Daiane Konzen vive em 2020 sua primeira experiência com alfabetização de adultos (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Você, que começou a ler esta matéria com olhos percorrendo rapidamente as linhas, se lembra quem lhe mostrou como juntar as letras e a formar as primeiras sílabas? Quem lhe ensinou cálculos ou como gravar o nome de todas as capitais dos estados brasileiros? Não é preciso arriscar as fichas ao dizer que, para muitos, foi um professor, a quem o 15 de outubro é dedicado. Este que, em situações ‘normais’ já enfrenta dificuldades para ensinar, imagine os desafios que surgiram nesse ano atípico?

A perspectiva muda mais quando os alunos em questão já são mães, pais, avós, trabalhadores. Adultos com anos de estrada, que ainda estão em busca do que deixaram no caminho e, junto com os professores, precisaram pensar em formas de não ‘perder o fio da meada’. E um exemplo dessa superação vem das turmas de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal de Ensino Fundamental Dois Irmãos, no bairro Aviação. Parte dessas histórias, a Folha traz nas linhas a seguir.

Aprender para ensinar

WhatsApp, Classroom, X Recorder, Canva, Padlet, Meet, Kahoot. É no meio desses termos ‘estrangeiros’ que se encontram o Português, a Matemática, a História. Aplicativos de internet que viraram aliados dos professores para garantir a proximidade com alunos.

Cleusa utiliza diversos aplicativos para ensinar Matemática (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

A maioria deles foi novidade para os professores, atrás de alternativas para fazer o conteúdo chegar. Como aconteceu com Cleusa Diana Müller Jahn, que ensina Matemática para quatro turmas de EJA da Dois Irmãos. “Foi um impacto, porque muitos de nós não dominavam as tecnologias. Tivemos que aprender primeiro para ensinar depois”, relata a profissional, que tem 22 anos de sala de aula.

A sala, aliás, virou um cômodo da casa dela. Em um quadro, ela vai transcrevendo as explicações, gravadas em vídeo. Mas isso não tem dia, nem hora, assim como para receber as tarefas, que chegam em horários alternativos, às vezes quando Cleusa já está na cama.

“Temos que nos colocar no lugar do aluno, que é um adulto, que trabalha, tem filhos, tem outros compromissos ou limitações. Muitas vezes é o tempo que ele tem ou o momento que tem acesso ao conteúdo.” Neste caso, muitos não têm computador, ou mesmo celular, como é a realidade de uma família de quatro pessoas que estão na EJA. Para todos eles, o único telefone precisa ser dividido.

Retorno

Mesmo com as dificuldades estruturais, Cleusa conta que ensinar segue recompensador. E, assim como o conteúdo que vai pela internet, o retorno também vem por ela: um áudio anunciando que o aluno conseguiu resolver o problema, uma foto da conta sendo desenvolvida e até os emojis (mensagens eletrônicas) simulando um aplauso. “Nesses momentos percebemos que atingimos o aluno. E o melhor é receber aquele ‘muito obrigado, profe’. Isso não tem preço.”

Sacola

Se o processo foi difícil para Cleusa, que trabalha há anos com adultos, a dificuldade também tem sido grande para quem é recente na EJA, como Daiane Beatriz Konzen. No caso dela, uma situação ainda mais especial: assumir, em 2020, as turmas de alfabetização.

Mesmo sem essa experiência específica, a professora aceitou o desafio, em substituição a uma colega em processo de aposentadoria. Em meio à pandemia já instalada, Daiane precisou encontrar formas de substituir a falta do contato presencial, fundamental na alfabetização de alunos ‘especiais’. Especiais porque muitos estudaram na Apae e têm dificuldades cognitivas, e outros, motivados pelas famílias ou pela necessidade do trabalho, retornaram ao estudo depois de décadas.

“É muito difícil à distância. Imagine a alfabetização de crianças, que têm toda a energia e outro processo de instigação no aprendizado. Com um adulto, que já passou dessa fase natural, o desafio é outro. O visual é fundamental e eles precisam disso”, destacou Daiane.

Foi pensando na necessidade do concreto, que Daiane criou uma ‘sacola pedagógica. Com a inicial da letra de cada um dos 15 alunos estampada nas bolsas, Daiane montou kits: letras do alfabeto para recorte, canudos plásticos para contagem, cédulas e moedas para as noções monetárias, famílias silábicas e jogos.

Como a maioria não sabe ler, as explicações sobre as atividades foram enviadas pelo WhatsApp, em áudio ou vídeo.“Eles são muitos dedicados, não deixam a sexta-feira passar em branco e sempre buscam os trabalhinhos, que é como eles chamam as atividades.”

Carinho

Elogios, atividades surpresas e até presentes. Tudo ajuda na motivação de aluno e professor. “Uma conversa, nem que seja um ‘oi’. A aprendizagem precisa de um vínculo afetivo”, afirma Daiane.

Assim como recebe mensagens de agradecimento, a professora entende que os alunos também merecem um carinho a mais, nem que seja na forma de balas e pirulitos. “Sei que são adultos, mas temos nossa criança interior que precisamos alimentar para conseguir enfrentar os desafios.”

Por isso, para não deixar o 12 de outubro passar em branco, ele montou lembranças para seus alunos da EJA. “Acho que eles vão adorar, porque às vezes o mínimo para uns é o suficiente para outros.” Os itens serão enviados junto com as atividades nesta sexta, 16.

Papel do professor

Para a diretora de Ensino da Universidade de Santa Cruz do Sul, Giana Sebastiany, o desafio do momento é o domínio da tecnologia e a redefinição do papel do professor. “Ele deixa de ser uma pessoa que disponibiliza conteúdo, para assumir uma função pedagógica de mediador, onde seleciona diferentes materiais que o estudante terá acesso e faz as intervenções, para que disso resulte na construção do conhecimento.”

Sobre gentilezas inesquecíveis

Entre os orgulhos dos professores da EJA, há aqueles alunos que sempre fazem todas as atividades e não perdem o interesse nunca, como Eva Marlene Wendt, 56 anos. Ela não lembra quantos quilômetros precisava caminhar no fim dos anos 1960 para ir até a escola. Só lembra que era ‘tudo longe’ no interior de Barros Cassal. E foi num pequeno educandário, em Duas Léguas, que ela recorda das primeiras gentilezas recebidas pelas professoras.

Curiosamente não foi com letras, mas com caronas. Sobre o lombo do cavalo, Eva percorria parte do trajeto para estudar. As professoras ofereciam a garupa do animal como transporte para que ela e os cinco irmãos tivessem um pouco de conforto. Mas nem sempre era possível e a necessidade de ajudar os pais agricultores fez com que Eva deixasse a escola antes de aprender todo o alfabeto.

Décadas depois, a faxineira se deparou com uma nova oportunidade e com outras professoras gentis que lhe mostraram que ainda havia tempo. “Fui e sou recebida como uma rainha”, destaca.

Com o apoio das profes e do filho mais novo, ela ingressou nas turmas de alfabetização da EJA da Dois Irmãos. “Sabia mal e mal escrever meu nome. Ajudar meus filhos em casa? Nunca!” Mas, desde então, Eva aprendeu todo o ABC, como ela mesma define, e já está na turma 6, que equivale ao 9º do Ensino Fundamental. “Tô quase me formando”, comemora.

Eva iniciou em 2018 sua alfabetização e, em 2020, espera concluir o Ensino Fundamental (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Motivação

Eva não nega que quando começou a pandemia, pensou em desistir, mais por receio de contrair o vírus do que medo de não conseguir acompanhar as aulas. Mas os professores sempre lhe apoiaram.

“Quando comecei, me colocavam na primeira classe e sentavam do meu lado para explicar. Essa atenção eu não esqueço.” Quem lhe ensinou o ‘alfabeto completo’ foi a professora Maria Cristina Dornelles de Ávila, atual vice-diretora da noite.

Nessa consideração recíproca, Eva, que mora no bairro Cidade Nova, acompanhava todas as aulas, de segunda a quinta. Com a pandemia, só passa na escola às sextas, para buscar as atividades. Ainda assim, estuda em casa toda noite, mesmo chegando às 19h e precisando acordar às 4h30min. Eva trabalha em uma indústria de Santa Clara do Sul.

Com as aulas à distância, ela também aprendeu a usar um smartphone, presente do filho Anderson. Com ele, através do WhatsApp, tira dúvidas com os professores. “Não é fácil, mas os professores também são guerreiros. Se virando como podem e não deixam a gente de lado.”

“Temos que fazer as coisas por nós mesmos, porque a gente não precisa depender dos outros para tudo. Por isso coloquei na minha cabeça: vou aprender a ler. Só queria que as aulas na escola voltassem logo.”
LIZETE POLITO – 40 anos, aluna da turma de alfabetização da EJA Dois Irmãos

Professores da EJA Dois Irmãos

Cleusa Diana Müller Jahn – Matemática
Jaqueline Richter – Sala de recursos
Daiane Beatriz Konzen – alfabetização
Jeferson Berwanger – História e Geografia
Júlio César de Oliveira – Ciências e Ensino Religioso
Renati Bruch – Português
Bruna de Quadros Etges – Inglês e Artes
Denise de Mello Bick – Intensivo
Elisa Regina Hermann – Geografia
Roberto Wessling – Educação Física
Aline Luciane Coutinho – História
Aline Zeneida da Silva – Supervisora EJA
Maria Cristina Dornelles de Ávila – vice-diretora da noite

Impressões de repórter

Sorte a minha em poder fazer esta pauta, que trata sobre professores, sobre alfabetização. Inevitável lembrar das minhas primeiras experiências com as palavras e da Maria Ely Soares, que me ensinou a escrever ‘emendado’. Talvez não lembre de mim, mas foi ela a primeira professora a me provocar para a leitura e à escrita, que elas seriam importantes no meu futuro. Isso foi na escola Odila Rosa Scherer, em 1994. Se aos 7 anos eu não tinha noção do que ela queria dizer, hoje, aos quase 34, só posso dizer: muito obrigada.

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