Rafael diz que o quartel foi uma experiência importante e que mudou o seu modo de vida (Foto: Jaqueline Caríssimi/Folha do Mate)

Da geração dos seis filhos da família da enfermeira aposentada Lecy Maria Machado, 76 anos, e de Manoel Astor Machado, já falecido, o caçula Rafael Valmor Machado, o Rafa, 37 anos, continua morando em casa, no bairro Cidade Nova. Os irmãos de Rafael, Laércio, Lindonesa, Manoel e Antônio, constituíram família e mudaram de residência. Genésio faleceu em acidente de trânsito no ano de 1987.

É Rafael quem conta as recordações da infância, como a caça de preá, onde hoje se localiza a área de lazer do bairro Cidade Nova, a fogueira de São João, os jogos de esconde-esconde e de futebol com os amigos.

A casa, na rua Emílio Michels, foi uma das primeiras construídas naquela região do bairro. Rafael, destaca que a maioria das famílias continua no lugar, ou, então, os filhos acabaram ficando no lugar dos pais. “Algumas são as mesmas famílias do meu tempo de criança”, diz.

Rafael conta que abriu mão da profissão há cerca de três anos, para cuidar do pai e, posterior ao falecimento dele, acabou sendo o parceiro da mãe, que tem 76 anos. Como ele mesmo conta, a mãe é muito ativa e saudável, mas ele é a companhia dela. “Recordo que a mãe era procurada em casa para fazer curativos, injeções. Em função de ser enfermeira, os vizinhos sempre a procuravam e eu me escondia, muitas vezes, para não ver os curativos”, recorda.

Rafael estudou até a quarta séria na escola Wolfram Metzler, a exemplo dos irmãos. Como era colégio interno, foi matriculado na quinta série da escola Zilda de Brito Pereira. “Foi uma mudança, pois eu estava acostumado a um estilo de colégio. Não deu muito certo, eu era agitado, e fui estudar no Gaspar da quinta a sétima série. Voltei para o Zilda, no auge da minha adolescência, e reprovei três vezes no sétimo ano (risos). Eu não parava de falar. Não era cara que brigava com professora, desrespeitoso, mas falava demais, atrapalhava as aulas, mas eu era querido, as professoras acabavam aliviando. Hoje, quando vejo as professoras daquela época, eu encontro com elas e peço perdão para todas.”, destaca Rafael.

Ensinamentos que só o quartel pode trazer

Antes de ingressar na oitava série, já com 18 anos, Rafael foi para o quartel. “Até 18 anos, sempre fui o caçula da casa, não costumava dormir fora e também não comia qualquer comida, era cara mais chato para comer”, conta e avalia como positiva a experiência fora de casa e longe da família. “No quartel eu tive que me adaptar. Hoje percebo que foi um ano bem produtivo na questão de regras, pois tinha horário para almoçar, lavar a própria louça, arrumar a cama e tinha também os serviços pra tirar e os lugares pra limpar.

Aprendi a comer (risos). Pra mim fez a diferença”, ressalta Rafael, que depois de retornar do quartel de Santa Maria não voltou aos estudos, mas atuou como safreiro e no comércio de Venâncio Aires. Após alguns anos, definiu o término do ensino fundamental e médio a partir das provas de Educação de Jovens e Adultos. No início deste ano, iniciou o curso de técnico em enfermagem, pensando em seguir a profissão da mãe, mas com a Covid, as aulas foram suspensas e Rafael decidiu por não mais frequentar. “Não pretendo retomar, acho que não é meu caminho”, disse. O trabalho com o público é sua preferência. Já atuou como jogador de futebol amador pelos times de Deodoro e Marechal Floriano, já participou do CTG Chilenas de Prata, fazia parte dos grupos de danças e grupo de rodeio e de laço. ‘Fiz de tudo um pouco’.

As caçadas

Para Rafael o bairro teve um crescimento enorme. A partir das ruas que hoje são todas asfaltadas, mostra nas fotografias a paisagem dos anos 90 naquela região da cidade.
Rafael lembra que na região havia somente mato. A rua terminava na Emílio Mischels e, onde hoje é o bairro Bela Vista havia poucas ruas e quase tudo era mato. “Recordo que nestes matos eu ia com o pai e os meus irmãos para caçar preá. Não tinha rua, era só a nossa”, ressalta.

“Era estrada de chão, havia só árvores, mato, açudes. Era zona rural praticamente”, diz Rafael que conta que depois as árvores foram cortadas para fazer o loteamento. O jovem avalia que , atualmente, o bairro tem de tudo, tem escola, que é um lugar tranquilo para viver, sendo um ponto que leva para todos os lados da cidade.

“As melhores lembranças são das amizades que foram criadas e que não se perderam com o tempo, mesmo alguns morando em outras cidades. Hoje é mais difícil, mas quando dá, a gente se reúne.”

As melhores lembranças

O bairro Cidade Nova traz ao jovem que se considera saudosista as recordações dos amigos que fez e que continuam na sua caminhada. São os garotos e garotas que um dia moraram na mesma rua ou nas proximidades da residência de Rafael, e que atualmente, quando possível ainda se reúnem. “Eles são um ou dois anos mais velhos que eu. Em casa e na turma de amigos sou o caçula. Era o Julio, o Anderson, o Nelsoir, a Catia e a Carine Severo, a Maira”, recorda Rafael.

Das melhores lembranças, foi quando começou o loteamento e a turma jogava futebol, andava de bicicleta e se reunia nos locais onde antes, era mato. “A gurizada jogava futebol todos os dias de tarde, onde foi se consolidando as amizades e que permanecem até hoje. Durante a noite era a brincadeira de esconde-esconde, todos os dias, até a primeira mãe chamar para entrar em casa, pois estava escuro”, recorda.

Rafael conta que não havia perigo, as ruas não eram asfaltadas e não existia celular. “A gente parava o futebol, ia comer alguma coisa e se juntava quase anoitecendo para brincar de esconde -esconde”.

Outra lembrança da infância é que a turma fazia a maior fogueira de São João, nas imediações de onde hoje é a área de lazer do bairro Cidade Nova. “A gente pegava madeiras, taquaras, recolhia de tudo para montar a fogueira”, recorda o jovem que é integrante da igreja evangélica Tribo do Rei. É lá que Rafael se mobiliza em ações sociais com os demais integrantes do grupo, formando uma nova roda de amigos, segundo ele.

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