Lituanos demonstram solidariedade aos ucranianos

Passadas seis semanas desde o início da invasão russa ao território ucraniano, o mundo inteiro continua a assistir placidamente a morte de milhares de cidadãos inocentes na Ucrânia. De acordo com alguns historiadores, o conflito poderá durar meses e o sofrimento da população e familiares só aumentará. Outros indicam para um cessar-fogo antes do dia 9 de maio, comemorado como o dia da vitória contra Hitler e feriado nacional em vários países que faziam parte do Exército Vermelho. Lembro quando morávamos em Minsk o desfile bélico do Dia da Vitória atraia milhares de pessoas e um dos maiores eventos do governo. Longe do conflito, aqui na Lituânia o sentimento de solidariedade com o povo ucraniano está estampado em cada esquina das grandes cidades, em especial na capital Vilnius, através de bandeiras, posters, vitrines nas cores amarelo e azul além da iluminação das fachadas. Desde o início da guerra os lituanos já contribuíram com mais de 19 milhões de Euros (mais de 100 milhões de reais) para a ONG Blue/Yellow que repassa medicamentos, coletes a prova de balas e vários produtos de primeira necessidade à população e tropas ucranianas.Toda semana são organizados eventos beneficentes em Vilnius, como shows de música e teatro, a fim de angariar fundos para ajudar as vítimas desta guerra absurda.

Já comentei aqui na coluna que historicamente os lituanos não se identificam com a cultura russa e desde a independência da União Soviética o país almeja aos valores dos países escandinavos e do ocidente em geral, procurando distância da Rússia. No início do mês o governo lituano anunciou que deixará de importar gás dos russos, sendo o primeiro país europeu a romper por definitivo com o poderio da Rússia no setor. Em 2015 cerca de 90% do gás lituano vinha da Rússia, em 2020 reduziram para 50% e partir deste mês zeraram as importações russas. A maioria dos países europeus depende do gás da Rússia, em especial a Alemanha (49%) e Itália (46%), mas prometem agora investimentos astronômicos no setor, na corrida para se livrar da incômoda dependência russa.

Exposição de fotos na estação de trem de Vilnius.

Na estação de trem de Vilnius os lituanos demonstram, mais uma vez, solidariedade com as vítimas da guerra. Uma exposição de fotografias da guerra da Rússia na Ucrânia na plataforma onde os trens russos passam a caminho do enclave de Kaliningrado mostra aos passageiros o sofrimento do povo ucraniano. De acordo com a mídia russa, controlada pelo Kremlin, a população russa apoia a guerra na Ucrânia. Os lituanos, no entanto, acreditam que a população russa está sendo incentivada a acreditar na retórica do governo russo sem necessariamente conhecer os verdadeiros fatos da guerra. O objetivo da exposição de imagens retratando a destruição de cidades e vilarejos é mostrar a realidade crua que não é vista nas redes televisivas russas, desafiando os passageiros russos a enxergarem o cenário sombrio provocado pelos ataques do seu próprio país. A exposição é um projeto liderado pela empresa ferroviária lituana e a associação de fotógrafos jornalistas da Lituânia com um total de 24 reproduções estampando a realidade da guerra. As imagens estão posicionadas na plataforma na altura perfeita das janelas do trem para que os passageiros da linha diária Moscou-Kaliningrado-Moscou, Adler e São Petersburgo tenham visão completa da exposição. Mais de 100 trens russos passam mensalmente pela estação de Vilnius.

O bairro onde se encontra a embaixada russa em Vilnius vem sendo palco de muitas manifestações pacíficas contra a guerra. As autoridades locais mudaram o nome da rua, denominando-a rua dos Herois da Ucrania. Na calçada defronte a embaixada são largados diariamente flores, cartazes, objetos simbolizando paz, e a população seguidamente faz vigílias com lanternas nas cores da bandeira da Ucrânia. Nesta semana, um lago perto da embaixada russa na capital foi tingido de vermelho para representar a dor e perda humana durante os combates sangrentos no território ucraniano. A campeã olímpica de natação da Lituânia atravessou o lago vermelho num gesto de solidariedade, desafiando os diplomatas russos a se posicionarem contra a guerra.

Lago sangrento em Vilnius.

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