*Por Ana Carolina Becker e Rosana Wessling 

Localizada no topo de um morro, com uma vista para toda a comunidade de Centro Linha Brasil, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) comemora, neste sábado, cem anos de construção. Uma edificação que orgulha os moradores e que é motivo de muitas histórias. Algumas delas fragmentadas, outras perdidas pelo tempo e muitas a serem desvendadas.

Erguida por moradores, a obra ainda mantém os traços originais, mesmo que tenha passado por reformas em 1998 e em 2019. Muitas mãos contribuem para melhorias na estrutura das paredes, na pintura dos bancos e no cuidado diário. A próxima reforma já tem local: a escadaria e o telhado que deve ser substituído por zinco.

Morando bem em frente à igreja, o casal Clari e Ervino Henn, de 63 e 67 anos, respectivamente, se orgulham de terem a responsabilidade de cuidar e zelar pelo prédio e história do local. Há mais de 35 anos, Ervino foi incumbido de tocar o sino três vezes ao dia. “Às vezes, eu precisava vir lá da roça, quase dois quilômetros, para puxar o sino, pontualmente, às 11h30min”, recorda. Além disso, outra tarefa era acordar cedo, antes que o relógio marcasse 6h para badalar o sino que anunciava um novo dia para todos os moradores. Hoje, com a tecnologia, Ervino não precisa mais tocar o sino nos horários tradicionais porque a comunidade instalou um equipamento eletrônico. Agora, a responsabilidade é apenas em caso de velórios ou cultos religiosos. Clari também exerce, com carinho, a tarefa de limpar o espaço antes de qualquer celebração. “A cada oito dias eu preciso ir lá dar água para as samambaias”, acrescenta.

Quem passa pelo local observa o capricho no pátio da igreja, com destaque para as flores e a grama cortada. Ervino enfatiza, com orgulho, o serviço de manutenção do gramado que exerce com frequência. “Parece que é fácil, mas leva mais de um dia para cortar toda essa grama no morro. Hoje é mais prático porque consigo cortar com a roçadeira”, salienta.

A IGREJA DE MADEIRA

Antes de ser construída onde está localizada hoje, a igreja evangélica tinha sua sede no lado contrário da rua e um pouco mais distante. O casal Henn conta que nos primeiros tempos, conforme relatos de antigos, a igreja era nos fundos de onde hoje residem. “Ela era em uma estrutura de madeira e tinha uma escola rural junto.”

Mesmo que a comunidade evangélica comemore, neste ano, 140 anos, o centenário celebrado neste sábado se refere à construção do prédio da atual igreja. Desde que a igreja existe, o sino é o mesmo. Segundo Ercildo Nagel, 75 anos, o sino foi trazido da Alemanha e ganhou o nome de Beta em homenagem a mulher que lhe cuidou enquanto não era instalado no local. Natural de Linha Saraiva, quando mudou-se para Centro Linha Brasil, Nagel logo tratou de se associar à comunidade evangélica. Ao longo dos anos fez parte da diretoria e guarda com carinho o trabalho desempenhado em prol da comunidade.

Ervino e Clari Henn são os responsáveis pela manutenção e ornamentação da igreja (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

PAVILHÃO DE FESTAS

Uma comunidade ‘embalada’ pelo lazer. Desde as primeiras memórias, o local sempre contou com um espaço de festas. Quem lembra desta época é Valdoci Gerlach, 48 anos. Nascido e crescido na sede do 5° distrito, ele relembra que o avô e o pai acompanharam, de perto, as quermesses realizadas no pavilhão, ao lado da igreja. “Os meus pais ficavam a semana toda envolvidos com a festa. Criavam galinhas e assavam em forno de pão para o almoço”, recorda. Ercildo Nagel conta que após alguns anos o pavilhão foi demolido e parte do material serviu para construir a Sociedade União Imigrantes do Brasil (Suib), na qual Gerlach é presidente. Local que hoje é utilizado para grande parte das celebrações e festividades das duas comunidades, católica e evangélica, além das atividades da Escola Estadual de Ensino Fundamental Cristiano Bencke.

Nagel é natural de Linha Saraiva, mas logo que chegou na localidade já se associou à comunidade evangélica (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Diretoria unida pela continuidade da fé

Mesmo que o número de sócios e simpatizantes tenha reduzido drasticamente nos últimos anos, a presidente Adriane Meri Metz, 44 anos, fala do trabalho desenvolvido para que a Igreja Evangélica siga em atividade. “O último casamento de pessoas jovens que realizamos aqui foi há 15 anos, os demais foram apenas bodas”, revela.

O secretário Auri Metz, 59 anos, destaca que no momento são cerca de 45 sócios, destes 28 são famílias, e o restante são jovens solteiros ou pessoas viúvas. “Já chegamos a ultrapassar os 100 sócios”, diz. Atualmente, o sócio mais novo tem na faixa etária de 26 anos e o mais velho ultrapassa os 80 anos.

Apesar das memórias ainda estarem vivas, muitas coisas já foram perdidas. Um exemplo, de acordo com a presidente, são documentos, atas e arquivos que possam contribuir com o resgate histórico. “Muitas coisas estão escritas em alemão. O pastor Lair Hessler [in memorian] iniciou um trabalho de resgate histórico na nossa comunidade. Se a festa fosse acontecer neste ano, iríamos apresentar a pesquisa que ele havia realizado até então”, conta Adriane, ao ressaltar que a festa foi cancelada em função da pandemia do coronavírus.

Adriane entrega a sua função em dezembro, quando termina o mandato. No entanto, o desafio é encontrar nomes que estejam dispostos a aceitarem essa tarefa voluntária. “Ninguém quer, é um compromisso.”

Adriane e Auri Metz são presidente e secretário da comunidade evangélica, respectivamente (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

RAINHA NA COMUNIDADE

Na ‘esquina’ de Centro Linha Brasil, mora o casal Nilso e Hedgar Ruppenthal, de 84 e 83 anos, respectivamente. Hedgar era filha de um dos primeiros presidentes da ‘igreja nova’. A família possuía uma venda de secos e molhados, um açougue e um salão de baile. No entanto, era missão da filha do presidente, a dona Hedgar, realizar a cobrança da anuidade da igreja. “Como eu cuidava da venda, as pessoas vinham aqui pagar a anuidade e eu cuidava do livro caixa”, recorda.

Aos 19 anos, Hedgar conta que conquistou o título de rainha, com nove mil votos, de uma das quermesses da comunidade evangélica, que foi realizada no Salão Freese porque o salão de madeira, ao lado da igreja, estava em fase de demolição.

Dona Hedgar exibe álbum de fotos relembrando sua coroação de rainha da quermesse da comunidade evangélica (Foto: Rosana Wessling/Folha do Mate)

Curiosidade

•Túmulo

No cemitério da igreja evangélica está o primeiro e único túmulo construído em direção ao nascer do sol, em 1800. Nele está sepultada Elisabetha Glier. “Construir túmulos em direção ao sol era regra dos antigos, alguns cemitérios ainda são assim”, enfatiza Auri Metz.

•Harmônio

No altar da igreja está um Harmônio, instrumento musical antigo, que inclusive era utilizado pelo falecido pastor Lair para animar os cultos. Poucas pessoas da comunidade sabiam tocar o instrumento, atualmente, ninguém mais sabe tocar o instrumento na localidade.

•Louças

No altar estão louças de prata fabricadas no ano de 1888. Atualmente elas são utilizadas durante os cultos.

•Espaço para as crianças

Antigamente a igreja lotava. Por isso, os antigos construíram uma espécie de camarim para as crianças acompanharem os cultos no fundo da igreja, no segundo andar.

Diretoria

  • Presidente – Adriane Meri Metz
  • Vice-presidente – Aurinei André Nagel
  • Secretário – Auri Metz
  • Vice-secretário – Marlise Posselt
  • Tesoureiro – Clenio Strassburger
  • Vice-tesoureiro – Marilene Strassburger
  • Além disso, a comunidade conta com um Conselho Fiscal e uma Comissão de Festa.

 

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