Martha Medeiros lançou recentemente o romance 'A claridade lá fora' (Foto: Reprodução/Facebook)

A escritora Martha Medeiros será a patrona da 21ª Feira do Livro de Venâncio Aires, que ocorre de 21 a 24 de outubro. Ela participa de um bate-papo virtual na abertura do evento, na quarta-feira, 21, a partir das 19h30min.

Antes disso, a Folha do Mate conversou com Martha e traz parte dessa entrevista, destacando sua opinião sobre a leitura em tempos de pandemia, a criação do hábito de ler e o mercado literário. A sequência da entrevista, com foco na obra da escritora, será publicada na terça-feira, 20.

Folha do Mate: Você será patrona de uma feira do livro que traz como tema o ‘Ler é para todos’. Especialmente por estarmos neste ano atípico, onde o acesso à educação foi colocado à prova (muitos alunos sem estrutura para acompanhar as aulas), manter a motivação para o estudo tem sido difícil. Nesse sentido, as escolas sempre foram importante meio para ajudar a ‘apresentar’ os livros às crianças. Mas, com a distância e outras dificuldades, como seria possível fazer com que o interesse pela leitura não caia ainda mais?

Martha Medeiros: Escolas fechadas, realmente, não ajudam em nada a propagar a leitura. Mas, durante as aulas virtuais, os professores devem continuar recomendando livros interessantes, divertidos, lúdicos, aproveitando que as crianças estão mais tempo em casa. E os pais devem fazer sua parte, lendo para seus filhos, criando neles o prazer de escutar uma boa história, e depois incentivá-los a ler por eles mesmos. Não é fácil, eu sei, ainda mais com a concorrência de games e redes sociais. Então o que precisamos promover é uma mudança de mentalidade. Muitas crianças acham que ler é chato, que exige uma concentração que elas não têm, etc. Temos que reverter essa ideia. Precisamos ‘dessacralizar’ o livro e fazer com que as crianças o considerem tão divertido quanto escutar música, ver um filme, assistir a uma peça. Livro é arte e entretenimento, juntos. Deve ser considerado um passatempo bacana como qualquer outro e não uma obrigação. Esse tipo de pressão não funciona. Quando as crianças crescerem, elas perceberão todas as vantagens que ganharam ao se tornarem leitores.

Você acha que o gosto pela leitura tem idade certa para acontecer? Tem alguma ‘receita’ para uma criança ou adulto criar o hábito?

Receita não tem, quem dera tivesse. Acho que ler para crianças é um bom caminho para criar o hábito. Dar livros de presente, livros com jogos incluídos, livros com música, livros interativos, livros que parecem brinquedos. Acho importante que os pais sejam leitores de verdade, não de mentirinha: que haja muitas estantes lotadas de livros em casa, para que as crianças se familiarizem com o objeto. Nada disso garante que amarão os livros, mas ajuda. Quanto mais cedo começar, melhor. Mas sei de adultos que não tinham o hábito e começaram a ler depois dos 35 anos, 40… É importante que se coloque um livro cativante nas mãos deles, de leitura fluida, daqueles que não se consegue largar. Se lerem um até o fim, poderão ler outro e outro mais.

Entre os que não têm o hábito da leitura, mas querem dar o primeiro passo, sempre a mesma pergunta: por onde posso começar? Para você, qual seria uma boa dica para começar a ler?

Acho que é preciso conhecer a pessoa. Ela gosta muito de esporte? Dê a ela a biografia de um esportista famoso. Gosta de moda? Idem. Só vê filmes de mistério e suspense? Um Stephen King. Está passando por uma desilusão amorosa? Um livro de autoajuda, ou um livro que relate um caso parecido. Hoje em dia as pessoas querem que o livro seja “útil”, então que seja. Vamos ganhar o leitor pela proximidade com o universo dele. Depois ele mesmo diversificará para outros títulos mais abrangentes.

Há quem diga que a leitura só não é maior no Brasil porque os livros são caros e até em feiras, muitas vezes, não há promoções. Você acredita que o preço ‘afasta’ um público potencial? Ou na verdade o produto e os escritores mereceriam uma valorização ainda maior?

No Brasil se lê pouco porque não temos investimento maciço em educação. E a desigualdade social é enorme: se milhões de pessoas vivem de forma tão apertada, ganhando o mínimo para sobreviver, como investirão em livros? Precisamos antes virar um país mais justo e igualitário, com emprego e valorização da cultura como um bem de primeira necessidade.

“Livro é arte e entretenimento, juntos. Deve ser considerado um passatempo bacana como qualquer outro e não uma obrigação.”

MARTHA MEDEIROS – Escritora

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