“Sinto falta de conviver com o povo”, diz Almedão, ao completar 80 anos

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O prefeito do povão. Até quem não acompanhou os mandatos de Almedo Dettenborn, já deve ter ouvido falar que Almedão é conhecido por ter sido um prefeito popular. Três vezes foi eleito para ocupar a cadeira de chefe do Executivo Municipal de Venâncio Aires e, por pouco, como ele mesmo referiu, não se elegeu deputado estadual.

Popularidade conquistada, pode-se dizer, sem esforço, pois o que ele mais gostava era de estar em uma comunidade, seja ela da cidade ou do interior. Mais do que estar presente, ele gostava de participar ativamente delas. Se tivesse um jogo de bocha ou de futebol, não precisava convidar duas vezes. “Sinto falta de conviver com o povo”, disse Almedo, durante entrevista que ele concedeu nesta semana à Folha do Mate, em sua residência, no bairro Brígida. Recebeu a reportagem na sala de casa, onde ele gosta de tomar chimarrão e conferir os jogos de futebol pela televisão – no momento, as reprises em função da pandemia do novo coronavírus.

A emoção foi uma marca da entrevista de Almedo, que em alguns momentos falou com a voz embargada e lágrimas no rosto. A fala pausada, intercalada por instantes de silêncio – de quem, a cada palavra pronunciada se esforçava para resgatar na memória os fatos e momentos importantes da trajetória – não deixou de lado o timbre forte, outra marca registrada de Dettenborn.

Novo ciclo

Almedo saboreia o chimarrão, bebida que ele ajudou a divulgar e fomentar com a criação da Fenachim, em 1986 (Foto: Letícia Wacholz)

Nesta quinta-feira, 16, Almedão completa 80 anos. Para marcar a data, a Folha do Mate foi recebida pelo ex-prefeito que, pela primeira vez desde que sofreu um acidente doméstico, em janeiro de 2017, atendeu uma equipe de reportagem. Na época, ele caiu da escada em sua casa e bateu a cabeça. Chegou a ficar internado durante um mês e meio na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Santa Cruz, até receber alta e voltar para casa. Com o retorno ao lar, muito comemorado, também vieram muitos desafios e a mudança radical da rotina. Quem conhece Almedo, sabe o quanto ele continuava ativo e curtia a aposentadoria fazendo o que mais gostava, como estar entre amigos, saborear um churrasco e reunir-se com o time de futebol amador que levava o seu nome. Era o que ele faria naquela sexta-feira, 20 de janeiro, dia do padroeiro São Sebastião Mártir, antes de sofrer o acidente, na madrugada anterior. A data era uma tradição no calendário do time.

“Com 80 anos, já exerci minha parte. Muita gente confiou em mim e eu trabalhei com prazer para as comunidades.”

ALMEDO DETTENBORN – Ex-prefeito de Venâncio Aires

As sequelas do acidente comprometeram o ‘vigor’ de Almedo, que, desde então, não caminha e fala com certa dificuldade. Além do lado esquerdo do corpo ter ficado paralisado, Almedo sofre os sinais da demência e, por muitos momentos durante a entrevista, foi e voltou no tempo. Todas as vezes, para lembrar o que fez ou citar aqueles que foram fundamentais em uma obra ou ação importante.

Hoje, Almedo passa os dias somente em casa, alternando do quarto para sala e vice-versa. Quado possível, toma sol no pátio de casa, em uma cadeira de rodas. No primeiro andar da casa, um quarto foi adaptado para ele. Uma cama hospitalar e uma espécie de guincho permitem que Almedo seja acomodado com toda segurança e cuidado. Tarefas que são divididas entre a família e três cuidadoras, a Josiele, Alba e Rafaela: uma durante o dia, uma no turno da noite e outra no fim de semana, respectivamente.

A rotina se resume em tratamentos médicos, sessões de fisioterapia – conduzidas pelos profissionais Marcos e Josiele – e uso de medicações diárias. Além da família e das cuidadoras, adora a companhia do rádio e da Folha do Mate, para ficar por dentro das notícias. Inclusive, comentou sobre o projeto das emendas impositivas, aprovado na Câmara de Vereadores, nesta semana.

Do acidente, Almedo não lembra. Mas isso não impediu uma ‘prosa’ longa, repleta de histórias e aprendizados. Com auxílio da esposa, a professora e vereadora Helena da Rosa, Almedo compartilhou seus desafios e garantiu: “tenho muito orgulho de tudo que fiz pela comunidade de Venâncio Aires.”

Sobre o futuro, Almedo reconhece que a saúde lhe desafia, mas revela a fórmula da vida longa: “Quero ver se vou viver muitos anos. O trabalho sempre me ajudou, nunca gostei de ficar parado.”

Um líder: prefeito dos ginásios, das indústrias, do esporte

Desde 2008, quando encerrou o terceiro e último mandato como prefeito, Almedo está distante dos debates políticos de Venâncio Aires, mas foram as sequelas do acidente doméstico que lhe tiraram das aparições públicas.

Mesmo com a memória comprometida, durante a entrevista os principais desafios em mais de 30 anos de vida política não foram esquecidos, especialmente os feitos durante os 14 anos dedicados à Prefeitura de Venâncio Aires.

Almedo é conhecido por ser o prefeito que construiu dezenas de ginásios de esportes – pelas contas dele, foram 52. Como gestor municipal também tem papel fundamental no processo de desenvolvimento industrial, pois atraiu e incentivou inúmeras empresas para o município, entre elas, CTA, Refrimate, Venâncio, Venax, América Tampas (era Petropar), Confecções Sobremonte (era Piazito), Tramontini, Madrugada e diversas do ramo calçadista, setor que gerou milhares de empregos nos anos 80 e 90.

Enquanto prefeito, conta que fazia questão de acompanhar o trabalho dos servidores de perto. “Ele acordava cedo para acompanhar os trabalhos, antes mesmo dos servidores chegarem”, relembra Helena.

Para Almedo, muito do que foi feito em seus governos teve o auxílio da comunidade e das empresas. “Minha característica era trabalhar com a participação da comunidade, com os CPMs das escolas, por exemplo. Eu trabalhava neste formato e a comunidade se comprometia.”

Dettenborn também destacou a forte relação com o interior e a criação dos grupos de terceira idade, os quais visitava com frequência. “Por que eu ganhava a eleição no interior? Porque eu nunca abandonei eles. Eu participava sempre das atividades”, disse.

Desafios

Garantir emprego e renda para a população sempre foi, para Almedo, uma das principais metas de governo. Para isso, chegou a protagonizar mobilizações que marcaram época. Para ele, um dos maiores desafios foi manter a tabacaleira Fumossul instalada em Venâncio Aires. Em 1994 a empresa estava ameaçada de fechar. “Chegamos a levar três ônibus cheios para Porto Alegre para fazer a empresa ficar na cidade”, recorda.

A mobilização acabou originando a empresa CTA – Continental Tobaccos Alliance. Um grupo de antigos funcionários da Fumossul chegou a ficar alguns meses trabalhando em uma sala, no pórtico do Parque do Chimarrão, até a CTA ser construída. “Foi erguida em cima de um campo de futebol que existia naquela área”, conta.

Outra situação destacada por Almedo foi a da Venax, uma das maiores empresas do município na época, e que faliu. Com incentivo do Município, foi reaberta por Walter Bergamaschi e Claudio Zonta. Durante a entrevista, Almedo, que foi presidente da Amvarp em duas oportunidades (1993-2007), também defendeu a luta municipalista. Segundo ele, os municípios são os mais prejudicados na divisão do bolo tributário. “Sobra muito pouco para os municípios”, destaca.

“Muito do que eu fiz foi com a ajuda da comunidade. O povo daqui é muito solidário.”

ALMEDO DETTENBORN – Ex-prefeito de Venâncio Aires

Assoeva, Guarani e bocha

O nome de Almedo também é lembrado como um grande incentivador do esporte, inclusive, foi ele quem criou a Associação Esportiva de Venâncio Aires (Assoeva), fundada com o objetivo de organizar as competições de futebol e futsal do município. “A Assoeva foi criada na cozinha do Oliveira Castilhos”, revela. Foi no ginásio da escola que a Assoeva iniciou suas atividades. “Na época nem se imaginava que a Assoeva iria tão longe. Ele é um grande torcedor, tem várias camisetas da Assoeva”, conta Helena.

No Guarani, além de atleta – 1,81 metro de altura lhe garantiu a vaga de zagueiro do time -, foi técnico e dirigente. Entre as principais lembranças do time rubro-negro está a conquista do Campeonato Gaúcho de 2002.

Mas não é apenas o futsal e o futebol que têm o coração de Almedo. A bocha é uma das paixões. Foi falar do esporte para ele se emocionar mais uma vez e lembrar do amigo Valdemar Kaufmann. “Ninguém queria jogar com a gente, pois éramos muito fortes. Uma dupla infalível”, garante. Entre as canchas, lembrou com carinho das partidas aos domingos, em Linha 17 de Junho, “terra da Hilda Fröhlich [já falecida], que foi vereadora de Venâncio”, destaca.

Incentivo dos alunos para ingressar na política

Natural de Vila Melos, então distrito de General Câmara, hoje município de Vale Verde, o filho mais novo de Gustavo Jorge Dettenborn e Frieda Trarbach herdou da família, de oito irmãos, o gosto pela política. Desde a juventude Almedo é filiado ao MDB. Embora tenha herdado do pai as ‘veias políticas’, foi na atuação como professor que Almedo recebeu o principal incentivo para ingressar na carreira política. Como professor e diretor do Colégio Oliveira Castilhos, a liderança de Almedo despontou.

Almedo completou o antigo segundo grau na escola rural Murilo Braga, em Santa Cruz, e se formou em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo. Atuou como professor rural nos anos 60. Antes de lecionar em Venâncio Aires, trabalhou nos municípios de Sinimbu e Candelária. “Fui professor de estatística”, relembra Almedo. Na mesma época, o talento para o futebol mobilizou uma força-tarefa que permitisse que Almedão fosse transferido para Venâncio Aires e assim pudesse atuar como zagueiro do time do Guarani, que disputava a Copa Governador do Estado.

Capa da Folha do Mate de 20 de novembro de 1982 trazia a cobertura do pleito que elegeu Almedo Dettenborn e Jader Ribeiro Rosa, prefeito e vice de Venâncio Aires (Arquivo/FM)

A primeira candidatura, entretanto, ocorreu na década de 70. Foi eleito vereador em 1976, com 556 votos. Não chegou a ocupar o cargo, pois a convite do então prefeito, Alfredo Scherer, assumiu como secretário municipal de Educação. A partir daí, a carreira política deslanchou. Em 1982, se elegeu prefeito, tendo como vice o advogado Jader Ribeiro Rosa, também do MDB. Em 1992 se elegeu prefeito novamente, desta vez, tendo o médico Celso Artus, também do PMDB (nomenclatura do partido na época), como vice.

Em 1998 candidatou-se a deputado estadual e fez uma votação histórica. Apesar dos 24.035 votos, não se elegeu e ficou na suplência. Em 2000 concorreu a prefeito pelo PMDB, substituindo na reta final o então prefeito Celso Artus, que buscava reeleição. Almedo foi derrotado por Glauco Scherer (PTB), falecido em 2018. Em 2004 se elegeu prefeito pelo PMDB pela terceira vez e teve como vice Airton Artus (PDT). A dupla derrotou o prefeito Glauco Scherer (PTB) que buscava reeleição. Em 2008 disputou a reeleição com Milton Deves (PP), falecido em março deste ano, como vice, mas foi derrotado por Airton Artus (PDT) e Giovane Wickert, na época filiado ao PT.

Ao longo da trajetória política também atuou como assessor do ex-deputado Gleno Scherer, em Porto Alegre, e com o ex-parlamentar Nelson Proença, em Brasília.

Curiosidade: Pai de Almedo, Gustavo Jorge Dettenborn foi uma das principais lideranças de Passo do Sobrado, inclusive, este é o nome do plenário da Câmara de Vereadores do município. O nome também foi escolhido para batizar o único filho de Almedo com Helena, o jovem Gustavo, de 24 anos.

“Parque do Chimarrão é o meu maior orgulho”

Edição de maio de 1985 registrava a vista da comitiva municipal ao local onde seria instalado o Parque do Chimarrão (Arquivo/FM)

A construção do Parque Municipal do Chimarrão, no Acesso Dona Leopoldina, foi um dos investimentos mais arrojados de Almedo Dettenborn. Ao falar da obra, as lágrimas foram inevitáveis. Para ele, esta é a maior obra do primeiro mandato e o “maior orgulho” da sua vida pública.

Ao longo da entrevista, por diversas vezes, Almedo lembrou da aquisição de terras que garantiu a construção do parque dos venâncio-airenses, em 1985, e a realização da 1º edição da Festa Nacional do Chimarrão, no ano seguinte. “Foi o povo que começou a chamar de Fenachim, a nossa Festa Nacional do Chimarrão”, conta o ex-prefeito, que indicou o vice-prefeito, Jader Rosa, para presidir a festa.

Para a realização do evento foi preciso agilizar a construção do ginásio de exposições e do Galpão Crioulo Morada Velha, o qual foi erguido em apenas 60 dias. “Funcionários trabalharam duro, durante dias, inclusive no barro, pois choveu muito. A data da festa estava marcada e tudo precisava ficar pronto”, recorda Almedo.

Almedo comemorava sucesso da Fenachim, em 1986 (Arquivo/FM)

Segundo ele, a ajuda das empresas, na época, foi essencial para patrocinar a vinda de artistas de renome nacional. Naquele edição também foi realizado o sorteio de uma ação entre amigos, que teve como primeiro prêmio, um caminhão cheio de erva-mate.

Cita ainda, a criação de uma pista de motocross para as competições esportivas e a atuação do CTG Erva-Mate, que realizou o rodeio crioulo. “Foi uma festa completa. A festa era uma novidade em Venâncio”, lembra Almedo. “Vinha gente de tudo que é lugar. Foi um sucesso”, completa Helena.

Companheira Helena

Helena da Rosa está casada com Almedo há mais de três décadas (Foto: Letícia Wacholz)

Professora e vereadora, Helena da Rosa é a parceria de vida de Almedo há 35 anos. Nego, como carinhosamente Almedo é chamado por ela, não poupa elogios quando fala da esposa. “Ela é muito trabalhadora e séria”, disse.

Sobre a atuação dela no Legislativo, Almedo disse que Helena ‘salvou a moral da Câmara’. Segundo ele, antes dela assumir a presidência da Casa, neste ano, “estavam descumprindo Regimento Interno.” Conforme Helena, Almedo sempre foi uma pessoa ativa e comprometida com a comunidade, marcas que escuta até hoje. “Ouço muito as pessoas falarem que tempos como do Almedo, nunca mais”, disse Helena, que aproveitou a oportunidade para agradecer os amigos e à comunidade venâncio-airense por todo apoio e torcida pela recuperação do marido.

Eleições 2020

Sobre as eleições municipais deste ano, Almedo desejou sucesso aos candidatos e uma campanha limpa, sem ataques pessoais. “Temos que unir a comunidade”, frisa. Citou como exemplo a mobilização de vereadores e partidos do município em busca de recursos de emendas parlamentares, em prol do Hospital São Sebastião Mártir.

Aos eleitos, pediu que façam uma administração com boa relação com a Câmara de Vereadores. “Também precisam se relacionar muito bem com as entidades e associações”, sugere. Sobre o MDB, que é o maior partido do município em número de filiados, defendeu a renovação.

Lideranças

Durante a entrevista, Almedo citou diversos nomes de lideranças, empresários, políticos e amigos, entre eles, alguns que já faleceram e, em função do acidente, não conseguiu se despedir.

Em suas falas, destacou os vices-prefeitos que atuaram com ele nos três mandatos: Jader Rosa, Celso Artus e Airton Artus. Também citou o ex-prefeito Alfredo Scherer, o qual definiu como um grande prefeito. “Ele levou energia para todo o município, em forma de mutirão”, conta.

Lembrou também do engenheiro Clacyr Marquetto. Conforme Almedo, ele foi um dos braços mais importantes para projetos da Prefeitura executados nos anos 80, na gestão de Alfredo Scherer. Outro nome lembrado por Almedo foi o de João Jorge Hinterholz que foi seu secretário e vice-prefeito de Celso Artus (1996-2000). “Ele faz muita falta”, disse.

Os amigos José Cassiano Braga e José Roberto Bremm, ex-secretários de Educação, já falecidos, também foram recordados por Almedo. Juntos, os três criaram o Conselho Municipal do Desporto.

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