Participação de lideranças do comércio, indústria e serviços no Gabinete de Crise foi decisiva nas ações do Covid-19 (Foto: Divulgação)
Participação de lideranças do comércio, indústria e serviços no Gabinete de Crise foi decisiva nas ações do Covid-19 (Foto: Roni Müller/Folha do Mate)

Equilíbrio entre a economia e a saúde. Esta, certamente, foi a afirmação mais repetida em Venâncio Aires desde que a pandemia de coronavírus virou realidade no município. Talvez tenha ficado atrás dos reiterados apelos para que a população permanecesse em casa, no princípio de tudo, mas logo que se evidenciou a necessidade de manutenção das atividades econômicas em paralelo aos cuidados para evitar a disseminação da doença, a frase passou a ser utilizada constantemente por autoridades e empresários.

Desde muito cedo a Capital Nacional do Chimarrão se notabilizou pelas ações de combate à Covid. E, neste cenário, ganharam destaque as lideranças da Câmara de Comércio, Indústria e Serviços de Venâncio Aires (Caciva). Assim que o prefeito Giovane Wickert decidiu criar o Gabinete de Crise, para acompanhamento da evolução do coronavírus e busca de alternativas para superar a doença, o presidente da entidade, Vilmar de Oliveira, os três vice-presidentes – Airton Bade (comércio), Júnior Haas (indústria) e Alberto Kappel (serviços) – e a gerente administrativa, Lisete Stertz, participaram ativamente do grupo.

Hoje um pouco mais tranquilo, em virtude da tendência de desaceleração da Covid-19, Vilmar de Oliveira, de 61 anos, lembra que, no começo, o contexto era de atipicidade e preocupação. A participação no comitê, sustenta ele, “foi a oportunidade de estar por dentro das decisões, expor o nosso ponto de vista e levar as informações para os associados”. De acordo com o presidente, por vezes não havia unanimidade nas decisões, “mas saíamos dos encontros com a unidade em torno do que havia sido definido”. Assim, acredita Oliveira, o colegiado se fortaleceu e não deixou margem para dúvidas ao compartilhar as informações.

Sócio-diretor da LT Vaires Indústria de Conexões Elétricas Ltda, fabricante de plugs com cabos e redes elétricas para equipamentos de refrigeração, panificação, eletrodomésticos e jardinagem, ele comenta que em 20 anos de atuação jamais viveu algo parecido. No início da pandemia, ficou com a empresa fechada por 15 dias e deu férias coletivas para os funcionários, em abril. “Depois, retomamos as atividades, respeitando todos os protocolos e normas de segurança. A produção foi aumentando gradativamente e, hoje, está nos patamares de antes da pandemia, com a perspectiva de continuar assim”, projeta.

Experiência e diálogo

Vice-presidente de comércio da Caciva, Airton Bade, de 55 anos, recorda que a arrancada da pandemia deixou os empresários de mãos amarradas. “Não se podia vender, não tinha como receber e permaneciam todas as nossas obrigações para honrar. Em um primeiro momento, ninguém sabia o que fazer, já que as notícias davam conta de que a situação só ia piorar”, afirma. Foi no diálogo do dia a dia com outros empresários, representantes da Prefeitura e, principalmente, com seus funcionários, que as soluções começaram a aparecer. “Duas das minhas colaboradoras ficaram psicologicamente muito abaladas e precisaram se afastar por 60 dias. Outras duas não tinham com quem deixar seus filhos para trabalhar e também tivemos que fazer adaptações. Além disso, houve demissões. E tudo o que vivíamos era discutido praticamente em tempo real nos encontros do Gabinete de Crise”, diz Bade.

Cartilhas

• A gerente administrativa da Caciva, Lisete Stertz, de 54 anos, ressalta que a cada definição consolidada no Gabinete de Crise, a entidade elaborava cartilhas didáticas para que os associados soubessem as regras a seguir, o que era permitido em cada momento e o que estava proibido.

• Ela destaca que assim que os comerciantes, industriais e prestadores de serviços se deram conta de que a única forma de manter minimamente as atividades seria a partir do cumprimento dos protocolos estabelecidos nos decretos, o processo de conscientização do conjunto ficou facilitado e não houve surtos da doença nas empresas de Venâncio Aires.

• “A entidade não podia fazer terra arrasada. Sabíamos que o mais importante era preservar vidas, mas aos poucos notamos que era possível atender o que a legislação impunha e manter a roda da economia girando”, comenta Lisete, acrescentando que, após o susto por conta da possibilidade de fechamento das empresas por até dois meses, foram criadas as condições para permitir a operação dos negócios em todos os setores.

Destaque para a política de bom senso

Vice-presidente de serviços da Caciva, Alberto Kappel, de 27 anos, sócio-diretor da Kappel Imóveis, que tem uma história de 43 anos, avalia que os avanços e permissão para flexibilizações obtidos junto ao poder público foram resultado de uma política de bom senso. Ao mesmo tempo que havia o temor de liberar o funcionamento de alguns negócios e deparar com a necessidade de regressão, era necessário agir. “Tínhamos a convicção de que não era possível todos ficarem em casa. Havia consenso de que os integrantes de grupos de risco tinham que ser preservados e que os protocolos precisavam ser seguidos à risca, mas também era necessário trabalhar”, relata.

Como exemplo, cita o caso das indústrias, cuja oscilação no percentual de produção gerava prejuízos incalculáveis e desordem na cadeia de suprimentos. Kappel revela que o conhecimento absorvido nas reuniões do Gabinete de Crise também serviram para a tomada de decisões na imobiliária que ajuda a dirigir. “Foi um período de muito aprendizado e melhoria dos processos internos da nossa empresa. Conseguimos expandir, contratamos novos funcionários, investimos em marketing digital e fechamos negócios com clientes de fora do município. Tivemos negociações com investidores de São Paulo, da Alemanha e de Portugal durante a pandemia, tudo certificado digitalmente”, conta.

Somados os valores da imobiliária de Venâncio Aires e da filial de Lajeado, as negociações chegaram a R$ 17 milhões no período da pandemia. “A pandemia foi muito de como a pessoa encarou. Se achava que o mundo ia acabar, realmente podia acontecer. Mas também foi de muitas oportunidades para quem se reinventou e se posicionou no mercado”, define.

Sem conflito público

O bom senso também é destacado pelo vice-presidente de indústria da Caciva, Junior Haas, de 34 anos. Ele lembra que em nenhum momento houve conflito público entre os integrantes do Gabinete de Crise, fato que gerava confiança na comunidade em relação à decisões que eram tomadas pelo grupo. “Jamais tivemos ações como panelaço, greve ou alguma situação fora de controle. Sempre agimos dentro das possibilidades, daquilo que os decretos permitiam. Tivemos novidades com o take away e conseguimos fazer o modelo funcionar. O começo foi bem assustador, contudo tivemos êxito”, menciona.

Diretor da Haas Paletes, empresa que há seis décadas atua em Venâncio Aires, o empresário é responsável por dirigir 160 trabalhadores e ressalta que sempre busca o benefício para o setor no qual está inserido, mas pondera que “nem sempre o benefício é trabalhar”. No começo da pandemia, quando as informações ainda eram escassas e se lutava contra o ‘inimigo invisível’, em algumas oportunidades foi preciso arrefecer.

“Foi uma experiência e tanto. Não adiantava abrir em um dia e morrer no outro. Nosso principal produto, o palete armazena e transporta alimentos e medicamentos até as pessoas. Sabemos da nossa responsabilidade no suprimento da sociedade, motivo pelo qual nos atualizamos diariamente e buscamos ao máximo orientar, controlar e implementar novos protocolos de prevenção, a fim de preservar as pessoas, suas famílias e a nossa operação”, afirma.

Parceria e consciência facilitaram fiscalização

 

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Coordenadora técnica da Secretaria da Fazenda, a fiscal de posturas Daniele Mohr, de 37 anos (foto acima), lembra de quando, ainda no início do ano, falava para o filho Vítor, de 16 anos, não se impressionar tanto com o que lia na internet a respeito de um vírus que, na época, já tinha sido identificado na Europa, após muitos casos registrados na Ásia. “Tenho na memória a cena do Vítor dizendo que já estava (o coronavírus) em países europeus. Ele insistia que a doença chegaria ao Brasil e a Venâncio Aires e que teríamos sérias dificuldades. Sempre foi de ler notícias e estava convicto de que aquilo que se passava longe de nós seria uma realidade aqui também”, comenta.

Tudo parecia muito distante, mas Daniele – natural de Arroio do Meio e que se estabeleceu na Capital do Chimarrão há cinco anos, quando assumiu função de servidora pública, após ser aprovada em concurso -, passou a monitorar as informações relacionadas à Covid-19 pelo mundo. Em menos de três meses, ela já estava envolvida em tarefas completamente diferentes das que costumava cumprir. “Senti o baque quando os governos começaram a legislar em função da pandemia. Em março, Venâncio Aires tinha o primeiro decreto de calamidade pública da sua história e um Gabinete de Crise para deliberar sobre as ações a serem adotadas”, recorda.

Com o decreto, veio a determinação de que o comércio não estava autorizado a atender, com exceção dos serviços essenciais, como postos de combustíveis, supermercados e farmácias. “Quando pensamos em adotar protocolos para o funcionamento de alguns estabelecimentos comerciais, esbarramos no avanço desenfreado da pandemia. Era uma loucura o que estava vindo e a expectativa era de que aquilo seria avassalador”, relata. A fiscal revela que, a partir da confirmação do primeiro caso de coronavírus na cidade – no dia 13 de abril -, da escalada dos números e das duas primeiras mortes, nos dias 23 e 26 de abril, a Prefeitura chegou a ser questionada sobre a necessidade de abertura de covas rasas para as vítimas.

Precaução

Embora a ‘provocação’ soasse como um exagero, reportagens mostrando centenas de mortos no Brasil e no Equador deixaram claro que era preciso se precaver. “Era aquela história: melhor prevenir do que remediar”, justifica. A esta altura, o uso de máscaras já era obrigatório em Venâncio Aires e as autoridades trataram de providenciar o primeiro hospital de campanha do Rio Grande do Sul. O pavilhão São Sebastião Mártir, local onde tradicionalmente são realizados os maiores eventos do município, deu lugar a uma estrutura de 70 leitos, médicos, enfermeiros e técnicos em Enfermagem, que atendiam pessoas com sintomas respiratórios e as encaminhavam para tratamento mais específico, quando a situação demandava.

Com a crise sanitária instalada, Daniele pegou para si o desafio de liderar a fiscalização no município. “Não podíamos ficar aguardando, precisávamos nos antecipar aos fatos. Com a criação do Gabinete de Crise, passamos a ter reuniões diárias e a tomar decisões que foram determinantes para manter o equilíbrio entre saúde e economia. Em menos de um mês, as pessoas estavam me chamando de ‘Garota Covid’, em tom de brincadeira, já que meu trabalho passou a ser quase que especificamente relacionado à pandemia. Senti que não podia me omitir, pois recebo uma função gratificada e não temos muitos fiscais na Prefeitura. Foi algo natural”, manifesta.

De acordo com Daniele, um dos grandes acertos da Administração foi abrir espaço para os representantes do setor produtivo no grupo deliberativo. “Tínhamos informações em tempo real, pois passamos a interagir pelo WhasApp e, quando encaminhávamos algum protocolo, os empresários já diziam se ia ou não funcionar. Foi assim que conseguimos estabelecer as regras, andar na frente dos demais municípios e permitir flexibilizações que foram extremamente importantes”, argumenta, acrescentando que, desde o começo da pandemia, a Capital do Chimarrão permaneceu com o comércio geral fechado por apenas uma semana.

Reconhecimento

• Daniele Mohr ressalta que, além de um pico de casos em maio e de outro em agosto, já no inverno, não houve aumento de casos de coronavírus em razão das flexibilizações. “No momento mais difícil da pandemia, já tínhamos visitado dezenas de empresas, sabíamos a realidade de cada uma delas e tentamos intervir o menos possível. Foi uma união de esforços, com responsabilidade, proatividade e dinamismo”, analisa. Uso de álcool gel e de máscara, aferição de temperatura, revezamento de trabalhadores, afastamento de integrantes de grupos de risco e isolamento de funcionários com sintomas gripais foram medidas tomadas muito cedo.

• Hoje, segundo a fiscal, a comunidade reconhece que as abordagens com viés de orientação – e não de punição – foram essenciais para o impacto positivo na economia e, mais recentemente, para a liberação do funcionamento de casas de festas, restaurantes, academias e atividades esportivas. Desde sábado, estão liberados os campeonatos e o Parque do Chimarrão, maior espaço de lazer de Venâncio Aires, já pode ser acessado das 14h às 19h. “Uma coisa foi levando à outra. Nosso ponto de partida foi a expertise do empresariado, jamais saímos do zero. Fomos adequando as medidas aos cenários que se apresentavam”, conclui.

Hospital

O presidente do Hospital São Sebastião Mártir (HSSM), Luciano Spies, também foi figura marcante desde o início da pandemia. Junto com o diretor técnico da instituição, Guilherme Fürst Neto; com a infectologista Sandra Knudsen; e com a responsável pela Unidade de Terapia Intensiva (UTI), médica Jaqueline Froemming, liderou as ações de enfrentamento ao coronavírus. Isso tudo em meio a um processo de recuperação financeira do hospital, que tinha uma rotina de honorários médicos e salários dos funcionários em atraso, além de outras contas vencidas, como energia elétrica e parcelas de financiamentos.

O planejamento de medidas de combate à Covid-19 começou em março. “Tínhamos faixas neste plano, que seriam ativadas conforme a doença fosse se espalhando”, explica. A disseminação, de acordo com Spies, não atingiu os índices absurdos, como era esperado – inclusive com a expectativa de colapso no sistema municipal de saúde -, mas gerou dificuldades extremas, principalmente no que se refere à redução de receitas de convênios e atendimentos particulares.

A criação do Gabinete de Crise, conforme ele, foi fundamental para que o trabalho tivesse resultado positivo. O feedback dos empresários e a garantia da Administração de que seria parceira do HSSM amenizaram a tensão de quem estava na linha de frente do combate à doença. Os recursos referentes aos atendimentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS) foram mantidos pelo Governo Federal, houve parceria com o Governo do Estado para habilitação de mais oito leitos Covid na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) – que passou de 10 para 18 – e foi possível montar equipes específica para atendimento de pacientes com a doença.

Spies lamenta as vidas perdidas em decorrência de complicações do coronavírus, mas ressalta que o índice de mortalidade em Venâncio Aires é menor do que em outros municípios. “Tivemos baixas, todo mundo teve. Mas precisamos destacar o resultado de extremo sucesso na nossa cidade, fruto de ações do corpo clínico do hospital e do poder público, com auxílio da comunidade”, avalia.

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