Arceniro Ferreira vive diariamente em meio à erva-mate desde 1959 (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

A carteira de trabalho tem apenas três páginas preenchidas e todas referentes ao mesmo tipo de empresa. Só três folhas, mas que contam quase 60 anos de trabalho de Arceniro Ferreira em uma ervateira venâncio-airense.

Hoje com 74 anos, ele era um ‘gurizote’ quando os pais João e Olga trocaram Vila Palanque por Linha Travessa. Não foi uma mudança tão sentida, afinal foram poucos quilômetros de andança e o mesmo barro vermelho coberto pelo verde de inúmeras lavouras de erva-mate. O cenário era praticamente o mesmo nessa região na década de 1950.

João, que tinha experiência na colheita da erva, foi para a indústria, na ervateira ‘dos Scherer’. Quando o primogênito já estava fora da escola (na época havia até o 5º ano na capela do Perpétuo Socorro), decidiu levá-lo até Silvério Rüdiger, que mantinha uma ervateira em Travessa – a mesma que originou a marca Rainha dos Pampas. “Comecei no empacotamento, porque era muito fraquinho”, recorda Arceniro Ferreira.

Então com 14 anos, não tinha lá muita força para outro tipo de serviço, já que tudo era ‘no braço’. Ferreira ficou nesse setor até voltar do quartel, com 20 anos. Depois, conforme a carteira de trabalho atesta, virou ‘socador de erva’. “Também fui para a secagem [parte que ele capitaneia até hoje], mas dependia do período, já que a safra ia de abril a setembro. Na entressafra, voltava para os pacotes de papel para embalar.”

Vivendo em tempos de muita produção, afirma que era “o dobro de lavoura nativa”. “Muitas pessoas trabalhavam na colheita e nas ervateiras. Dia e noite. Tinha muitos processos e tudo manual. Hoje, com a modernização, as coisas ficaram mais fáceis. Mas em todo lugar é assim, né?”

Ferreira (o sexto da esquerda para a direita) e seus colegas, em frente a um galpão de secagem que já não existe mais. O registro é da década de 1970 (Foto: Arquivo pessoal)

OPORTUNIDADES

Com tanta experiência no beneficiamento inicial da planta, isso lhe rendeu uma proposta para trabalhar em outro local. Mas também era para uma ervateira. “Sabe que o salário até era maior na época? Mas meus amigos estavam aqui, sempre gostei. Não tinha motivos para trocar.”

E não trocou. Na verdade, Ferreira até teve outra oportunidade para deixar a ervateira. Mas não por proposta e sim, a aposentadoria, vinda em 1995. “Fechando 35 anos de carteira e nenhum atestado médico”, conta, orgulhoso.

Assim, os poucos arranhões causados pelas galhos de erva ao longo do tempo e a vitalidade para seguir trabalhando, o fizeram optar pela continuidade. “Estamos aí. Não sei se vou trabalhar tanto como o pai, que passou dos 80 mexendo com erva e tem mais saúde que eu. Mas, quem sabe?”

CHIMARRÃO

Para quem é praticamente um ‘senhor erva-mate’, Arceniro Ferreira garante: é um grande apreciador de chimarrão e toma a bebida símbolo de Venâncio e todos os gaúchos, no mínimo, três vezes por dia. “Tô em casa, tomo chimarrão.”

Aos 8 anos, com o irmão Jair, aproveitando a rara passagem de fotógrafos pela região (Foto: Arquivo pessoal)

FAMÍLIA

  • Arceniro Ferreira é o mais velho de João e Olga (já falecida) e tem mais quatro irmãos: Jair, Leci, Leleni e Elci. Nasceu em Vila Palanque e, aos seis, foi com a família para Linha Travessa.
  • Na única lembrança ‘visível’ de criança, uma foto com o irmão Jair. No registro, na década de 1950, Arceniro está com os pés cobertos por galhos. “Eu não tinha sapato, mas o fotógrafo deu um jeito de ficar bonito.”
  • Aos 21 anos, em 1966, casou com Celia, natural de Vila Santa Emília, e teve quatro filhos: Vanderlei e Luciano (já falecidos), Edson e Glauce. Enquanto Ferreira ainda trabalha na ervateira, a esposa também segue na ativa, como costureira, em casa.

Remanescente dos tempos que era a ervateira ‘dos Rüdiger’ (hoje pertence ao empresário Jaime Bergamaschi), Arceniro Ferreira, como funcionário mais antigo, participa do projeto Escola do Chimarrão desde seu início, há mais de 20 anos.

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