Greicieli e Delair organizam o tempo para auxiliar os filhos, Lucas e Isadora, nas atividades escolares (Foto: Taís Fortes/Folha do Mate)

A pandemia do coronavírus causou mudanças significativas na sociedade e uma das áreas que tem passado por essas transformações é a educação. Por causa da Covid-19, as aulas presenciais foram suspensas em todo o estado ainda no mês de março. Desde então, professores, equipes diretivas, estudantes e famílias precisaram repensar e se readaptar às novas formas e ferramentas disponíveis para tornar a aprendizagem possível, sem que acontecesse o contato que era praticamente diário.

Em Mato Leitão, desde o dia 15 de junho as escolas municipais estão realizando aulas remotas. Com isso, os professores preparam material e disponibilizam aos estudantes por meio de recursos tecnológicos, como grupos no WhatsApp, ou de forma impressa, para a retirada nas secretarias das instituições de ensino. Se para as escolas, muitos aspectos mudaram, para os estudantes e as famílias também foi necessário se reinventar para que as atividades antes desenvolvidas nas instituições de ensino passassem a ser feitas em casa.

Um exemplo disso é a família dos irmãos Lucas Andriel Ferreira, 12 anos, e da Isadora Laísi Ferreira, 6 anos, alunos do 7º ano e nível 6 da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Santo Antônio de Pádua, respectivamente. Segundo a mãe deles, a agente comunitária de saúde, Greicieli Patrícia Neves Ferreira, 35 anos, durante o dia, o filho mais velho inicia, sozinho, a realização das atividades impressas retiradas na escola, e à noite, quando o marido – o auxiliar de indústria, Delair José Ferreira, 39 anos – também está em casa, os dois o ajudam no que não foi possível concluir e conferem o que já foi feito.

No caso da filha caçula, as tarefas são enviadas pelo WhatsApp e, normalmente, são atividades lúdicas, que envolvem momento de brincadeiras e interação com a família, como jogos, massinha de modelar, pescaria, montagem de barraca e dança da laranja. Segundo os pais, normalmente os exercícios da escola são realizados durante a semana. Quando não é possível concluí-los nesse período, eles são feitos no fim de semana. Tanto Lucas quanto Isadora contam que sentem falta da escola, principalmente da convivência com professores e colegas.

Proximidade

De acordo com Greicieli, apesar dos desafios de conciliar as tarefas do trabalho e da casa com o auxílio na realização das atividades da escola, este momento está sendo uma oportunidade para ela e o marido estarem ainda mais próximos dos filhos. “Tiramos um tempo para participarmos ainda mais da vida deles”, destaca a agente comunitária de saúde. A mãe também observa que neste período se vê, ainda mais, a importância do professor, o papel que ele tem na formação das pessoas.

Na casa do Lucas e da Isadora, as atividades da escola são realizadas na mesa da cozinha, distante da televisão que está na sala. Os dois também fazem as tarefas em horários diferentes, para que os pais consigam dar atenção para cada um. Para muitas atividades, além dos livros, Greicieli e Delair também fazem pesquisas na internet. Para facilitar, eles tentaram estabelecer uma rotina semelhante à da escola e buscam driblar as distrações que existem em casa.

Momento prazeroso

Para os pais do Enzo Gabriel Gisch, 4 anos, Cíntia Beatriz Hillesheim Gisch e Lari Junior Gisch, o desenvolvimento das atividades em casa está sendo satisfatório e prazeroso. “Ele é um menino que gosta de fazer atividades. Então, independente de ter as tarefas da escola, já vínhamos desenvolvendo atividades educativas com ele em casa”, relata a mãe.

Ela conta que recebe o material da escola nas quintas-feiras e, por isso, normalmente, as atividades são feitas nos fins de semana. “Quando isso não é possível, as realizamos durante a semana, à noite. Não temos uma rotina estabelecida”, acrescenta. A servidora pública ainda relata que os recursos usados para as vivências variam, porque depende da proposta que precisa ser desenvolvida. “Geralmente são materiais que são encontrados na natureza, como flores, terra, plantas e pedras, ou aqueles que já temos em casa, como materiais para pintura – lápis de cor, canetinha, giz de cera ou tinta têmpera, livros, massinha de modelar, entre outros”, comenta.

Para Cíntia e o marido, o maior desafio é repassar para o filho os conhecimentos que seriam passados pelos professores. “A vivência do dia a dia na escola, por si só, já ensina muita coisa para eles e isso, provavelmente, não conseguiremos transmitir em casa. Mas, por outro lado, a vivência em casa com a família, especialmente com a chegada do maninho Murilo, está sendo muito importante também. Essa vivência não seria tão intensa caso o Enzo estivesse indo na escolinha todos os dias. Vemos que o laço afetivo entre os dois se fortalece a cada dia”, destaca.

Segundo a mãe, o pequeno Enzo, que é aluno do nível 4 da Escola Municipal de Educação Infantil (Emei) Vó Olga, sente muita saudade dos colegas, professores e da escola. “Geralmente quando brincamos, imaginamos que os colegas estão presentes. Isso de uma forma parece amenizar um pouco a saudade. Mas as chamadas de vídeo, via WhatsApp, também estão sendo válidas para ‘matar’ um pouco da saudade dos colegas e das professoras”, acrescenta.

Na avaliação dos pais, a vivência em casa está contribuindo para que Enzo fortaleça o laço afetivo com o irmão Murilo Augusto Gisch, de 8 meses (Foto: Arquivo pessoal)

Incertezas do último ano do Ensino Médio

O Ensino Médio costuma ser, para muitos estudantes, um momento de reflexão sobre o futuro e de dúvidas sobre o que fazer quando as aulas terminar. Além disso, esse geralmente é um período de preparação para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que para muitos, pode ser a porta de entrada para o ensino superior. Mas, quando, além de todos esses fatores, ainda é preciso lidar com as incertezas das aulas a distância?

Esse é o caso da estudante do 3º ano do Colégio Estadual Poncho Verde, Daniele Caroline Pereira, 17 anos. Por causa da pandemia da Covid-19, ela também precisou se adaptar ao ensino remoto. A jovem relata que está tendo aula por meio da plataforma on-line Classroom, um aplicativo criado pelo Google. “No mês de junho começamos a ter ainda mais aulas on-line com os professores e também recebemos atividades pelo aplicativo, possibilitando o acesso digital às atividades sem ser necessário ir à escola”, compartilha, ao observar que quem não tem acesso à internet, pode ir até o colégio buscar o material impresso.

Para se organizar, Daniele passou a reservar um tempo para a realização dos trabalhos e a anotar as tarefas que precisa fazer e o prazo para a entrega delas. “Minha principal dificuldade é realizar as atividades nas quais começam a surgir dúvidas e muitas vezes não tenho como questionar. Reconheço o esforço que os professores estão fazendo para nossa educação continuar, mas a distância dificulta nossa comunicação para esclarecer as dúvidas”, avalia.

Nesse sentido, ela conta que o principal desafio é o fato de não ter o mesmo contato e o acompanhamento próximo dos professores. “Mesmo com todas as atividades, às vezes, é difícil acompanhá-las. Além disso, estamos passando por um momento complicado, que tanto nós alunos quanto os professores não estávamos preparados e não sabemos como lidar”, acrescenta, ao ressaltar que, para ela, a proximidade com colegas e professores é importante para uma boa educação.

Daniele busca conciliar o tempo entre as atividades da escola e a preparação para realizar o Enem (Foto: Arquivo pessoal)

Sobre o futuro, a moradora de Vila Santo Antônio relata que o planejamento era prestar vestibular e fazer o Enem para conseguir entrar em uma universidade. “Porém, com as aulas a distância minha aprendizagem poderá ser afetada de certa forma, pois é necessário ter um guiamento sobre o que estamos fazendo ou aprendendo”, observa. Para se preparar para o exame, Daniele passou a estudar por meio de videoaulas, no YouTube. “Contudo, com a vinda de bastante atividades é preciso conciliar entre os estudos da escola e o estudo para o vestibular”, acrescenta.

Para ela, podem ser elencados como pontos positivos das aulas on-line o conhecimento sobre novas tecnologias e os formatos de aprender. “Não digo que as aulas presenciais não são suficientes, são de extrema importância, mas para estudos mais aprofundados, como para um vestibular, na internet se encontra várias maneiras de ampliar os conhecimentos”, analisa.

Para as escolas e os professores, novas formas de ensinar

Na Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Santo Antônio de Pádua, localizada no interior do município, os professores e as equipes diretiva e pedagógica se organizaram para oferecer aos alunos dois formatos para ter acesso aos objetos de aprendizagem, levando em consideração a realidade dos estudantes.

Segundo a supervisora escolar da educação infantil e anos iniciais, Sandra Elise Kroth Stertz, é possível perceber que os professores estão comprometidos e preocupados em conseguir chegar até os alunos, não somente em relação aos objetos de aprendizagem, mas em outros sentidos, como o da cidadania e os aspectos emocionais. “Eles estão sempre acompanhando, buscando retorno das tarefas”, observa.

A partir de uma pesquisa de conectividade feita pela Secretaria Municipal de Educação, Cultura e Desporto, com o apoio das escolas, foi possível conhecer mais sobre a realidade das famílias em relação ao acesso a meios digitais e à internet. A partir desses dados, a escola percebeu que não seria possível avançar tanto em relação à tecnologia. Por isso, além de criar grupos no WhatsApp por turmas, disponibiliza o material impresso para as famílias e os alunos retirarem. “Estamos trabalhando com o que é possível, dentro do contexto atual”, avalia.

Diretora Cátia e supervisora Sandra falam sobre os desafios das aulas a distância para professores e equipes diretiva e pedagógica (Foto: Taís Fortes/Folha do Mate)

A diretora da escola Santo Antônio, Cátia Roberta Vogt da Rosa, ressalta que é possível perceber que para os anos finais do Ensino Fundamental, a tecnologia tem maior efetividade, mas para os estudantes da educação infantil e anos inciais, o contato com o concreto é muito importante. Sandra e Cátia também compartilham que há muitos relatos de famílias que se engajam em fazer atividades em família e que a escola tem como objetivo manter forte o laço e o contato com os estudantes e os familiares deles.

Elas também lembram que com as aulas a distância, o professor precisa pensar em dois formatos de apresentação do conteúdo ao aluno, pois na sala de aula é possível que ele faça interferências e, com as aulas remotas, ele precisa deixar tudo bem claro para que o aluno possa compreender o assunto. A diretora e a supervisora também ponderam que a pandemia do coronavírus fez com que os professores precisassem se adequar ao novo formato de uma maneira muito rápida e que elas percebem que há uma angústia dos profissionais, famílias e estudantes em relação a toda a situação.

“Temos o entendimento de que isso não é o ideal, queríamos ter os alunos aqui para termos trocas e vivências, mas estamos fazendo o possível no momento”, salienta a diretora. Sandra acredita que precisamos tirar deste momento, a importância do diálogo. “Estamos fazendo tudo pelos nossos estudantes”, salienta.

Contato diário

A professora do 5º ano e supervisora escolar da Emef Ireno Bohn, Julia Cristina Siencia, relata que está programando o envio das atividades aos alunos por meio de grupo da turma criado no WhatsApp. Para ela, essa é uma importante forma de manter o vínculo e o contato com os alunos e com as famílias.

A professora ainda conta que busca envolver as famílias nas tarefas e que está tendo um bom retorno em relação a isso. Para Julia, o principal desafio é pensar no que os estudantes vão conseguir fazer sozinhos e o que precisão do auxílio dos familiares, sempre buscando tornar a aprendizagem o mais acessível possível.

“Sempre deixo um recado mandando um abraço e eles respondem de volta. Tem sido muito legal o carinho e o contato com eles. Eles também enviam mensagem para retirar dúvidas”, conta. A professora do 5º ano também organizou um encontro virtual com a turma pela plataforma on-line Zoom, para que eles pudessem falar sobre como estava sendo o período da quarentena e atenuar um pouco a saudade. “Metade da turma conseguiu participar”, observa.

Julia usa o WhastApp para manter a interação com os alunos e as famílias por meio do envio de atividades (Foto: Marciani Wacklawovsky/Divulgação)

Organização

  • De acordo com a secretária municipal de Educação, Cultura e Desporto, Júlia Theisen, foi acordado entre as escolas que se teria o cuidado de não enviar atividades em excesso para os estudantes para que, assim, o momento de realizá-las se torne também um momento prazeroso. “Queremos manter o cérebro ativo e o vínculo com os alunos e as famílias”, observa.
  • Na Emei Vó Olga, são enviadas por meio de grupos de WhatsApp atividades de vivência para serem feitas junto das famílias. Nas escolas Ireno Bohn e Santo Antônio de Pádua, além dos materiais pela rede social, são disponibilizadas tarefas impressas nas secretarias das instituições de ensino.
  • A Secretaria de Educação realizou um levantamento para ver qual era o nível de acessibilidade que os alunos têm à tecnologia. Com isso, segundo Júlia, se percebeu que apesar da aula on-line ser uma ferramenta muito boa para o momento, mas nem todos os alunos da rede municipal têm acesso a ela. Além disso, por meio da pesquisa se constatou que a maioria dos estudantes tinham à disposição o celular e poucos a um computador de mesa ou notebooks.
  • Conforme a secretária, os professores estão trabalhando alguns turnos presencialmente nas escolas. Nesses momentos, famílias e alunos podem agendar horários para atendimentos individuais com o objetivo de tirar dúvidas. Júlia ainda salienta que entende a angústia das famílias e professores em relação ao retorno das aulas presenciais, mas que no momento as aulas remotas são a possibilidade.

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