Chegadas e partidas: a rotina de quem encontrou fora do seu município uma oportunidade para trabalhar

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São cerca de 25 minutos de caminhada até o ponto de ônibus, onde embarca todos os dias às 6h. Dentro dele, mais de hora um hora para percorrer os 63 quilômetros que separam Vale do Sol de Venâncio Aires. No fim da tarde, o caminho inverso leva o mesmo tempo e distância, mas isso não tem sido problema nos últimos 11 anos.

“Não minha cidade não tem indústria”, justifica Rosângela Cristiane Flesch, 29 anos, que está na 12ª safra em uma tabacaleira de Venâncio. É na Alliance One que a moradora de Vale do Sol teve sua primeira e única experiência com carteira assinada até hoje. Trabalhando como apontadora no recebimento do tabaco, ela diz que aqui encontrou uma oportunidade. “Eu sou agricultora e tenho ensino médio. Para trabalhar fora da agricultura na minha cidade é muito difícil, então vir para Venâncio foi o caminho que encontrei.”

Rosângela mora na localidade de Rio Pardense, junto com os pais, que sempre cultivaram tabaco. Ela começou na Alliance por recomendação de uma vizinha, que já trabalhava na empresa. “Como eu ajudo meus pais, trabalhar na safra dá certinho o tempo que não estamos no fumo. Venho para cá de janeiro a agosto e tem sido ótimo, porque gosto de trabalhar com pessoas e aqui fui acolhida.”

O movimento diário da Rosângela, que mora fora mas todo dia se desloca a Venâncio para trabalhar, é muito comum nas tabacaleiras do município. Com uma grande demanda por mão de obra, principalmente nos meses de beneficiamento do tabaco, nem toda vaga é suprida por moradores locais e, por isso, as empresas recorrem a esse incremento ‘forasteiro’.

No caso da Alliance, segundo a assessoria de comunicação, a empresa informou que prioriza as vagas nas cidades onde têm suas unidades, mas, quando é necessária complementação, busca candidatos em outras regiões e procura facilitar o deslocamento através do transporte fretado. Ainda de acordo com a Alliance, há muitos empregados de outros municípios, mas o que também reforça a relevância do setor na geração de emprego e renda nas comunidades.

“Gosto de trabalhar em Venâncio e não me importa o tempo na estrada. Eu acordo feliz e disposta todos os dias a vir para a empresa que me acolheu e virou minha segunda casa.”

ROSÂNGELA FLESCH – Moradora de Vale do Sol e apontadora na Alliance One de Venâncio

Dificuldades

Rosângela Flesch é, atualmente, uma das mais de 12,5 mil contratações no setor da indústria de Venâncio Aires, responsável por 61% do total de pessoas com carteira assinada – conforme dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) de março.

Flávio Bienert, proprietário da Faires, relata que parte da mão de obra da empresa vem diariamente de outros municípios (Foto: Arquivo Folha do Mate)

Desse total, não há uma estimativa de quantas pessoas de outros municípios trabalham em Venâncio Aires, mas esse movimento não é sazonal, portanto não ocorre apenas em função das fumageiras. “Todos os dias, tem funcionários que vêm de Santa Cruz, Mato Leitão, Vera Cruz e Montenegro, por exemplo”, destaca o empresário Flávio Bienert, proprietário da Fundição Venâncio Aires (Faires), que emprega atualmente cerca de 400 pessoas.

Na empresa dele, não foi possível preencher as vagas com mão de obra ‘100% venâncio-airense’. “Quem quer trabalhar em Venâncio, tem emprego, mas infelizmente temos dificuldades de achar candidatos. No nosso caso, tentamos oferecer condições boas, como um salário condizente, café da manhã, almoço, médico, dentista e rancho para quem não falta.”

Se preencher vagas com candidatos locais já é considerado difícil pelo empresário, Flávio Bienert revela uma preocupação futura, já que está em vias de aumentar a produção, com um novo pavilhão de 800 metros quadrados. “Pelo menos 40 novas vagas vão ser abertas e, sinceramente, não sei se vou encontrar essa mão de obra. Hoje precisamos mandar peças para Caxias do Sul para dar acabamento, porque aqui não tem mão de obra suficiente.”

Embora traga sua experiência da empresa que comanda há quase 30 anos, Flávio Bienert entende que o problema não é exclusivo de Venâncio Aires ou de um único setor. “Conversamos entre outros empresários da cidade, seja indústria, serviços ou comércio, e a dificuldade é geral. Mas fora daqui também é. Tem um conhecido em outra cidade que está precisando de 276 trabalhadores na sua empresa e não consegue.”

“O mais importante é trabalhar”

Paralelo aos que chegam em Venâncio diariamente para trabalhar, estão os que encontraram fora do município uma oportunidade, como o casal Luis Alberto Barboza Silva, 57 anos, e Roselma Medianeira Barboza Silva, 54 anos.

O casal Roselma e Luis foi contratado no início do ano na Beira Rio de Santa Clara (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Moradores do bairro Coronel Brito, eles estão em Venâncio há oito meses. A mudança ocorreu para ficar mais perto da filha Keila, que casou com um venâncio-airense, mas também porque em Santa Maria, onde moravam, conseguir trabalho estava difícil. “Tava ruim de serviço lá”, resumiu Luis.

Nos primeiros tempos, ele até tentou seguir no ramo da construção civil, no qual já tinha experiência, mas não teve sucesso. “Larguei currículo numas 10 empresas, mas muitas pedem experiência, ou procuravam pessoas mais jovens. Daí fui no Sine e lá teve uma seleção para Beira Rio. Tanto eu como minha esposa fomos selecionados.”

Desde fevereiro, Luis e Roselma vão todos os dias a Santa Clara do Sul, onde está uma unidade da empresa calçadista. “Estamos felizes porque tem empresa que não contrata casal e nós tivemos chance. Nunca trabalhamos em calçado, é nossa primeira experiência, mas estamos aprendendo lá dentro mesmo”, destacou Roselma.

Sobre a necessidade de deslocamento diário – são 26 quilômetros entre Venâncio e Santa Clara -, Luis é enfático: “Para nós, que já passamos dos 50 anos e que não terminamos a escola, viajar não é problema. O mais importante é trabalhar.”

Intermediação

Cristiano Kaufmann é coordenador do Sine (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

De acordo com uma estimativa da Agência FGTAS/Sine de Venâncio Aires, sem considerar as tabacaleiras, são mais de 1 mil trabalhadores que se deslocam para trabalhar em empresas de fora do município. “As que mais contratam são frigoríficos e logo após fábrica de calçados. No setor calçadista, com as duas empresas da Beira Rio, de Mato Leitão e Santa Clara, são em torno de 325 trabalhadores de Venâncio. Mas esse movimento de entradas e saídas para outros municípios acontece em várias cidades. Assim como quem trabalha fora, há muitos que vêm para cá todo dia”, destacou o coordenador do Sine, Cristiano Kaufmann.

É no Sine, que semanalmente anuncia oferta de vagas, seja para Venâncio ou para a região, que esses ‘deslocamentos’ se evidenciam como caminhos mais corriqueiros. Além disso, a agência já se estabeleceu como uma via importante para quem está atrás de trabalho. Só em março, o local sediou mais de 400 entrevistas, intermediando o contato com várias indústrias.

Para Kaufmann, o fato de o órgão estadual, conveniado com o Município, oferecer o serviço sem custos para empresas e trabalhadores, precisa ser valorizado. “Temos uma estrutura e um espaço organizado, com sistema de senhas como banco. Mas o principal é oferecer um atendimento mais humanizado, porque muita gente vem com autoestima baixa e isso mexe com a dignidade das pessoas também. Acho que estamos conseguindo ajudar.”

Atualmente, são cerca de 150 a 200 vagas oferecidas na agência por semana, sendo que apenas 20, em média, são novas. O motivo é que a maioria permanece em aberto por não encontrar candidatos suficientes ou são cargos que exigem qualificação.  

“O principal é oferecer um atendimento mais humanizado, porque muita gente vem com autoestima baixa e o desemprego mexe com a dignidade das pessoas também. Acho que estamos conseguindo acolher, orientar e ajudar quem está atrás de trabalho.”

CRISTIANO KAUFMANN – Coordenador da Agência FGTAS/Sine

No próximo sábado, 14, a série destacará a importância do estudo e da qualificação profissional para quem almeja novas oportunidades. Em paralelo a essa realidade, o setor que, mesmo sem cobrar diploma escolar na hora de contratar, sofre para atrair funcionários.

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