EJA Intensivo é aposta no combate à evasão

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Patrícia retomou os estudos em 2011. Hoje, cursa Pedagogia e já planeja uma pós-graduação (Foto: Alvaro Pegoraro)

Um projeto implantado em 2011 tem sido uma arma na luta contra a evasão na Educação de Jovens e Adultos (EJA) no município. Com um currículo diferenciado e as aulas condensadas em um ano, o EJA Intensivo já garantiu a conclusão do ensino fundamental para cerca de 570 venâncio-airenses. Mais do que isso, é uma porta de reingresso à sala de aula para pessoas de diferentes idades, com histórias de vida distintas e que estavam há anos sem estudar.

“Temos alunos de 23 a 80 anos”, conta a coordenadora pedagógica da Secretaria Municipal de Educação, Alice Theis. De acordo com ela e a coordenadora da EJA no Município, Andréia Cassuli, diferentemente da EJA regular – formatada em seis totalidades (semestres) do ensino fundamental, para alunos a partir dos 15 anos –, o projeto EJA Intensivo abrange estudantes com mais de 23 anos e condensa, em um ano, os principais conteúdos do ensino fundamental. Ambos têm aulas à noite.

Se na modalidade regular, em torno de 30% dos matriculados abandonam a escola, ao longo do ano, no EJA Intensivo, a desistência é quase nula. A iniciativa tem servido de inspiração, inclusive, a outros municípios. “O grande diferencial é que o EJA Intensivo atende adultos que querem concluir os estudos. Na EJA regular, há muitos alunos de 15, 16 e 17 anos que já haviam evadido do diurno, que não querem mais estudar, mas têm a obrigação de estar em sala de aula por terem menos de 18 anos. A evasão já começa nos primeiros meses”, contextualiza Alice.

Andréia observa que a desistência na EJA não é apenas uma realidade pontual de Venâncio Aires, mas de vários municípios – alguns, inclusive, têm encerrado a Educação de Jovens e Adultos pela inviabilidade financeira. “Há toda uma estrutura disponibilizada a esses alunos, com merenda, transporte escolar, vice-direção, orientação, supervisão e professores qualificados”, comenta Alice. “O custo para manter a EJA é alto, mas não consideramos como gasto, mas, sim, investimento, porque sempre há aqueles que aproveitam a oportunidade e seguem os estudos”, pondera.

Andréia acrescenta que os profissionais das escolas empenham-se na tentativa de garantir a permanência dos estudantes. “Os professores e a equipe diretiva fazem uma busca efetiva para eles retornarem à escola”, destaca.

Alice e Andréia comentam os diferenciais do projeto para possibilitar a conclusão do ensino fundamental (Foto: Juliana Bencke)

Vivências

Na opinião de Andréia e Alice, além do menor tempo de aulas e da maturidade dos alunos, o currículo diferenciado do EJA Intensivo contribui para o sucesso do projeto. “Além de conteúdos, busca-se trabalhar experiências de vida. O currículo é elaborado pensando nas vivências dos alunos, na sua realidade, preparando-os para o mercado de trabalho e o ensino médio”, comenta Andréia.

“O EJA Intensivo contempla o cidadão que quer concluir o ensino fundamental, que sonha e vai em busca da realização do seu sonho. Ele oferece condições para quem trabalha e estuda, para que, quem estava longe da sala de aula há anos, volte a estudar com pessoas da sua idade”, destaca a coordenadora da EJA.

Segundo a professora Rosmeri Willms Mattie, vice-diretora da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef ) José Duarte de Macedo, autoestima, perspectivas e valores como o respeito a si próprio e aos outros estão entre os aspectos trabalhados no EJA Intensivo, paralelamente aos conteúdos. “Fazemos um resgate muito grande, para que os alunos vejam que existem mais possibilidades.”

“Mudou muito meu jeito de ver o mundo”

Patrícia Cristiane de Godoy, 40 anos, participou da primeira turma do EJA Intensivo na Emef José Duarte de Macedo, em 2011. Depois de passar em torno de duas décadas longe da escola, voltou à sala de aula para concluir o ensino fundamental. Mais do que isso: retomou os estudos com o objetivo de cursar o ensino médio e ingressar em um curso superior.

Em dois anos e meio, Patrícia terminou o ensino fundamental e médio – primeiro, na escola Macedo, depois na Monte das Tabocas. O retorno aos livros ocorreu depois de um pedido da empresa na qual trabalhava na época. No meio do caminho, porém, a estudante descobriu que a área profissional estava na própria escola.

Do ensino médio foi direto ao curso de Pedagogia, e depois de uma parada, está retomando os estudos de olho em uma pós-graduação em Educação Especial. “É uma área que me deslumbra”, comenta a universitária, que trabalha como monitora em sala de aula na Escola Estadual de Ensino Médio Alexandrino de Alencar, de Passo do Sobrado, onde também atua na secretaria e na biblioteca.

Para Patrícia, a principal mudança após o ingresso na EJA foi a visão das inúmeras possibilidades. “Mudou muito meu jeito de ver o mundo. Antes, eu via tudo muito pequeno; agora, vejo uma imensidão ao meu redor”, define a mãe de Muriel, 20 anos, e Marquiel, 17 anos. “Precisamos motivar mais gente a estudar. Para mim, foi muito tranquilo. Os professores não deixavam a gente desanimar.”

Ensino médio em um ano e meio

Assim como o EJA Intensivo, a Educação de Jovens e Adultos do ensino médio ocorre de forma condensada. Os conteúdos referentes às três séries são divididos em três semestres e, igualmente, adaptados à realidade dos alunos. Além de estudantes de Venâncio Aires, a Escola Estadual de Ensino Médio Monte das Tabocas atende alunos de Passo do Sobrado, Mato Leitão e Monte Alverne, entre os 401 matriculados nas dez turmas de EJA.

De acordo com orientadora Lenir Kremer, a evasão é muito baixa e, na maioria das vezes, alunos que desistem acabam voltando no próximo semestre. “Eles veem que o estudo é importante para entrar no mercado de trabalho, e alguns querem fazer faculdade”, afirma.

Lenir enfatiza o currículo diferenciado, o trabalho com projetos e o fato de as aulas serem planejadas considerando a realidade dos alunos, que, em sua maioria, conciliam os estudos com o emprego e as famílias. “Em torno de 95% deles são trabalhadores. É muito gratificante trabalhar na EJA, pois percebemos a dificuldade que muitos têm de chegar à escola, mas que, acima de tudo, eles têm vontade de estar aqui.”

Conheça as modalidades de EJA 

EJA Intensivo

Duração: Um ano

Requisitos: Ser alfabetizado e ter mais de 23 anos

Local: Turmas fixas nas Emefs José Duarte de Macedo e Dois Irmãos. São abertas turmas em outros locais de acordo com a demanda da comunidade. Neste ano, há grupos em Vila Mariante e Linha Grão-Pará.

EJA regular

Duração: Três anos (um semestre cada totalidade)

Requisitos: Ser alfabetizado e ter entre 15 e 23 anos

Local: Emefs José Duarte de Macedo e Dois Irmãos.

EJA ensino médio

Duração: Um ano e meio (um semestre correspondente a cada ano do ensino médio)

Requisitos: Ter o ensino fundamental completo

Local: Escola Monte das Tabocas.

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