Neuropsicopedagoga Marciani Cristini Wacklawovsky (Foto: Taís Fortes/Folha do Mate)

O uso de jogos eletrônicos e da internet têm sido comum entre crianças e adolescentes. A utilização não é proibida, mas precisa ser feita com cuidado e moderação, além de não ser recomendada para menores de 2 anos. Neste ano, por causa da pandemia de Covid-19, a utilização dos recursos tecnológicos se fez necessária em razão das aulas remotas. No entanto, como tudo que é demais faz mal, com o uso da internet e dos jogos, isso também acontece.

De acordo com a neuropsicopedagoga Marciani Cristini Wacklawovsky, o nosso cérebro busca, o tempo todo, sentir prazer, fugir da dor e evitar gastar energia. “Se analisarmos, no celular, essas coisas todas se relacionam”, observa. Para ela, essa é uma das razões pelas quais as famílias encontram dificuldade de gerenciar o uso desses recursos entre as crianças e os adolescentes. “Tanto os pais quanto as crianças e os adolescentes precisam ‘brigar’ com eles mesmos para conseguir limitar esse uso, porque, realmente, ele desperta prazer e sensação boa”, complementa.

Como prejuízos do uso excessivo de jogos eletrônicos e da internet, ela menciona o aumento de casos de miopia, em especial por causa do tempo em frente às telas, problemas de motricidade, principalmente a ampla, e algo muito preocupante que é o aumento dos casos de dificuldade na aprendizagem, principalmente por causa do pouco tempo de sono. “A criança e o adolescente precisam de um sono restaurador, porque é nele que as memórias serão consolidadas e sem memória não se tem aprendizagem”, ressalta. Ela também cita que outro problema comportamental que tem crescido é a baixa tolerância à frustração.

Além disso, a neuropsicopedagoga salienta que, quando a criança vai dormir muito tarde, ela não produz a melatonina, o hormônio do crescimento, que também interfere na imunidade. “O correto seria a criança dormir às 21h, porque as 22h é liberada a melatonina, e o adolescente dormir às 22h, porque a melatonina é liberada às 23h. Se não respeitar esses ciclos, se produz o cortisol, hormônio do estresse. Por isso que tem muita criança e adolescente nervoso e estressado”, explica. A profissional lembra, no entanto, que existem muitos jogos e vídeos que colaboram com a aprendizagem e por isso geram benefícios.

O uso excessivo se torna um vício quando a pessoa entra em pânico ao esquecer o celular ou precisar se afastar dele por alguma razão. Algumas pesquisas, inclusive, relatam que a situação é tão grave neurologicamente que a sensação é de que se perdeu uma parte do corpo. Em alguns casos, é necessário procurar tratamento com psicólogo ou psiquiatra.

Como manter o equilíbrio

A neuropsicopedagoga Marciani Cristini Wacklawovsky relata que, para se manter o equilíbrio, é essencial conversar. “Precisa levar a criança e o adolescente a perceber que eles estão perdendo outras coisas”, menciona. Ela também reforça que os pais são o exemplo, por isso é muito importante que eles cuidem das próprias ações.

Outro ponto relevante, em especial neste momento em que o uso do celular e da internet está sendo necessário por causa das aulas, é criar uma rotina junto com a criança e o adolescente. “Para a criança se acalmar e se concentrar é importante falar com ela. Não impor”, destaca. Nesse sentido, é preciso sempre usar uma linguagem didática e que respeite cada faixa etária.

Projeto escolar

Na Emef Santo Antônio de Pádua, as orientadoras Elisandra Moraes Kackenhaar e Liziane Beatriz Decker juntamente da equipe diretiva, dos professores e da psicóloga Patrícia Mees elaboraram um material informativo para ser enviado às famílias. O objetivo é orientar e dar dicas sobre o uso excessivo dos jogos por parte das crianças e dos adolescentes.

Essa ação está sendo realizada porque os profissionais perceberam que alguns alunos começaram a apresentar mudanças no comportamento, deixando de fazer as atividades pedagógicas não presenciais. Ao questionar às famílias se percebeu que poderia ter relação a essa temática.

Elisandra e Liziane destacam que o uso de jogos e da internet não é ruim, mas é necessário se ter equilíbrio. O material elaborado na escola foi enviado de forma impressa e digital para as famílias. Além disso, as professoras buscarão incluir o assunto nas atividades pedagógicas não presenciais enviadas para serem feitas em casa.

Foto: Divulgação

“O jogo e a internet não fazem mal quando utilizados com limites. Os pais podem explicar que compreendem essa vontade do filho de jogar, porém, não fará bem para seu desenvolvimento quando só se faz o uso deles.”

PATRÍCIA MEES – Psicóloga

“Para se ter um equilíbrio das atividades é necessário a família fazer combinados”

Em entrevista à Folha de Mato Leitão, a psicóloga Patrícia Mees também fala sobre alguns aspectos relacionados ao uso da internet e dá dicas para as famílias.

Folha de Mato Leitão – Quando o uso da internet, em especial dos jogos e das redes sociais, pode ser considerado excessivo para crianças e adolescentes?

Patrícia Mees – Quando eles deixam de realizar as atividades do dia a dia, como fazer atividades da escola, ficar com a família e amigos, priorizando o game.

Quais são os pontos negativos de pessoas dessas faixas etárias passarem tanto tempo utilizando jogos e internet?

Acredito ser o distanciamento social. Elas deixam de interagir com outras pessoas, isolando-se, apresentando dificuldade nas relações interpessoais. Também passam a ter baixa tolerância à frustração, demonstram-se mais irritadas e apáticas.

O que você elencaria como positivo no uso da internet?

A internet trouxe a facilidade na busca por informação, pela pesquisa e o entretenimento. E isso é muito positivo, mas, claro, quando utilizada com limite e atenção, pois nem toda informação tem fonte segura.

Quais são os sinais de alerta que demonstram que as crianças e os adolescentes estão fazendo uso excessivo dos jogos e da internet?

Quando ele se torna dependente do jogo, necessitando jogar o maior tempo possível, não demonstrando prazer em outras atividades como ficar com a família, praticar esportes.

Como as famílias podem estabelecer um equilíbrio na utilização desses recursos?

Para se ter um equilíbrio das atividades é necessário a família, incluindo o filho ou a filha, fazer combinados dentro do seu contexto, ou seja, dentro da sua rotina. O adulto/responsável pode ajudar na organização, pois é ele quem deve orientar, estabelecer um tempo para cada atividade: jogar game, internet, atividades escolares, organização da casa, esportes, entre outros.

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