Aulas a distância Roberta Venâncio Aires
Roberta aposta na gravação de vídeos explicativos para tornar o processo de alfabetização dos alunos possível nas aulas a distância (Foto: Arquivo pessoal)

Vivemos nos últimos meses mudanças de hábitos nas mais diversas áreas. A educação foi uma delas. Por causa da pandemia do novo coronavírus, as aulas presenciais foram suspensas e instituições de ensino precisaram se adaptar a um novo modelo de ensino: as aulas a distância. Tudo isso gerou uma série de alterações na rotina dos estudantes, mas também exigiu reinvenção e adaptação por parte dos professores.

Um exemplo disso, é a pedagoga Roberta da Rosa Ribeiro, 36 anos. Professora do 1º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental (Emef) Alfredo Scherer, ela leciona para crianças que estão em período de alfabetização. Assim, para possibilitar a aprendizagem dos alunos ele tem apostado na criação de conteúdos diferenciados e que usem de recursos da internet para se tornarem ainda mais atrativos e interativos.

“A aula a distância não é como a aula presencial. Nada vai substituir o professor em sala de aula, mas tentamos fazer o possível. Estamos aprendendo todos juntos”, observa. Roberta envia as atividades por meio de um grupo no WhatsApp criado com os contatos das famílias e de integrantes da equipe diretiva da escola. Apenas uma aluna da sua turma precisa receber materiais impressos. Ela destaca que é muito importante estar atento para não sobrecarregar as famílias com o envio de atividades. “As famílias precisam acompanhar os filhos todos os dias, ainda mais na alfabetização, quando eles precisam de ajuda para tudo. Acho que está sendo bem produtivo e interessante. Estamos surpresos com a participação das famílias”, avalia.

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Planejamento de atividades a distância

De acordo com Roberta, as aulas a distância representam um desafio diário, com descobertas sobre novos recursos tecnológicos. “É aprendizado para todo mundo: para nós professores e para as famílias”, observa. Para adaptar as aulas ao formato virtual, a pedagoga decidiu gravar vídeos nos quais explica as atividades aos alunos e ainda possibilita que eles tenham contato visual com ela, principalmente porque nessa idade a afetividade e a aproximação com o concreto tem grande relevância. “Meus vídeos são bem caseiros. Uso a câmera do computar mesmo para gravar”, comenta.

Além disso, a professora ainda aposta no envio de áudios, dando o retorno de alguma atividade, e fotos, que servem como exemplo de como determinado exercício deve ser feito, para de alguma forma estabelecer uma relação de proximidade com as crianças. “Quando eu escrevo mensagens, procuro usar figurinhas de incentivo porque como eles ainda não estão lendo e desta forma vão conseguir entender”, compartilha. Em determinada ocasião, Roberta fez um vídeo dando retorno individual para cada aluno. Outros recursos usados por ela é o envio de links do YouTube com vídeos de contação de histórias, de livros em PDF e muitos jogos.

Rotina de trabalho

Roberta conta que a rotina de preparação das aulas também passou por alteração, em especial porque como a relação se dá pela internet as interações com as famílias e as crianças não têm muito horário para acontecer. “Claro que os pais entendem quando não se consegue responder logo. Fazemos combinações com eles”, acrescenta. No caso da pedagoga, as aulas são enviadas sempre nas segundas-feiras e o retorno das famílias deve acontecer até o domingo à noite.

Outra mudança significativa na rotina por cauda das aulas a distância diz respeito à preparação do material didático. Segundo a professora, se antes as atividades eram preparadas para ser executadas junto dos alunos, agora ela precisa pensar o exercício, realizá-lo e depois enviar vídeos ou fotos para explicar e exemplificar para os estudantes e as famílias como fazer a tarefa. “Não posso apenas passar as instruções, preciso demonstrar como fazer”, salienta.

Para Roberta, algo importante que tem se aprendido com a pandemia do coronavírus é apostar mais na relação entre escola e famílias. Ela ainda menciona que será necessário se adaptar ao uso da tecnologia, porém isso não é como o presencial. “A gente tenta e se reinventa, mas nada substitui o toque, o afeto, o carinho, o estar junto. Claro que aprende muito e se vê o quanto a tecnologia pode auxiliar, mas nada pode substituir o professor em sala de aula.”

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Dificuldades do trabalho em casa

O trabalho em casa tem mudado a rotina de profissionais de diferentes ramos. No caso da professora Larissa Harres Zucchelli Bittencourt, 35 anos, que leciona as disciplinas de Sociologia e Filosofia para estudantes de ensino médio da Escola Estadual de Ensino Médio Monte das Tabocas a situação não é diferente. Ela conta que procura trabalhar nos mesmos horários que estaria em sala de aula, no enanto é muito difícil fazem com que isso funcione.

Ela observa que tem dois filhos que também exigem atenção e além disso, em muitos momentos, ela responde dúvidas de alunos que entram em contato pelas redes sociais em horários diferentes do que os que cumpria anteriormente de forma presencial. “A sensação que tenho é que trabalho 24 por dia. Tenho 20 horas para cumprir no Estado, mas depois que tudo isso começou acabo trabalhando muito mais”, pondera.

Em relação à organização de conteúdo para as aulas a distância, a professora relata que prepara dois formatos de aula: um virtual, com o envio de conteúdo e atividades pelas redes sociais e pelo Google Classroom e o outro a partir da disponibilização de materiais impressos para serem retirados na escola. Larissa criou, inclusive, uma conta no Instagram para publicar vídeos explicativos e realizar lives para falar sobre determinado conteúdo com os alunos que a seguem.

Adversidades no ensino a distância

Para a professora, a realização das aulas remotas não substitui a escola, ou seja, a relação mais próxima com o aluno. Em relação a isso, ela observa que nas aulas presenciais o docente consegue perceber pelo olhar do estudante se ele está entendendo determinado conteúdo. “Isso está fazendo muita falta. É uma dificuldade muito grande com essas aulas remotas”, analisa.

Além disso, Larissa observa que outro desafio relacionado às aulas a distância é que os professores não foram capacitados para trabalhar dessa forma. Ela conta que tem uma pós-graduação em mídias educacionais, o que a tem ajudado muito. “No entanto, as mídias educacionais nas quais eu tenho formação, que eu tive conhecimento, eram como uma complementação da aula presencial e não o recurso principal”, complementa.

Nesse sentido, ela lembra que o planejamento de uma aula presencial é muito diferente da organização e execução de uma aula remota. “A gente não tem essa formação, não foi ensinado a trabalhar dessa forma. Então, estamos aprendendo junto com o aluno. Assim como ele está aprendendo a estudar a distância, fazer as atividades em casa, nós estamos aprendendo a como fazer com que ele aprenda longe. Isso pra mim é um dos principais complicadores das aulas remotas.”

A professora ainda elenca como desafio das aulas remotas a falta de disponibilização de recursos. A esse respeito ela menciona que muitos professores e alunos não tem recursos tecnológicos ou muitas vezes moram em regiões onde não se tem acesso a sinal de internet. Ela também cita que tem sido difícil lidar com o excesso de burocracia que o Estado tem cobrado como forma de comprovar as horas trabalhadas.

“Invés de eu estar me preparando, me capacitando para usar essas tecnologias da melhor maneira possível para conseguir planejar aulas boas para os meus alunos e suprir as necessidades de aprendizagem deles nesse momento, estou preenchendo muito papel que o Governo nos pede.” Ela ainda acrescenta que o trabalho tem sido triplicado. “Além de corrigir trabalhos e atividades, precisamos estudar, nos capacitar e em um ritmo muito mais rápido”, comenta.

Aulas a distância Larissa Venâncio Aires
Professora do ensino médio, Larissa divide a rotina do trabalho em casa com o cuidado dos filhos Foto: Arquivo pessoal)

Transformações na educação

Larissa acredita que por causa das aulas remotas acontecerão perdas na aprendizagem. “A gente não consegue trabalhar a mesma quantidade de conteúdo que se trabalha em sala de aula, porque não conseguimos acompanhar o aluno mais fortemente. Ficamos longe dele e não sabemos como eles estão realizando as atividades”, defende.

Por outro lado, ela acredita que um ponto positivo das aulas a distância é que toda a tecnologia que está sendo usada se manterá como auxiliadora quando os encontros voltarem a ser presenciais. “Esse momento meio que está forçando a escola a se modernizar, o que demorou muito tempo para ela fazer”, projeta, ao mencionar que por um período os educandários ficaram estagnados e resistentes em relação ao uso desses recursos.

Além disso, a professora avalia que por causa das aulas remotas os alunos também tem buscado autonomia e ido atrás de informações. “Esse momento também vai gerar pessoas muito mais proativas, muito mais autônomas, que vão buscar as coisas. O desenvolvimento individual vai acontecer, principalmente para aqueles que tem uma família mais presente, mais próxima.”

Larissa também acha importante salientar a responsabilidade dos pais com a vida educacional dos filhos. “Sabemos da dificuldade deles, mas é importante que a família se agarre na escola agora. Elas não estão sozinhas”, destaca. A professora ainda lembra que o home office também tem suas dificuldades e muitas vezes o trabalho é ainda mais intenso.

Continuidade

Na próxima semana, a Folha do Mate divulga reportagem com análise de quais transformações a realização das aulas remotas em razão da pandemia do coronavírus trarão para a educação quando as aulas presenciais retornarem.

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