Bombeiro: de super-herói a compadre

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O dia 14 de janeiro de 2002 foi atípico para a equipe que trabalhava no Corpo de Bombeiros de Venâncio Aires. Desde o início da manhã, os servidores circulavam de um lado a outro para atender ocorrências de incêndios e acidentes registrados naquele dia, no município. Algo bem incomum, já que o serviço na corporação, geralmente, é mais tranquilo. Foi naquele dia que o bombeiro Vanderlei da Silva Teixeira ia se deparar com um fato que marcaria a sua vida profissional e pessoal.

No decorrer da tarde, chegou até a corporação um chamado de um acidente de carro com um caminhão, envolvendo vítimas, em Estância Nova, quilômetro 62. De acordo com o procedimento de rotina, a equipe foi até o local, mas só entendeu a gravidade da situação quando chegou ao destino.

Das quatro pessoas do carro, apenas uma jovem – moradora de Santa Cruz do Sul, na época, com 17 anos – que ocupava o banco traseiro, estava com vida. “No momento do resgate, ela estava inconsciente e apresentava traumatismo craniano e várias fraturas pelo corpo. Sobre ela, estava o namorado, já falecido”, recorda o bombeiro, que atualmente ocupa o cargo de sargento.

Durante o deslocamento da vítima até o Hospital São Sebastião Mártir (HSSM), Teixeira relembra que Gisele Kniphoff Tessmann sofreu parada cardíaca e teve que ser reanimada durante o trajeto, com ressuscitação cardiopulmonar, popularmente conhecida como massagem cardíaca.

Assim que souberam do acidente, os pais da vítima se deslocaram até o hospital. “Logo a seguir tive que atender uma outra ocorrência e não consegui falar com eles”, lembra o bombeiro. Teixeira recorda que os pais souberam do acidente porque ligaram para o telefone do condutor do carro e alguém atendeu o celular do falecido, comportamento que não era permitido nas ocorrências.

Na época, Teixeira lembra que não havia Unidade de Terapia Intensiva (UTI) no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM) e, devido à gravidade do caso, Gisele foi encaminhada para Santa Cruz do Sul.

Entre as inúmeras ocorrências que foram realizadas por Teixeira durante a profissão, esta ficou marcada na memória do bombeiro. “Sempre que eu encontrava Vera Helfer, uma das médicas responsáveis pelo atendimento da Gisele, eu perguntava se a menina estava reagindo bem”, recorda o sargento. A jovem ficou durante um mês na UTI e mais três meses hospitalizada. Ela só retornou para casa, em 11 de maio de 2002.

Teixeira observa que, até hoje, ela convive com as sequelas deixadas pelo acidente. “Gisele apresenta dificuldades para caminhar e comer. Além disso, ficou com problemas na fala e na memória. Desde que retornou para casa, ela realiza o tratamento com a fonoaudióloga e fisioterapeuta”, explica.

Reencontro

Desde o acidente, Teixeira tinha o desejo de reencontrar Gisele. Ele só sabia por meio de outras pessoas, o estado de saúde da jovem, que sobreviveu ao acidente registrado naquela tarde de janeiro. Porém, ele nem imaginava que algumas circunstâncias iriam aproximá-los mais uma vez.

Em dezembro de 2004, a esposa do sargento, Kerlen Raquel Correa Teixeira, se preparava para ir ao jantar de formatura, de conclusão do curso de Telessegurança do trabalho. Devido aos compromissos com a faculdade de Enfermagem, Teixeira não ia acompanhá-la no evento. Porém, um imprevisto fez com que ele mudasse os planos e, então, ele foi com a esposa para o jantar.

Durante a cerimônia, a professora paraninfa, Erotides Tessmann, fez um agradecimento à turma. Assim que ela falou o nome da filha Gisele, Teixeira ligou os pontos: descobriu que se tratava da jovem daquele acidente.“Eu não sabia o que fazer, tremia muito depois que ouvi aquelas palavras”, recorda o sargento. Depois do pronunciamento, ele procurou a professora e contou que havia salvado a filha dela, naquele dia.“Eu tive aquela menina morta em minhas mãos e consegui reanimá-la”, conta com emoção. Após a apresentação, Erotides abraçou o sargento, agradecendo pelo carinho dedicado à Gisele, durante aquele momento de fragilidade. “Fiquei em estado de choque, porque convivia com a Kerlen (esposa do Teixeira) e sempre falava em aula sobre o acidente, mas nunca conseguimos ligar os fatos”, recorda.

Depois de contar a história às demais pessoas que estavam ao redor, todos se emocionaram com a atitude do sargento. “Para nós, saber de tudo isso foi superemocionante, ao mesmo tempo nos trouxe um sentimento de pavor, porque passou um filme em nossas mentes, e naquele momento entendemos a gravidade do evento”, afirma a mãe da jovem.

Para o bombeiro, entretanto, o momento mais marcante daquela noite foi quando Gisele pediu ajuda ao pai, para ir até ele e agradecê-lo pessoalmente. “Ela me deu um abraço e, mesmo com dificuldade para falar, ela me disse ‘muito obrigada’”, recorda o sargento.

Para Gisele, que hoje tem 35 anos, o carinho era recíproco. “Fiquei muito feliz, tinha só vontade de abraçar e agradecer, por tudo o que o Vanderlei fez para me salvar, depois que me contou o que tinha feito no dia do acidente”, conta.

Gisele e o sargento Teixeira comemoraram o aniversário de 15 anos de Arthur, na tarde de ontem. (Foto: Arquivo pessoal)
Gisele e o sargento Teixeira comemoraram o aniversário de 15 anos de Arthur, na tarde de ontem. (Foto: Arquivo pessoal)

Famílias mantêm laços de amizade

Desde que se reencontraram, as famílias de Vanderlei Teixeira e Gisele começaram a conviver mais. “Nos reuníamos praticamente todos os fins de semana, principalmente no verão”, recorda Erotides.

Os laços afetivos entre as duas famílias se tornaram tão intensos que Teixeira e a esposa convidaram Gisele e o pai dela, Oly Tessmann (já falecido), para serem os padrinhos do filho Arthur. “Fiquei muito feliz e emocionada com o convite. Para mim, este foi mais um motivo para viver e melhorar a cada dia, pois adoro criança e sentia que precisava acompanhar o Arthur”, destaca Gisele. Ela acrescenta que a relação dos dois é de muito carinho e admiração. “Ele é um menino prodígio e acima de tudo, é filho do ‘meu herói’”, afirma a madrinha de Arthur. Além disso, a irmã de Gisele e o pai Oly são padrinhos do segundo filho do sargento, o Benhur, 9 anos.

Sobre Gisele

  • Além de ter sido internada no hospital de Venâncio Aires, Gisele também foi internada no Hospital Santa Cruz (50 vezes – pois tem crises frequentes de infecção bacteriana); Hospital Sarah Kubitschek, em Brasília (três vezes), e Hospital de Caridade Dr. Astrogildo de Azevedo, de Santa Maria (10 vezes).
  • Após o acidente, Gisele foi submetida a várias cirurgias, entre elas, reconstrução do fêmur, da clavícula e do maxilar, e dez cirurgias nas cordas vocais.
  • A jovem ficou com sequelas após o acidente, como perda do equilíbrio e da fala.
  • Antes do acidente, Gisele jogava basquete e o seu apelido era Gicabala08, porque vestia sempre a camisa 8. Atualmente, é chamada de Gika. Segundo a mãe, ela era uma grande atleta e praticava todas as modalidades de esporte, na escola e no clube.
  • Mesmo com as limitações, Gika adora participar de shows. Além disso, gosta de assistir à TV, passear, escutar música e jogar em seu computador.
  • Ela também adora assistir a jogos de basquete, voleibol, patinação e natação.
  • Arthur, o filho do sargento Teixeira, foi o primeiro afilhado de Gika. Ontem, ele completou 15 anos.
  • A família de Gisele é natural de Venâncio Aires, exceto Oly, pai da jovem (já falecido), que nasceu em Lajeado.

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