Evaldo, com a mão nas costas da mãe, é uma espécie de apoio para ela, que enxerga o caminho (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Para os fãs de telenovelas, essa história bem que poderia fazer jus ao folhetim atual ‘das 9’. Ou, ainda, remeter aos tempos áureos do dramaturgo Manoel Carlos, com seus temas e “Helenas” que emocionaram gerações há alguns anos.

Mas a história a seguir não tem nada de ficção. Ela é real e parte está preservada há décadas dentro de uma casa de fundos entre os bairros Aviação e Gressler, em Venâncio Aires. É a história de Gersumina e Evaldo, mãe e filho, que mantêm uma conexão mais do que especial.

Ela, quase centenária (vai fazer 99 anos em março). Ele, 58, e que praticamente só tem a escuridão para onde a vista aponta desde os 12. Assim, enquanto Gersumina é, literalmente, os olhos do filho, Evaldo é uma espécie de apoio para a mãe sustentar seus passos naturalmente mais vagarosos.

“Um complementa o outro. Eu ajudo ela e ela me ajuda. A mãe é meus olhos e eu sou o esteio [apoio] da mãe”, define o aposentado Evaldo Erni Fagundes, que é deficiente visual.
Essa reciprocidade entre uma mãe e um filho, por convenção, talvez não seria extraordinária. Mas, quando se constata que essa mulher tem 98 anos e segue firme na função de cuidar quem ela gerou, esses personagens viram protagonistas e exemplos de zelo e respeito.

Um mundo à parte em cinco cômodos

Gersumina e Evaldo são figuras comuns aos olhos de muita gente na cidade. Quando vistos, no bairro onde moram, no ônibus ou nas ruas centrais, a imagem é sempre a mesma: ela à frente e ele atrás, com uma das mãos sobre o ombro ou sobre as costas da mãe. Assim acontece há anos.

Para quem vê e não conhece, diz que é Evaldo o ‘condutor’ da dupla. De uma forma ou de outra, a afirmação não está errada, porque ele, de fato, também é um apoio da idosa, enquanto ela abre caminho com olhos que não sabem o que são óculos. “Eu enfio linha na agulha”, conta, orgulhosa.

Ambos se ajudam em tudo dentro de casa, como na cozinha (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Esse é apenas um detalhe de uma rotina totalmente particular vivida pelos dois, que moram sozinhos em uma casa de cinco cômodos. Na cozinha, panelas e talheres ao alcance dos dois. Evaldo não ‘se micha’ se precisar subir numa cadeira ou fazer força, mas Gersumina, miúda no seu menos de um metro e meio, prefere as coisas à mão. Parceiros nas refeições, cozinham juntos e garantem: nunca deu briga na frente do fogão.

Na sala, um capricho de organização para manter um passatempo dos dois: a música. São cerca de 400 CDs e DVDs, de bandas locais e tradicionalistas, mantidos nas respectivas capas e sem nenhum arranhão. “Eu gosto de ouvir e a mãe de assistir às bandas”, explica Evaldo, justificando a TV 48 polegadas de uso ‘exclusivo’ da Gersumina.

ROTINA

Ambos têm boa saúde e fazem questão de mostrar os últimos exames de sangue. Tudo “bom e em dia”, como mesmo definem, sem nada extrapolando os limites permitidos. Mantêm uma rotina sem exageros, com uma alimentação que quase não tem açúcar.

No caso de Gersumina, isso pode ajudar a explicar a longevidade. “Gosto de fruta, verdura, sopa de galinha, um cafezinho com leite e nunca fumei”, ressaltou. A ênfase nesta última é porque o marido, Rosalino, fumava muito, o que agravou o câncer que lhe vitimou.

Para não dizer que a idosa não tem nada, ela toma um remédio para controlar a pressão arterial e, nos últimos tempos, apenas o joelho direito tem incomodado “um pouquinho.” “A médica disse que tenho sangue de criança, de tão bom que tá. E durmo a noite toda.”

Gersumina casou com Rosalino Fagundes em 1948 (Foto: Arquivo pessoal)

GERSUMINA

  • Gersumina Fagundes nasceu em 16 de março de 1921, em Linha Sapé. Ela é a segunda, de um total de nove filhos do casal Francisco e Marfiza, naturais de Vila Santa Emília. Eles eram dos Machado e Bittencourt, nomes tradicionais por lá no início do século XX. E, sim, familiares de muitos dos que ‘repousam’ no Cemitério dos Machado.
  • Quando casou com Rosalino Fagundes, em 1948, Gersumina se mudou para Linha Ponte Queimada, de onde ele era natural. Antes disso, namoraram durante três anos, porque Rosalino serviu no Exército, em São Gabriel. Durante a 2ª Guerra Mundial (1939-1945) chegou a viajar para o Rio de Janeiro, à espera de uma convocação para a Europa. Mas não precisou cruzar o Atlântico.
  • O casal teve 7 filhos. De quatro mulheres, a mais velha já faleceu. Quem também partiu cedo foi o próprio Rosalino, que morreu em 1967, com apenas 47 anos, vítima de um câncer. Ele faria 100 anos no próximo junho e não conheceu a maioria dos 12 netos e nenhum dos 11 bisnetos.
  • Depois da viuvez, Gersumina ainda morou alguns anos na Ponte Queimada, onde seguiu como agricultora, cultivando tabaco, milho e tudo o mais para consumo. Foi no fim da década de 1970 que ela e o caçula, Evaldo, se mudaram para a cidade, quando o bairro Aviação era mais campo que qualquer coisa. Desde então, são os dois na mesma casa.
  • Sobre as andanças de ontem e de hoje, a idosa opina sobre os tempos que Venâncio não tinha sequer uma rua calçada. “É mais difícil andar hoje. Degrau, laje solta e carro pra lá e pra cá. No meu tempo de menina não tinha nada disso. Era pó e barro, mas tudo mais fácil”, garante.
Evaldo, aos 12 anos, quando começou a perder a visão (Foto: Arquivo pessoal)

EVALDO

  • Evaldo nasceu em maio de 1961, a ‘rapa do tacho’ de Gersumina que, naquela altura, já tinha 40 anos. Foi uma criança saudável até os 12 anos, quando uma vacina mudou tudo.
  • Ele conta que naquela época a injeção lhe causou uma reação grave. Com a falta de recursos e informações, ainda não se sabia, mas o então adolescente desenvolveu a Síndrome de Stevens-Johnson, uma reação alérgica grave. Antibióticos e até analgésicos podem desencadear essa reação.
  • Na prática, Evaldo foi afetado nos olhos, desenvolvendo uma doença nas córneas. “Fiquei três meses sem enxergar nada. Depois disso e pelos próximos anos, minha visão ficou abaixo dos 20%. De um ano para cá, ‘preteou’ de vez”, relata.
  • Há cerca de 12 anos, através de um transplante, ele recebeu uma córnea para o olho direito. Mas o corpo não aceitou o novo órgão. Foram mais quatro cirurgias, todas em vão.
  • De tempos em tempos, ele tem consultas no Hospital de Clínicas e no Banco de Olhos, em Porto Alegre. É na capital, aliás, que tem participado de um treinamento, para usar a própria bengala.

E o futuro?

Enquanto seguem firmes, dividindo uma vida toda, ambos sabem que o tempo passa e há coisas que não são eternas. Por isso, Gersumina, sempre preocupada com Evaldo, foi enfática ao alertar o filho que, por enquanto, preferiu a vida de solteiro. “Vai ser a hora dele encontrar uma companheira.”

A sugestão é de quem sabe que já viveu muito. “Enquanto eu tô viva, a gente vai se ajudando. Porque eu quero cuidar dele, como ele sempre cuidou muito bem de mim. Se a gente pudesse, vivia sempre para os filhos. Tu vai saber”, afirmou, batendo a mão na perna desta repórter, que entendeu o recado. Sim, há coisas eternas, como as palavras de uma mãe com quase um século de vida.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER 

Não é todo dia que temos a oportunidade de entrar na casa das pessoas e ouvir histórias assim. E para mim, que vivo meses especiais à espera do meu primeiro bebê, foi uma honra e uma lição ver alguém, já na porta dos 100 anos, ainda cuidando da ‘sua criança’. “Cuida bem do teu bebezinho, como sempre cuidei do meu”, disse Gersumina, quando me despedi. Eu ainda não tenho condição de entender a dimensão do que é a maternidade e que espécie de mãe serei para o Rafael. Mas sei que nunca vou esquecer do que vi, ouvi e aprendi.

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