135 anos: os desafios e as expectativas futuras do Clube de Leituras

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Ele nasceu do interesse em comum de um grupo de amigos para cultivar a leitura. Foi, durante décadas, o centro de grandes eventos, bailes e teatros. Sediou reuniões políticas e até hoje é um espaço para promoção do esporte e do lazer. É ponto de referência da rua Júlio de Castilhos e não há venâncio-airense que não o conheça, afinal, essa história começa antes mesmo de o município ser oficializado como tal.

Hoje, no dia em que o Clube de Leituras completa 135 anos, a pergunta é: o que esperar do futuro? Em tempos de dificuldade de manutenção das sociedades (o que não é exclusivo daqui), o Leituras tem buscado alterativas para se manter vivo e projetar os próximos anos. Esse trabalho tem sido encabeçado pelo atual presidente, Telmo Kist, que conversou com a reportagem sobre os desafios e as expectativas.

Conforme Kist, o Clube precisa manter sua origem, que a característica cultural. “Ele nasce como uma Sociedade de Leituras, então tem sua base cultural, também com dança, orquestras, shows e teatro. Quantos artistas pisaram nesse palco? Precisamos resgatar isso também.”

O presidente lembra de um comentário feito pela atriz da Rede Globo, Elizabeth Savalla, no fim da década de 1990, durante um espetáculo teatral na cidade. “Ela chamou atenção que nosso palco tem camarim, que isso é algo muito raro de ainda existir. Uma estrutura pronta para a apresentação que for, para artistas, cantores ou atores, se prepararem.”

Apresentações musicais, como as edições do Mesa de Bar, já são tradicionais (Foto: Divulgação)

Nesse sentido, aproveitando a estrutura que tem, Telmo Kist diz que em 2022 o objetivo é concretizar projetos culturais, através de leis de incentivo. “Já temos as edições do Mesa de Bar, mas estamos pensando fortemente em organizar uma semana cultural, para movimentar o clube com dança, com música, com artistas de renome. Tem muita coisa boa para esse ano. No futuro, também vejo o Clube ampliando a sua acessibilidade, investindo em novas áreas esportivas, e preservando este patrimônio de 3,3 mil metros quadrados.”

Mudança

Além da promoção de eventos diferenciados, o Clube de Leituras segue em busca de melhorias na estrutura física do prédio. Para isso, pensa alternativas para atrair novos sócios (hoje são menos de 50 ativos) e um dos caminhos foi o lançamento de um site, em fevereiro.

Através do clubedeleituras.com.br, as pessoas podem escolher o tipo de plano de assinatura: Hidroginástica, Natação, Personal aquático, Sócio familiar, Sauna e Sócio individual. Ainda através do site é possível acessar outra possibilidade de contribuir: trata-se do Sócio contribuinte, cuja campanha encerra hoje. Foram disponibilizadas 100 cartelas que custam R$ 600 cada e o objetivo é que o recurso levantado contribua para uma importante obra de acessibilidade no prédio: um elevador. Mas, para isso, Telmo Kist pondera que é necessário a continuidade dos eventos, atualmente responsáveis por cerca de 60% da arrecadação.

Quem adquiriu uma cartela, automaticamente virou sócio do Clube durante todo 2022 e pode usar os espaços e serviços, como aluguel de festas, as quadras de areia e padel, além da piscina térmica. Em dezembro, estará concorrendo a um prêmio de R$ 6 mil. As cartelas também podem ser encontradas diretamente com membros da diretoria.

Segundo o presidente, essa mudança na forma de atrair usuários e contribuintes era necessária. “Esse modelo de pagamento com carnês está ultrapassado. No site a pessoa acessa, escolhe o plano e faz o pagamento pelo cartão. O comportamento mudou e hoje as pessoas querem pagar pelo uso, não querem um compromisso mensal. Talvez o clube não tenha mais o quadro de sócios que já teve um dia, se chegou a 1,3 mil há décadas atrás, mas tantas outras pessoas podem pagar pelo aluguel e uso dos espaços. Esse é o caminho.”

“Vejo que a pandemia nos deixou uma lição: a importância da convivência social.  Por isso entendo que os clubes sociais e culturais voltarão a ter espaço importante nas comunidades. Pelas oportunidades de lazer e de cultura e pela segurança que proporciona nos eventos. O Clube de Leituras está se preparando para voltar a ser a maior expressão cultural da cidade.”

TELMO KIST – Atual presidente

Espaços

Além dos eventos no salão principal e no Piazito, o Leituras oferece espaços que contemplam lazer e esporte. Há duas quadras de areia, uma de padel, a pista de boliche, a piscina térmica e a academia de karatê. Também há um auditório, que pode ser usado para palestras e reuniões.

Piscina deve virar quadra esportiva

Fechada há muitos anos, a piscina externa do clube deve virar uma quadra esportiva. Considerada semiolímpica (25 metros de comprimento e 12,5 de largura e 2,8 metros de profundidade na parte mais alta), ela foi construída há cerca de cinco décadas, no tempo em que o ex-prefeito Rony Mylius presidiu a entidade.

“Nos últimos anos, muita gente construiu sua piscina em casa e para manter uma estrutura como essa, o custo é muito alto, sem falar que seria necessário ter um salva-vidas. É uma meta definida, transformar o local numa quadra esportiva. Precisamos criar alternativas de tornar os espaços do clube novamente atrativos”, justificou Telmo Kist.

Outro investimento previsto é a instalação de placas solares. Conforme o presidente, seria necessário um orçamento de cerca de R$ 110 mil. Atualmente, a conta de luz do Clube gira em torno de R$ 4 mil a R$ 5 mil mensais.

Piscina semiolímpica está desativada há muitos anos (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Avelino Klein: cinco vezes presidente e sócio desde 1948

Quando se fala no Clube de Leituras, é natural que muitos nomes venham à mente, com participações diferentes ao longo da história, mas talvez é o de Avelino Klein o mais corriqueiro. Não só porque o empresário aposentado, que completará 97 anos no próximo dia 8 de maio, é testemunha ocular do desenvolvimento da cidade nos últimos 75 anos, mas porque ele é considerado, por muitos, o maior presidente da entidade.

Avelino Klein, com quase 97 anos, mostra a foto da esposa Geny (1927-2012), inaugurando a pista de bolão, na década de 1970 (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Sócio desde 1948, Klein presidiu o Clube por cinco vezes e foi durante um de seus mandatos, em 1975, que foi construída a ‘parte nova’ ao lado do prédio principal, para abrigar a pista de bolão. A inauguração atraiu centenas de pessoas de times que integravam a então Federação de Bolão do Rio Grande do Sul. Para construir esse espaço, a casa onde moraram os ecônomos que cuidavam do Leituras, precisou ser demolida.

Tesoureiro de Klein na diretoria, o contador aposentado Luiz Carlos Morsch, 73 anos, lembra que, para concluir o telhado da parte nova e trocar a cobertura do prédio antigo, foi necessário buscar recursos além da contribuição dos 700 sócios da época. “Foram vendidos 50 títulos de sócios remidos, que pagaram uma cota maior. Fora as vezes que o Avelino emprestava do próprio bolso para adiantar alguma obra”, conta.

Ao lembrar desses ‘outros tempos’ do Leituras, Avelino Klein, vizinho da entidade desde 1947, lembra de famosos que cruzaram por lá, como o ex-governador Ildo Meneghetti, que comandou o Rio Grande do Sul entre 1955 e 1959, e Ieda Vargas, Miss Universo em 1963. “A Sociedade de Leituras era uma referência e tudo se realizava lá. Não apenas festas e eventos sociais, mas muitas decisões políticas também aconteciam em encontros lá dentro.”

Em 2021, Avelino Antônio Klein virou o nome do auditório do Leituras (um dos espaços remodelados recentemente e que pode ser alugado para palestras e reuniões). “Foi uma surpresa e uma emoção receber essa homenagem em vida. Me sinto muito grato por isso”, destacou o ex-presidente.

“O Clube tem um futuro importante, principalmente para as famílias. Ele já representou muito para o desenvolvimento e o crescimento de Venâncio Aires, tudo passou por ele. O que estão fazendo agora é muito importante, estão reavivando a sociedade, então vamos valorizar.”

AVELINO KLEIN – Cinco vezes presidente do Clube

Primeira parte do prédio da rua Júlio de Castilhos foi construído entre as décadas de 1920 e 1930 (Foto: Acervo Museu)

História

  • A Sociedade de Leituras foi fundada em 30 de abril 1887 – quatro anos antes de Venâncio Aires ser oficializado como município. Na época, a denominação era em alemão: Leseverein. De acordo com o livro Abrindo o Baú de Memórias, os fundadores foram Germano Schneider, Frederico Closs, Francisco Wander, José Lux, Carlos Blumhardt, Henrique Myliuse Waldemar Schauenberg.
  • Embora o ano de 1887 esteja na fachada do atual prédio, nos primeiros anos o grupo se reunia em um espaço alugado, na esquina das ruas Osvaldo Aranha com a General Osório. Foi em 1919 que uma casa foi alugada na Júlio de Castilhos e comprada no ano seguinte. Em 1928, a sociedade adquiriu um terreno ao lado, onde seria construído o prédio atual.
  • Durante uma época, o Leseverein foi denominado de Clube Comercial (devido à proibição de idiomas estrangeiros durante a 2ª Guerra Mundial). Apenas em 1968 que voltou a ser denominada Sociedade de Leituras. A entidade já abrigou biblioteca e sessões de cinema. Os associados jogavam bilhar, xadrez, bolão, pingue-pongue, basquete, tênis e futebol.
  • Em 1949, o Grêmio Atlético Venâncio Aires (Gava), que praticava vôlei, basquete e futsal, filiou-se à entidade e foi a partir deste ano que o Clube também passou a realizar os bailes de debutantes. Outro evento muito tradicional foi a Comenda da Bomba, iniciado em 1984, e que trouxe, por exemplo, artistas como Agnaldo Rayol e Cauby Peixoto.
  • O Clube também sempre foi uma referência para a história política, já que muitos prefeitos, vereadores e outras lideranças municipais integraram a diretoria em algum momento. Isso está registrado nas páginas amareladas dos livros ata, onde estão figuras ilustres da cidade e que hoje são nomes de ruas e prédios públicos, como Hermes Pereira, Emílio Selbach, Reynaldo Schmaedecke e Henrique Mylius, por exemplo.
  • Mylius, aliás, não só foi um dos fundadores do Leituras como integrou, em 1891, a junta governativa da primeira Administração de Venâncio, com Ruperti Filho e Coronel Agra. Por tudo isso e pelo que ainda as paredes do Clube devem presenciar no futuro, ele não é só uma parte da história da cidade, mas podemos dizer que se confunde com a própria.

Na noite de hoje, um jantar-baile marcará os 135 anos do Clube. Ainda há alguns cartões disponíveis – R$ 150 para casal e R$ 80 individual. Só para o baile, depois das 23h, a entrada custa R$ 50. A secretaria da entidade estará aberta até o meio-dia para venda dos ingressos.

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