À espera de ‘tempos melhores’, setor calçadista segue vivo em Venâncio Aires

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A história consolidou Venâncio Aires como grande produtora de tabaco. É fato. E há muito se ouve, também com razão, sobre a força do setor da metalurgia, que criou raízes e ficou em evidência principalmente nos últimos 20 anos, com a criação e efetivação de várias empresas.

Hoje, são estes os principais ‘puxadores’ da indústria local e que garantem parte da movimentação da economia municipal e a geração de empregos. Mas, em uma história contada um pouco antes e ainda recente para várias gerações, está uma Venâncio Aires que já teve incluídos outros dizeres em seu ‘rótulo’ e que a fez uma referência no setor calçadista.

Sem dúvida, o calçado é lembrança palpável para muitos, principalmente quem tem mais de 30 anos e conviveu com algumas das sete mil pessoas que, entre os anos 1980 e 1990, trabalharam em uma fábrica ou ateliê. Os ‘dessa idade’ com certeza conhecem ou ouviram falar em nomes como Musa, Strassburger, Orquídea, Carnella, Nova Era, Arcal e Tessa, para citar alguns exemplos. Nomes conhecidos dos ‘áureos tempos’ do calçado no município, mas que hoje são referência para lembrar de algum prédio antigo ou carimbos apagados em carteiras de trabalho.

Nomes que contrastam completamente com a realidade atual, que contabiliza poucos ateliês ainda em atividade e que tem como principal fábrica a Beira Rio, de Mato Leitão. Apesar das dificuldades, o setor resiste e projeta um futuro de retomada para sua produção e consumo.

Crise econômica e concorrência ajudam a explicar queda

O Sindicato do Calçado e Vestuário foi criado em 1984, quando Mato Leitão ainda pertencia ao território venâncio-airense. Com o tempo, o nome do município não só foi incorporado à razão social da entidade, mas representa parte importante entre associados devido à unidade da Beira Rio.

A entidade, naturalmente, já lidou com um peso bem maior há três décadas, quando representava cerca de sete mil pessoas no calçado. Atualmente, segue ativa e esperançosa pela retomada do segmento. Para o presidente, João Émerson Dutra de Campos, caso o setor voltasse com tudo, Venâncio não ‘sofreria’ tanto para conseguir mão de obra. Mas, enquanto isso, ele diz que o cenário é preocupante. “Está ruim, porque de sete mil, cerca de 170 pessoas ainda trabalham em Venâncio, em cinco ateliês. É um desafio, mas se a Administração tivesse formas de trazer alguma empresa, mão de obra teria e bastante qualificada.”

Campos lembra que, no início dos anos 2000, o setor já começava a sentir os efeitos da queda, que seria motivada por várias situações. “O uso da tecnologia, a diminuição das exportações, a concorrência com a China e a briga fiscal com outros estados que levou empresas do Rio Grande do Sul para o norte e nordeste do país.”

Recentemente, quem sofreu uma baixa no setor foi a unidade local da Dass. Segundo a assessoria de comunicação do grupo, com sede em Ivoti, há uma substituição para o ramo da confecção, já que esse segmento teria a maior demanda. Hoje, a unidade local tem 125 funcionários.

Para quem já teve grandes fábricas no município, a maior referência atual é a Calçados Beira Rio, instalada em Mato Leitão há quase 12 anos. Dos cerca de 800 funcionários, metade mora em Venâncio Aires e se desloca diariamente à cidade vizinha.

ABICALÇADOS

1 Associação Brasileira das Indústrias de Calçados reiterou certos pontos destacados pelo sindicato local. Segundo o presidente-executivo da Abicalçados, Heitor Klein, o primeiro movimento de queda ocorreu em 1994, logo após a implementação do Plano Real. “Nossa moeda ficou muito valorizada em relação a outras e as exportações começaram a cair. Ao mesmo tempo, a China já dava indícios de seu crescimento e consequente concorrência.”

2 Ainda nos anos 1990, houve a migração de várias empresas para outros estados, principalmente Bahia e Ceará. “Muitos estados do norte e nordeste acabaram atraindo indústrias, não só com vantagens fiscais, mas locacionais também. Quem atuou forte sobre isso foi a Sudene”, destacou Klein, a respeito da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, criada para promover e coordenar o desenvolvimento da região.

3 O presidente da Abicalçados também creditou a dificuldade à crise econômica dos últimos anos no Brasil e que ocasionou milhares de demissões desde 2012. Na prática, com mais gente desempregada, não há dinheiro para comprar calçado e por isso fica difícil manter uma produção constante. “A indústria calçadista tem um potencial enorme, porque tem o domínio da tecnologia, não precisa importar matéria-prima e tem mão de obra.”

“O calçado tem capacidade de resposta com baixo investimento, desde que a demanda não esteja reprimida. É preciso aguardar a recuperação na economia e a roda voltará a circular.”

HEITOR KLEIN

Presidente-executivo da Abicalçados

55 mil – é o número de pessoas demitidas no setor calçadista brasileiro desde 2012, conforme a Abicalçados

Expectativa de tempos melhores

Das empresas do setor calçadista em Venâncio, a Calçados Hammes se mantém no mercado há 18 anos. Hoje são 91 funcionários, mas até 2018 apenas metade estava nela empregada. Segundo o proprietário, Vianei Hammes, em 2019 o setor está melhor em relação ao mesmo período do ano passado, por isso foi possível contratar mais. “Crescimento de 25%, podemos dizer. Tivemos aumento de pedidos da empresa para qual fornecemos e espero que essa reação siga durante o ano.”

O ateliê de Hammes trabalha só com a costura da parte ‘superior’ de tênis, botas, sapatos e sandálias, o que varia conforme a estação do ano. A produção de cerca de dois mil pares por dia, da marca Via Uno, vai para a filial da RR Shoes, de Teutônia. A matriz fica em Santo Antônio da Patrulha.

INCENTIVOS

Ao encontro da expectativa de Hammes, o prefeito Giovane Wickert também acredita na retomada do setor. “A balança comercial e a instabilidade econômica atingiram o setor, mas tem várias empresas expandindo e reaquecendo de novo. Claro que queremos uma indústria forte e presente, por isso incentivos e o programa Venâncio Sem Fronteiras estão à disposição para isso.” Ainda conforme o prefeito, em 2019 foram encaminhados três incentivos industriais para ateliês de calçado. Um deles para o Hammes, com o aluguel para seis meses.

Acélia ainda guarda o certificado de costura e folhas de pagamento da década de 1980, quando trabalhou na Musa e na Orquídea (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Vinte e dois anos na carteira e a aposentadoria

Foi em 1982 que Acélia Stumm Naue, 60 anos, trocou a Linha Saraiva, interior de Santa Cruz, pela cidade de Venâncio. Até tentou trabalhar em fumageira, na época a Fumossul, mas não gostou da experiência. “Aí apareceu a oportunidade na Musa”, conta.

A Musa Calçados, que funcionava no prédio onde hoje fica o Rancho Atacadista, foi o início da carreira de costureira de Acélia. Sem experiência nenhuma, ela lembra que o primeiro mês foi todo dedicado a um curso, o qual lhe rendeu um certificado de costureira de bolsas, mas lhe habilitou também para mexer em calçados. “Não recebi salário por esse primeiro mês, porque ele foi para ‘pagar’ pelo curso. Não fiquei muito tempo lá e logo fui para a Orquídea.”

A fábrica com ‘nome de flor’ também é histórica na cidade. A Calçados Orquídea trouxe do Vale dos Sinos uma unidade para cá e chegou a ter dois prédios: um na esquina das ruas General Osório com a Félix da Cunha e outro no bairro Brígida. Acélia trabalhou nas duas, onde ficou 11 anos. Saiu em 1993, após o nascimento do filho mais novo, Gean.

Depois disso, intercalou anos de trabalho em ateliês até 2008, quando ‘fechou o tempo’ para a aposentadoria. Na carteira de trabalho, a soma resulta em 22 anos de atuação no setor calçadista.

Saudosa, Acélia solta um ‘poxa’ quando lembra daquela época e se surpreende quando constata que os dias atuais são outros. “Hoje são poucos lugares que ainda trabalham com calçado, minha filha está há mais de 15 anos nisso. Torço para que sempre continue. Tem muita gente que precisa de emprego. Imagina se viesse uma grande fábrica de novo? Mão de obra não ia faltar.”

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