ganhar a confiança dos meus pais, me convidou para ir, a trabalho, até um restaurante, na cidade de Glorinha. Minha mãe permitiu e o acompanhei. Dentro do carro ele passou a mão nas minhas pernas e pegava na minha mão. Nesse dia não passou disso.

E depois deste primeiro acontecimento, vocês seguiram indo no centro espírita?
Nossa família seguiu trabalhando com o médium, até que um dia ele pediu para eu passar a noite na casa dele. Ele falou com a minha mãe que eu precisava dormir lá para fazer um tratamento de desobsessão [idêntica aos outros relatos de vítimas]. Minha mãe concordou, me deixou lá e foi embora.

E o que aconteceu?
Era uma sexta-feira. Essa foi a primeira vez que ele abusou de mim. Abusou mesmo. Fiquei travada. Voltei para casa e não falei nada aos meus pais. Vocês precisam entender que ele tem uma mente diabólica. Ele entra na mente das pessoas.

Os abusos seguiram?
Sim, naquela época eu não entendia realmente o que estava acontecendo. O médium continuou frequentando a nossa casa e um dia disse que eu tinha uma missão especial. Falou para os meus pais que eu precisava ficar mais tempo no centro espírita, tinha uma missão com ele. Tinha que parar de estudar e me dedicar mais. Meus pais acreditaram e então parei de estudar e comecei a viajar com ele. E os abusos continuaram acontecendo.

Por quanto tempo isso perdurou?
Estas viagens duraram cerca de dois meses, até que decidi que queria voltar a estudar e trabalhar. Queria seguir a minha vida e não fui mais no centro espírita. Voltei para a casa dos meus pais, comecei a trabalhar e conclui os estudos do ensino médio. Segui com a minha vida. Minha mãe também se afastou do médium.

E por que retornaram ao centro espírita?
Depois de um tempo, minha mãe voltou lá, não lembro se por conta própria ou se ele pediu para ela voltar. Ele [durante toda a entrevista, a vítima sempre cita o médium pelo nome] falou para a minha mãe que eu estava sendo obsediada por um espírito, que precisava de ajuda, que se não fizesse isso, eu iria me matar e minha mãe acreditou. Ela ficou preocupada e me levou novamente lá.

Como ele agiu a partir deste momento?
Ele dizia que recebia entidades e que conversava com elas. Um dia, disse que havia recebido uma entidade e conversou com a minha mãe como sendo uma entidade. A ‘entidade’ falou que eu tinha uma missão com o médium, que eu e ele tínhamos que ficar juntos e falou que meu irmão ia reencarnar, vir como meu filho e do médium. Minha mãe acreditou e contou para o meu pai, que também acreditou.

E então passou a viver com ele?
Sim. Comecei a viajar com ele e vim para Venâncio, mas depois de um tempo, decidi que queria voltar a trabalhar [não só no centro espírita] e fiquei morando em Venâncio. Neste período comecei a notar que ele fazia estas coisas com as mulheres, estava envolvido com outras mulheres. Disse que não queria mais, mas ele me ameaçava e dizia que eu seria infeliz longe dele. Me pressionava e me ameaçava, dizendo que se não ficasse com ele, iria encontrar uma pessoa que ia me bater e eu não seria feliz.

Além das ameaças, ele foi mais adiante?
Sim. Ele não aceitava que eu tinha que trabalhar, pois ficaria longe dele. Queria que eu ficasse sempre perto dele, e um dia ficou tão irritado que me pegou pelo pescoço e me falou coisas horríveis.

Qual foi a tua reação?
Como trabalhava em uma rede de farmácia, pedi transferência para Canoas e fui embora. Nunca mais voltei.

No total, por quanto tempo foi vítima dos abusos?
Os abusos duraram cerca de três anos e foram expostos. Ele me apresentava como sua namorada.

Quando teus pais souberam o que tu passou, qual foi a reação deles?
Eu contei quanto estava em Venâncio. Se revoltaram, se arrependeram e foram embora para Santa Catarina.

Sabe se depois de ti ele seguiu importunando outras garotas?
Sim. Quando decidi ir embora, ele começou a ficar com uma amiga minha aí de Venâncio. Com o tempo ela também descobriu o que ele fazia e se afastou. Conversamos até hoje. Fomos vítimas de um monstro.

Como está a tua vida agora?
Hoje tento levar uma vida normal, mas tenho pesadelos, sempre o mesmo, que estou presa a ele, aquela vida, que não consigo sair de perto dele. Quando conheci meu marido, tive dificuldade em me relacionar, tinha pânico quando ele encostava em mim. Aos poucos fui melhorando, mas ainda não gosto que encostem em mim.

Sabe que ele também é acusado de praticar a medicina ilegal e prescrever medicamentos aos frequentadores do centro espírita. Presenciou algumas cenas destas?
Sim. Ele fazia cortes, fazia acupuntura, secava varizes e tinha estoque de medicamentos no centro, inclusive tarjas pretas.

E tu o denunciou à polícia?
Sim, eu e um grupo de pessoas – mulheres e até um homem – o denunciamos em uma Delegacia de Polícia de Canoas, mas nunca mais foi procurada. Prestamos depoimentos há uns oito anos e soubemos que eles cumpririam um mandado para ver sobre a questão dos remédios. Mas nunca mais soube de nada. Nem sei se realmente foram na casa dele.

Sabendo por tudo o que passou e ainda passa, o que diria para quem foi uma vítima desta pessoa?
Que embora seja difícil, devemos denunciar e contar nossa história. Este médium tira a adolescência de muitas jovens, destrói famílias e uso da fé e o momento difícil para cometer estes crimes. Devemos denunciar para que isto acabe, para que outras famílias, jovens e mulheres não tenham que passar pelo que nós passamos.

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