Escola Santa Catarina, de Marechal Floriano, foi uma das últimas a encerrar as atividades (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Por Eduarda Wenzel e Bruna Stahl*

De portas fechadas e abandonadas. É assim que muitas escolas públicas se encontram na zona rural do município de Venâncio Aires. Nos últimos 11 anos, 22 escolas da rede municipal e cinco da rede estadual encerram as atividades, conforme os dados da Secretaria Municipal de Educação e da 6ª Coordenadoria Regional de Educação (6ª CRE).

O êxodo rural é considerado um dos principais motivos que acarretou o fechamento das instituição, assim como a redução de jovens nas localidades mais afastadas da região urbana. A secretária municipal de Educação, Alice Theis, explica que houve um momento na história de Venâncio no qual muitos jovens migraram para outros municípios vizinhos e a população local envelheceu. Assim, o número de crianças e de alunos automaticamente reduziu.

Alice destaca que o difícil acesso também contribuiu para a falta de recursos humanos. “Por serem distantes, nem sempre se conseguia professores que morassem próximos, assim, havia vários casos de professores morando nas casas dos vizinhos e até mesmo dentro da escola”, complementa.

Desde 2009 na pasta, Alice conta que o fechamento das escolas sempre foi um processo sofrido, tanto para a administração municipal quanto para a comunidade. “Como educadores, sempre queremos cada vez mais escolas. Mas todas as decisões foram tomadas em conjunto, pensando no bem de todos”, frisa Alice.

Ela observa que, quando uma escola é fechada, a vida da comunidade se esvai um pouco, já que, além da educação, o ambiente servia para a promoção de eventos que integravam os moradores. “Muitas comunidades resistiram ao processo, mas compreenderam que os estudantes precisavam de um lugar com mais estrutura e até mais colegas”, relembra.

Com o fechamento das escolas, foi necessário realizar a transferência dos estudantes para educandários próximos. Por conta disso, surgiu a necessidade de oferecer linhas de transporte escolar no interior do município.

Com as aulas encerradas, os prédios de algumas escolas municipais ficaram abandonados. Por conta disso, a Prefeitura colocou alguns imóveis a leilão. Ao todo, oito escolas foram leiloadas, destas três foram vendidas: as Escolas Municipais de Ensino Fundamental (Emefs) Saldanha da Gama, de Vila Mariante; São Salvador, de Linha Herval; e Getúlio Vargas, de Picada Mariante. A previsão é de acontecer mais um leilão desses imóveis. Além disso, alguns prédios foram cedidos para associações das comunidades.

Produção: Luana Andrade

Escolas fechadas

  • 2009 Waldemar Amaro Dornelles Municipal Vila Estância Nova
  • 2010 Anita Garibaldi Municipal Linha Cachoeira
  • 2010 João XXIII Municipal Linha Cipó
  • 2010 Luiz Witz Municipal Olavo Bilac
  • 2010 Princesa Isabel Municipal Linha Isabel
  • 2011 Cristóvão Colombo Municipal Linha Arroio Grande
  • 2013 21 de Abril Municipal Linha Esperança
  • 2013 Alcides Vieira da Rosa Municipal Linha Alto Paredão
  • 2013 Nossa Senhora de Lourdes Municipal Vila Santa Emília
  • 2013 São José Municipal Linha Monte Belo
  • 2013 São Miguel Municipal Santa Emília
  • 2014 Reynaldo Hugo Doring Municipal Linha Grão-Pará
  • 2014 Theotonio Francisco dos Santos Municipal Linha Travessão
  • 2016 1º de Maio Linha Leonor
  • 2016 Alcebíades Moreira Municipal Linha Alto Paredão
  • 2016 General Osório Municipal Vila Palanque
  • 2016 Avaí Estadual Vale do Sampaio
  • 2016 Linha Bem Feita Estadual Linha Bem Feita
  • 2016 Ondina Santos Martins Estadual Linha Taquari Mirim
  • 2017 Arthur Emilio Myllius Municipal Picada Nova
  • 2017 Gabriela Mistral Municipal Vila Santa Emília
  • 2017 São Pedro Municipal Linha Antão
  • 2017 Tangerina Estadual Linha Tangerinas
  • 2018 Presidente Vargas Municipal Linha Stamm
  • 2018 Linha Sapé Estadual Linha Sapé
  • 2018 Santa Catarina Municipal Linha Marechal Floriano
  • 2019 Professora Rosina Schauenberg Municipal Rincão de Souza

“O fechamento de uma escola dói”, diz professora

Estar na escola é obrigatório a partir dos 4 anos. Também é um direito de todo cidadão brasileiro ter acesso à educação gratuita. Porém, quando a escola que a criança está acostumada fecha, leva alguns dias até conseguir uma nova matrícula, transporte e adaptação ao novo espaço.

A professora Elisabeta Felten, 50 anos, atua há três décadas na área e já acompanhou o processo de fechamento de três escolas municipais, sendo a João Gutemberg, de Linha Saraiva; Treze de Maio, de Linha Isabel; e Santa Catarina; de Linha Marechal Floriano.

Ela afirma que esses momentos da carreira foram marcantes e tristes, pois, em todos os casos, o fechamento foi contestado pela comunidade. “Os pais faziam reuniões e reivindicações, para tentar manter a escola funcionando, pois era um local próximo, que muitas vezes eles estudaram e os filhos estavam estudando agora”, comenta. Ela também destaca que o encerramento de atividades é dolorido para as comunidades, pois é um berço para os moradores.

“Eu era a faz tudo das escolas”, conta, pois nas instituições que Elisabeta lecionava, ela também era a diretora, merendeira e auxiliar de limpeza. Esses locais contavam com apenas três, quatros alunos, por isso o município decidiu fechar e realocar as crianças.

Segundo a docente, os bens materiais das escolas que pertenciam à comunidade foram devolvidos e, em alguns casos, os prédios foram destinados às sociedades que cada comunidade tinha, pois costumavam se encontrar no espaço escolar. “É muito triste ver os alunos indo para outras escolas mais longes, quando poderiam estar inseridos em uma escola da localidade”, relata, emocionada.

A professora lembra que, muitas vezes, nessas localidades, os próprios moradores ajudaram na construção – mais um elo emocional que conta no fechamento. “Os avós fizeram movimentos e ajudaram na construção e compra de móveis. Tudo isso machuca eles emocionalmente quando querem terminar com as aulas no local.”

São diversas mudanças que acontecem quando um colégio encerra as atividades. Além de serem transferidos de escola, os alunos precisam contar com transporte. “Os alunos precisam se deslocar até o local onde passa o transporte escolar. Quando moram longe precisam se adequar e arrumar um jeito de ir até o transporte, saindo mais cedo e voltando mais tarde para as famílias. E também fica complicado o deslocamento das famílias para acompanhar as questões do filho na escola”, observa.

O lado positivo

Foto: Arquivo pessoal

Elisabeta diz que os principais motivos para o fechamento das escolas são, na maioria das vezes, por conta do baixo número de alunos e da procura por vagas, o que torna inviável financeiramente manter as escolas. Além disso, em estabelecimentos com mais alunos, as crianças conseguem socializar com outros estudantes de sua idade. “Nas escolas menores (multisseriadas), como eram todos juntos na mesma turma, não tinham contato com mais alunos do mesmo ano escolar. Isso é um ponto bom de uma escola maior”, considera.

“Nenhuma comunidade quer que feche a escola, pois uma escola é o coração da comunidade.”

ELISABETA FELTEN- Professora

Encerramento das atividade reflete diretamente na vida de pais e alunos

Além de ser moradora de Linha Marechal Floriano, Amélia Sulzbacher era mãe do aluno Henrique Sulzbacher, 16 anos, da Escola Santa Catarina e, por um ano, também foi aluna, por meio do projeto Educação de Jovens e Adultos (EJA) Intensivo. Para ela, a escola era um elo da comunidade e o fechamento abalou todos.

Amélia participou de ações para o não fechamento da escola, em 2017. “Teve uma reunião com pais e comunicaram que, se o número de alunos não aumentasse, a escola seria fechada. Tentamos achar crianças com idade para se matricular, mas não tivemos sucesso”, recorda.

A moradora de Linha Marechal Floriano lembra que, além da sala de aula, a escola proporciona momentos de cultura e lazer para a comunidade. Ela cita que a escola Santa Catarina tinha atividades com danças alemãs e mais tarde originou o Grupo de Danças Alemãs Infanto-juvenil Grüner Jager. “Era uma forma de resgatar nossa cultura.” Ela conta que os pais também promoviam ações de vendas de galinhada e pastelada para o caixa escolar, que servia para manutenção e conservação da escola. “Eram feitos mutirões de limpeza geral do prédio e pátio da escola”, acrescenta.

O filho até conseguiu transporte para uma escola próxima, porém tinha que se deslocar a pé por um trajeto grande até chegar ao ponto de embarque e também dificultaria os atendimento multidisciplinar dele semanalmente na Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae).

Por isso, em 2019, a família decidiu matricular ele na escola Estadual de Ensino Médio Wolfram Metzler, no bairro Bela Vista. “Era fácil ter nosso filho perto de casa, assim ele foi para uma escola com realidade diferente, com mais alunos.” O que mais marcou a vida da família, foi ele morar durante a semana com a avó, que reside próximo da escola. “Não foi fácil nem para nós nem para ele”, comenta Amélia.

Nas primeiras semanas, o garoto sentiu impacto na adaptação e socialização em virtude de ser tudo novo, mas agora já se adaptou à nova realidade escolar. “Matriculamos ele no Wolfram, por atender melhor nossas necessidades, ela se aproxima mais da nossa realidade de vida de interior”, afirma a mãe.

* Estudantes do curso de Jornalismo da Universidade do Vale do Taquari (Univates). Reportagem produzida, originalmente, para a disciplina de Linguagem Jornalística dos Meios Gráficos I.

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