Uma das reuniões do grupo foi realizada no auditório da Secretaria Municipal de Educação

A palavra estomizados talvez seja nova para você, mas faz parte da rotina de dezenas de pessoas em Venâncio Aires. Tratam-se daquelas pessoas que precisaram passar por uma intervenção cirúrgica que resultou na realização de um estoma, onde são adaptadas bolsas de colostomia, quando for intestinal, para eliminação de fezes, ou de urostomia, quando tiver eliminação de urina. Algumas convivem com elas de forma temporária, outras, para o resto de suas vidas.

O procedimento ficou amplamente conhecido no Brasil através do presidente da República Jair Bolsonaro, que após levar facada na região do abdômen, durante a campanha eleitoral, no ano passado, teve que ser submetido a cirurgias para colocação da bolsa e reconstrução intestinal.

Com o objetivo de orientar e oferecer apoio aos pacientes com estima, dois profissionais da área da saúde de Venâncio Aires criaram, em agosto, um grupo de estomizados no município. A iniciativa, considerada inédita na região, é do médico proctologista Paulo Abrahão e da enfermeira da UBS Cruzeiro (antigo PAM), Aline Royer Iser, que atuam de forma voluntária.

O grupo, aberto para participação gratuita de pacientes de Venâncio e região, conta com estomizados de todas as idades. O mais jovem tem 17 anos, enquanto que o participante mais velho tem 92 anos.

APRENDIZADO E TROCAS
A troca de experiências é a principal finalidade do grupo. Depois de uma cirurgia, é normal o paciente ter receios e preocupações sobre alimentos que podem ser consumidos, atividades físicas e sexuais e, principalmente, com o cheiro, barulhos e as idas ao banheiro. “A troca de experiências auxilia na resolução de alguma eventual dificuldade que possa surgir’, observa a enfermeira Aline.

Durante os encontros os participantes compartilham dicas do dia a dia, como o processo de irrigação, que é o procedimento em que é realizada uma lavagem intestinal.

Um dos objetivos com a criação do grupo também é somar forças para, quando necessário, questionar e cobrar faltas de materiais enviados pelo Estado. “Um grupo unido tem mais força”, destaca a profissional.

MOTIVOS
Segundo o Dr. Abrahão, os motivos que levam ao uso das bolsas de colostomia, por exemplo, são diversos e a necessidade de uso pode ocorrer em qualquer momento da vida. “Desde pessoas com doenças crônicas, diverticulite, que tiveram tumores diagnosticados, câncer de intestino até pessoas que sofreram um acidente, levaram um tiro ou uma facada em um assalto, por exemplo, e precisam ser submetidas a uma cirurgia”, explica.

A orientação do profissional é de que todos os familiares, de até 1º grau, de algum paciente estomizado, procure um médico e faça exames.

“As bolsinhas salvam vidas. A criação deste grupo, que funciona de forma voluntária, é tentar fazer a diferença na vida destas pessoas.”
PAULO ABRAHÃO – Médico proctologista com experiência de quase 30 anos na área


“É importante para os pacientes perceberem que não são os únicos a vivenciarem essa experiência.”
ALINE ROYER ISER – Enfermeira da UBS Cruzeiro


Quer fazer parte?
Estomizados podem se cadastrar para participar do grupo junto à UBS Cruzeiro, localizada ao lado da UPA, com a enfermeira Aline Royer Iser. Contatos podem ser feitos pelo número 3983-1043.

Os encontros acontecem uma vez ao mês. O próximo encontro deve ocorrer entre o fim do mês de outubro e começo de novembro, em local a ser definido.


SOBRE AS BOLSAS

  • Segundo a enfermeira da UBS Cruzeiro, Aline Royer Iser, há 48 pacientes que retiram bolsas, mensalmente, na unidade de saúde localizada no bairro Cruzeiro. Os materiais para cuidados com as estomias são fornecidos pelo Estado.
  • A retirada dos materiais é feita entre o 1º e o dia 10 de cada mês. Segundo ela, os produtos são cadastrados e fornecidos de acordo com a necessidade, assim como o melhor tipo de bolsa, de acordo com as características de cada paciente.
  • Sempre que um paciente realiza estomia, a enfermeira Aline orienta que o mesmo seja avaliado na UBS e receba orientação quanto aos cuidados. A bolsa deve permanecer, no máximo, por até sete dias. A durabilidade varia, mas deve permanecer por, no mínimo, três ou quatro dias.
  • A bolsa deve ser esvaziada sempre que necessário. Quando utilizado o sistema de duas peças (placa e bolsa separadas), a bolsa pode ser retirada para realizar a limpeza, caso o paciente deseje.

Erni, aprendizado e ‘vitória’ que ele compartilha

Erni Becker é um dos participantes com mais ‘experiência’ do grupo de estomizados e também paciente do Dr. Abrahão, que foi quem diagnosticou o tumor, em 2001

Erni Becker tem 62 anos. Há mais de 18 anos ele tem uma nova parceira de vida: a bolsinha de colostomia. Foi o apoio da esposa Estelita Reckziegel e dos filhos Felipe e Rafael, que garantiu o suporte necessário para enfrentar a fase, talvez, mais desafiadora da vida dele.

Tudo começou em março de 2001. Dores e diarreia o fizeram procurar o médico Paulo Abrahão, que foi quem diagnosticou um tumor. “Cheguei a pedir opinião de um segundo médico, que só confirmou o diagnóstico.”

Em abril daquele ano Becker passou pela cirurgia e somente após o procedimento foi possível saber se a bolsa de colostomia seria uma companheira temporária ou para a vida toda. “Ele me avisou que faria dois sinais e se fosse no lado esquerdo, seria definitivo.

Quando eu acordei da cirurgia, logo fui procurar e vi que seria para sempre”, relembra.
Depois da cirurgia, a adaptação à vida normal é o maior desafio para um estomizado.

À reintegração ao meio profissional e social é um obstáculo que se enfrenta, segundo ele, com apoio da família. “Passei a ter um limite, mas sempre consegui fazer tudo que eu queria, claro, com cuidados. Hoje eu viajo para tudo que é lugar. Claro que, às vezes, a gente passa por uns perrengues.”

EVOLUÇÃO
Na época que descobriu o tumor e teve que adotar a bolsa, Becker não conhecia ninguém com quem pudesse compartilhar experiências. Com isso, adotou técnicas próprias para que pudesse garantir sua independência e privacidade, inclusive na hora da troca das bolsas. “Esse grupo é fundamental para trocar informação. Todo mundo sai de lá com ideias diferentes”, destaca a iniciativa. Atualmente, Becker somente realiza exames duas vezes por semana.

“A família é essencial para passar por tudo isso e hoje ter uma vida normal.”
ERNI BECKER – Estomizado e aposentado

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