Necessidade de reservar água e irrigar a lavoura: as lições deixadas pela estiagem

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A estiagem tem sido um problema frequente nos últimos anos. A falta de chuva tem afetado a população como um todo, tanto pela necessidade de racionamento quanto pelas dificuldades de produção enfrentadas pelos agricultores, que refletem nos preços dos produtos.

O chefe do escritório da Emater/RS-Ascar de Venâncio Aires, Vicente Fin, afirma que a estiagem tem causado muitos estragos às famílias agricultoras. “Muitas que estão começando a atividade primária desistem pelos prejuízos. É um problema inclusive social que afeta as famílias, que levam anos para se recuperar”, observa.

Os prejuízos com a estiagem, em 2022, foram estimados em R$ 72.382.910,00, no período de 1º de novembro de 2021 a 28 de janeiro de 2022, com 1.850 famílias afetadas. O impacto no milho foi o mais significativo, pois é a cultura que mais necessita de irrigação. A perda foi de 40% a 45% neste ano, contabilizando milho em grão e silagem, o que corresponde a cerca de 13 mil hectares perdidos. A perda da soja está em 28%, mas até o fim da colheita esse número deve chegar a 30%, o que corresponde a seis mil hectares.

Irrigação

Na olericultura e produção de morangos, a irrigação já é vista com mais frequência em Venâncio Aires, o que ameniza o impacto da estiagem. Além disso, produtores de algumas culturas específicas, como o arroz, já atentaram para a importância da garantia da água. “De maneira geral, se pensarmos no arroz, são 1.886 hectares de área que foi feita sistematização, sendo que o plantio corresponde a 1.850. Então no que tange a condição de irrigação por inundação o trabalho está feito. O que falta é a reservação”, reforça Vicente Fin.

Da mesma forma, quando se fala em gotejamento, que abrange as hortaliças, grãos e tabaco, são 26,5 hectares irrigados e 115 hectares por aspersão irrigados. “Isso é muito pouco perto da área total. Temos 730 mil metros cúbicos de água armazenada, mas ou ela está em local onde não é usada para irrigação ou é insuficiente para a lavoura”, argumenta o chefe da Emater.

Abastecimento com caminhão-pipa

Cerca de 2,9 mil litros de água foram distribuídos, por meio de caminhões-pipa, para famílias do interior de Venâncio Aires, tanto para uso humano quanto animal, entre o fim do ano passado e os primeiros meses de 2022. Embora em número menor, famílias seguem sendo abastecidas pelo caminhão-pipa.

Mês Litros distribuídos Famílias atendidas
Novembro 186 mil 64
Dezembro 312 mil 74
Janeiro 700 mil 122
Fevereiro 712 mil 126
Março 960 mil 130

A necessidade do incentivo público

Com uma análise geral da situação em Venâncio Aires, Fin avalia que é necessário um incentivo do Poder Público para que os produtores se sintam seguros em investir em reservatórios de água e soluções para os problemas enfrentados nos meses mais quentes e marcados pela falta de chuva. “Notamos que há procura, mas se não houver disponibilização do Poder Público, as pessoas têm uma resistência para investir recurso próprio”, analisa.

Dessa forma, ainda é tímido o avanço em formas de reservar a água e de sistemas de irrigação nas propriedades. “O produtor sente a necessidade, mas ainda não enxergou que a reserva de água é fundamental. Às vezes, ele investe em um equipamento novo e não está enxergando a necessidade de um reservatório de água para expandir a produção”, comenta.

O chefe do escritório local da Emater salienta que iniciativas como o programa de escavação de açudes por meio de projetos como o Infraestrutura Rural, do Governo do Estado, auxiliaram neste processo. Em janeiro e fevereiro deste ano, foram abertos 10 açudes, para produtores que estavam inscritos no programa desde 2017. Os contemplados seguiram critérios técnicos de avaliação do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural (Comder) e receberam visitas comprobatórias dos profissionais da Emater sobre a necessidade e viabilidade do reservatório em cada propriedade. Ao todo, um total de 8.372 metros cúbicos de terra foram movimentados para a abertura dos açudes, que devem gerar 15 mil metros cúbicos de água para irrigação. Foram 230 horas das máquinas trabalhando. A iniciativa deve ser renovada para a implantação de mais 12 açudes, agora com foco para irrigação de milho, hortaliças e fruticultura.

Irrigação em pastagem dá segurança ao produtor

Uma das lições da estiagem deixadas aos agricultores é a importância do sistema de irrigação nas propriedades. O produtor de leite João Domingos Santiago Martins, de Linha Picada Nova, investiu no sistema há dois anos. Ele diz que, principalmente neste ano, sentiu muito a diferença por conseguir irrigar as pastagens em dias de falta de chuva. “Acho que vamos chegar num ponto que não tem como pensar em produzir sem ter um sistema de irrigação”, considera.

A média de produção do agricultor é de 12 mil litros de leite por mês. Com 20 vacas em produção, o número chega a 35 com as novilhas. A irrigação foi feita exclusivamente para a irrigação das pastagens utilizadas pelos animais. A água é coletada por um sistema de aspersão implantado em um açude já existente na propriedade. O sistema de irrigação contempla 2,8 hectares de terra com pastagem para os animais.

A água para os animais beberem é coletada de um poço artesiano, que foi escavado há cerca de seis anos e abastece também a casa da família. A intenção do produtor é, para o futuro, implantar o sistema também nos aviários, que ficam junto na propriedade, mas são administrados pela filha dele. A ideia é fazer uma estrutura para utilizar os pavilhões dos aviários para coletar água da chuva para abastecer o açude.

Martins investiu no sistema de irrigação há dois anos. (Foto: Cassiane Rodrigues)

O sistema de irrigação feito por Martins é composto por um motor elétrico e cinco linhas de aspersão, cada uma tem um registro. “Eu ligo normalmente uma por dia, fazendo o revezamento. É como se chovesse a cada cinco dias”, explica.


“A irrigação é como se fosse um seguro. A gente espera que não seja necessário usar, mas é importante porque nos dá segurança.”
JOÃO DOMINGOS SANTIAGO MARTINS
Produtor rural


Trabalho contínuo e preventivo nos açudes

A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural tem trabalhado de forma contínua com a limpeza e o aprofundamento de açudes. O objetivo, segundo o secretário Gilberto dos Santos, é garantir mais estocagem de água e auxiliar os produtores rurais a se prepararem para enfrentar uma nova estiagem.

“Além da limpeza, o trabalho com draga nos açudes é feito para deixar eles mais fundos e ter reservatórios de água para o futuro. A ideia é não parar, seguir fazendo essas ações todos os anos. Estamos focados nisso”, ressalta.

Segundo ele, além de máquinas da Patrulha Agrícola do Município, há a contratação de serviços terceirizados, por meio de recursos de emendas impositivas da Câmara de Vereadores. Ao todo, são R$ 600 mil destinado à agricultura e parte está sendo utilizada para melhorias nos açudes. “Essa é uma prioridade para nós”, garante o secretário.

Ele estima que já tenham sido cerca de 200 atendimentos, incluindo o trabalho com retroescavadeira, que é mais superficial. “De serviços com a draga, para conseguir mais profundidade nos açudes, já foram em torno de 80 atendimentos neste ano”, destaca.
Santos afirma que a maior demanda está na região do Barro Branco, em localidades como Cerro dos Bois, Linha Estrela, Taquari Mirim e Estância Nova. “É uma região onde quase não tem vertente e a água ‘some’ mais fácil, se tem muita dificuldade com falta de água. Só na capatazia de Estância Nova são 1.632 pedidos de limpeza de açude com draga”, comenta.

“Sou do interior e sei a dificuldade que é a falta de água. Ela é muito importante para que a agricultura, tanto quanto a correção do solo. Por isso esse trabalho de limpeza e ampliação dos açudes não para. É uma prioridade para garantir mais reservatórios de água.”
GILBERTO DOS SANTOS
Secretário de Desenvolvimento Rural

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