Antes de o sol nascer, na Sexta-feira Santa, a tradição se repete para milhares de gaúchos: o ritual de colher os pequenos cachos da macela (Achyrocline satureioides), chamada popularmente em algumas regiões de ‘marcelaÂ’. A colheita da flor amarela reúne famílias inteiras, para cultivar uma tradição que se propagou no ‘imaginário socialÂ’. Por sua vez, de geração em geração, o fato se popularizou e, por lei, em 5 de dezembro de 2002, foi instituída como planta medicinal símbolo do Estado do Rio Grande do Sul.

A neblina que cobria o céu de Venâncio Aires, na madrugada da sexta-feira, 28, foi um convite a mais para que o ritual se repetisse entre famílias venâncio-airenses. Pois, segundo relatos de pesquisadores da cultura gaúcha, “quanto mais orvalho, melhor as propriedades medicinais da planta. Há quem diga que o sereno no dia da morte de Jesus Cristo abençoa a planta, o que aumenta o seu poder de cura.” Já para outros, o orvalho, neste dia, representa as lágrimas de Nossa Senhora. Entretanto, a crença que perpassou os tempos é de que a colheita seja feita antes dos primeiros raios de sol.

RITUAL

Para os integrantes do Centro de Pesquisas Folclóricas (CPF) Terra de Um Povo, o ritual é mantido há mais de seis anos com a realização da tradicional ‘cavalgada da macelaÂ’. Neste ano, 15 cavalarianos e mais seis no apoio se deslocaram de Linha Bela Vista, na noite de quinta-feira, 27, até a Várzea dos Camargos em Passo do Sobrado, onde foram recepcionados pela família de Jorge Moraes. Conforme o patrão Jander Deitos Rosa, às 4h, na manhã de Sexta-feira Santa, “encilhamos os cavalos e reiniciamos a cavalgada com o objetivo de colher as flores, ao longo do caminho. Foi muito interessante, além de uma boa acolhida na casa do seu Jorge, um bom peixe, a companhia dos amigos, estamos mantendo a tradição. Para Mariele Ferreira, mãe do guri farroupilha da 24ª Região Tradicionalista e integrante da entidade, Gabriel Ferreira, precisou se dividir entre a casa e auxílio ao pequeno Arthur, que pela primeira vez acompanhou o pai Joelsi Ferreira. Para Mari, como é conhecida, esta é uma cavalgada que deve ser mantida, pois se constitui de “um fato cultural.” Destaca ainda que, para os guris, o interessante é encontrar a plantinha no meio das vegetações, à beira do caminho. “Para isto, Gabriel emprestou ao irmão  a lanterninha que usava em suas primeiras cavalgadas, para encontrar a macela”, diz a mãe.

FAMíLIA

Por sua vez, a família Giovanaz mantém a tradição há 44 anos, sem interromper o hábito de colher a macela. Neste ano, tiveram ainda uma nova integrante, a publicitária Rosilene Muller, colaboradora da Folha do Mate que fez sua estreia na colheita do chá.  A Nona Hilda Giovanaz, sempre acompanhou e motivou os quatro filhos Jatir, Cleiva, Jacir e Claudiomir Giovanaz, a manter a crença. “Até os dias de hoje acordamos às 5h30min  e nos dirigimos até a casa da mãe, onde nos espera com o chimarrão pronto. E, às 6h, vamos em busca deste chá com tantas histórias. O Nono Aventino Giovanaz nos aguarda ansioso para ver se a colheita foi boa e ajuda a fazer os ramalhetes que distribuímos aos amigos e parentes. Mas o nono também  gosta de quantidade. Pois é um apreciador deste chá e precisa estocar para o ano todo”, relata a filha Cleiva Heck. “Quando iniciamos  a colheita em Venâncio, o local escolhido era chamado, na época, de morro das Guampas, hoje bairro Cidade Alta.  à medida que a cidade foi crescendo, fomos cada vez mais distante, no acesso Leopoldina, perto do Parque do Chimarrão, entrando no trevo, no Marasca, Linha Estrela.” Ela observa que a cada ano foi reduzindo a quantidade de plantas nesses locais. Nos últimos anos, os lugares percorridos pela família foram Linha Travessa, Palanque, Santo Antônio. “A qualidade do chá depende muito da data em que se realiza o Carnaval, se acontece  como neste ano, na metade de fevereiro, a macela está no ponto. Este ano a colheita foi farta e de ótima qualidade. Também, nunca colhemos à beira de estradas, pois com o monóxido de carbono, a poeira, enfim, o chá perde as propriedades medicinais”, ensina.  Diz ainda que amigos e familiares ficam aguardando ansiosos o ramalhete de presente. Mas além de colher e presentear, o chá é bastante consumido pelos familiares. Entre as receitas e indicações, o chá da macela com leite e mel, e tomado quente, é indicado para problemas pulmonares, consagrado pela sabedoria popular, e citado também por Cleiva Heck.