Therezinha fez a primeira roupa da afilhada, Maria Rejane, nascida prematura em 1957 (Foto: Arquivo pessoal)

Que outras ‘medidas’ cabem em 30 centímetros? O pé de um homem adulto, o paralelepípedo usado no calçamento, folhas de papel A4, o tamanho exato de uma régua escolar. Mas também são suficientes para comportar um ‘pacotinho’ de vida, de amor. Um milagre em forma de bebê.

Foi exatamente com esse tamanho e incríveis 615 gramas que Antonella veio ao mundo, ‘apressada’, em maio de 2018. Também com 30 centímetros, Maria Rejane quase ‘virou anjo’ em 1957, quando passou por longos dias de superação. É para elas e outros bebês que nascem antes da hora, que a Folha do Mate dedica essa matéria pelo Novembro Roxo, o mês da prematuridade.

Antes de virar anjo

“Entregue ela a Deus.” O alerta foi feito pela experiente parteira Maria, ou ‘Marírri’, como era conhecida na Venâncio Aires de mais de 60 anos atrás. Foi ela quem trouxe ao mundo uma pequena menina, nascida de seis meses e meio, no dia de São Miguel (29 de setembro) de 1957, no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM).

A criança não tinha unhas e pele quase não se via sob os braços. No corpinho de cerca de 30 centímetros e pouco mais de um quilo, o tom arroxeado assustava. O ar faltava e não conseguia nem chorar. Como era muito religiosa, Marírri, então, tomou a liberdade e chamou a menina de Maria.

O médico, Clécio Schmaedecke (filho de Reynaldo Schmaedecke), recomendou muitos cuidados e advertiu: era grande o risco de morrer. Com o pior quase à porta, os pais Amélia e Heitor de Azeredo decidiram que ela precisava ser batizada. “Quero que morra como um anjo”, disse Amélia.

A missão de atravessar a rua rapidamente e levá-la à igreja católica coube à Therezinha e Hugo Reis, irmã e cunhado de Amélia. “Entrei na sacristia e assim que ele viu, disse: ‘pode trazer, pode trazer ela’.” A frase foi dita pelo padre Albino Juchem à Therezinha, hoje com 83 anos. Assim que o religioso deu sua bênção, os padrinhos voltaram correndo para o hospital.

Maria recebeu um segundo nome, Rejane, e, agora batizada, restava os cuidados atentos da família. Como um pacotinho, ficava sempre envolta em panos e cabia dentro de uma caixa de sapato. Nos cantos da cama, garrafas com água quente garantiam o calor necessário e alguém sempre colocava a mão para sentir se o coração ainda batia.

Sem recursos no hospital, Maria Rejane foi para casa depois de cinco dias. Em dezembro, no mês ‘maduro’ para o nascimento, pesava 1,8 kg. E aí chorou. Chorou por dias, como se recuperasse o tempo de silêncio. Mas ninguém reclamou, afinal estava viva e saudável.

As primeiras vezes

Assim como Maria Rejane, que nasceu com apenas 30 centímetros em 1957, mais de seis décadas depois, em 2018, outra menina veio ao mundo com o mesmo tamanho. Mas a história de Antonella Delavi da Silva surpreende ainda mais por outra medida: 615 gramas de peso.

A gravidez de Carine Delavi, hoje com 34 anos, mudou de curso no dia 7 de maio de 2018, quando foi internada no HSSM, perdendo líquido. Se fosse mais adiante, seria o anúncio natural do parto, mas Carine estava com apenas 22 semanas de gestação (o tempo normal seriam 40).

Na avaliação médica, a obstetra alertou que Antonella podia nascer a qualquer momento. A saída foi buscar leito em um hospital com UTI Neonatal e a vaga disponível levou Carine e o marido, Cristiano, ao Hospital Unimed Vale do Caí, em Montenegro.

Lá, foram 10 dias de internação e Antonella nasceu na tarde do dia 18. “Foi um momento único, pois uma mãe que está à espera do seu primeiro filho sempre planeja aquelas fotos com barriga grande e chá de fralda. Mas isso tudo não tivemos”, recorda.

A partir daí, também foram longos períodos para ‘estrear’ em vários momentos: a primeira vez que Carine pode ver a filha aconteceu quatro horas depois do nascimento, já na incubadora, e o primeiro toque foram sete dias depois. A primeira roupa ‘normal’ foi vestida mais de dois meses depois, dia 1º de agosto. A data também é marcante porque foi quando Carine pode amamentar a filha.

Durante a internação, Antonella chegou a pesar, no início, 505 gramas, mas depois teve um ganho rápido. “A cada pesagem era uma angústia, misturada com alegria, pois era o momento que tínhamos certeza que ela estava evoluindo bem.”

A tão esperada alta aconteceu em 12 de agosto, Dia dos Pais. Foram exatos 87 dias de internação, com os pais morando em Montenegro. Quase três meses até poder, finalmente, ir para casa.

Antonella hoje ‘vende’ saúde e sua primeira roupa foi enquadrada pelos pais (Foto: Arquivo pessoal)

Alegria

Quando recorda que sua menina chegou a pesar apenas meio quilo, Carine entende que a filha é um quase milagre. “Mesmo sabendo todos os riscos, nunca senti que iria perder ela. A fé da gente fala mais alto e decidimos viver um dia após o outro.”

Hoje, com dois anos e sete meses, Antonella não é mais um ‘pacotinho’ e está ‘vendendo’ saúde, com 93 centímetros e mais de 16 quilos, tudo normal para a idade. “Temos o nosso maior tesouro com muita saúde entre nós. Ela é a alegria da casa e da família, em especial os avós.”

Causas

  • As gravidezes encurtadas de Carine Delavi, em 2018, e de Amélia de Azeredo, em 1957, são um mistério e nada foi descoberto sobre o que pode ter causado o nascimento prematuro das filhas. “Meu pré-natal em dia, com acompanhamento da obstetra. Não apresentava nenhum sintoma, como pressão alta ou diabete. Não tinha nada”, relatou Carine.
  • A situação delas é mais comum do que se pensa e cerca da metade dos casos não tem causa específica. Mas, da outra parte, ocorre associação com fatores de risco, como história de parto prematuro espontâneo, gestação de gêmeos e sangramentos persistentes de segundo trimestre.
  • Segundo a ginecologista e obstetra Adriana Martins, outros fatores podem levar à prematuridade: ausência do pré-natal, cigarro, álcool, drogas, estresse, infecções urinárias, diabetes, obesidade, baixo peso, pressão alta, distúrbios de coagulação, má formação fetal, gestações próximas (menos de 6 a 9 meses entre o nascimento e ficar grávida novamente) e gravidez de fertilização in vitro.
  • A médica explica que a identificação de um colo uterino curto pela ultrassonografia é um poderoso indicador de parto prematuro. “Quanto menor o comprimento do colo, maior a chance de prematuridade.”
  • Adriana destaca ainda a importância de um bom acompanhamento médico, com pré-natal desde o início da gestação. “Dependendo do histórico médico da mulher e da avaliação na ultrassonografia, são possíveis intervenções na prevenção do trabalho de parto prematuro, como o uso de progesterona [hormônio] e cerclagem uterina [cirurgia].”

Mais de 440 prematuros já nasceram no HSSM desde 2015

O percentual de bebês que nasceram prematuros em Venâncio Aires é de 8,66% nos últimos seis anos. De 2015 até outubro deste ano, 441 crianças, do total de 5.088, vieram ao mundo antes das 37 semanas (tempo para não ser mais considerado prematuro) no Hospital São Sebastião Mártir.

Nos números disponibilizados pelo Centro Obstétrico, é preciso considerar que não são apenas dados de moradores venâncio-airenses, já que também nascem filhos de moradores de Mato Leitão, Vale Verde e Passo do Sobrado.

Embora o percentual local esteja abaixo da média brasileira, que é de cerca de 11%, a proporção aumenta se considerarmos que muitas gestantes são transferidas a outros municípios que têm UTI Neonatal, como Montenegro, Porto Alegre, Bento Gonçalves, Lajeado, Estrela e até Bagé.

Vamos a um exemplo: de janeiro a outubro de 2020 foram 696 nascimentos no HSSM. Destes, 65 foram prematuros e 32 gestantes tiveram seus bebês em outras cidades. Se o atendimento neonatal existisse, os números locais seriam maiores ainda, pois teriam sido 97 bebês nascidos antes da hora em Venâncio. Nesse caso, a curva sobe em relação à média brasileira e vai a 13%.

Campanha Envolva-se

A disponibilidade do serviço neonatal em Venâncio ganhou força no fim de 2018, quando foi lançada a campanha pró-construção da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Neonatal do Hospital São Sebastião Mártir, chamada de “Envolva-se”.

Com emendas parlamentares e doações da comunidade, nesses quase dois anos foram arrecadados R$ 2,108 milhões. A maior parte, R$ 1,150 milhão, foi ‘emprestado’ ao hospital para ajudar na recuperação financeira da instituição e o valor será devolvido futuramente.

Segundo a presidente da Associação Pró UTI Neonatal, Cristiane Wickert, outros R$ 59,2 mil foram para o projeto arquitetônico, elétrico e PPCI, o que já está aprovado pela Coordenadoria Regional da Saúde. “A campanha tem todos documentos aprovados e projetos prontos. É só começar, mas não iniciamos por conta da pandemia e por ser realizada nas estruturas do hospital.”

O secretário de Saúde, Ramon Schwengber, diz que a campanha segue. “De minha parte, enquanto cidadão posso garantir que vou continuar trabalhando para que um dia tenhamos uma UTI neonatal em Venâncio. Enquanto secretário, me sinto muito feliz e orgulhoso de ter realizado o lançamento da campanha e ter ajudado na busca dos primeiros recursos.”

Roxo

A cor roxa para este novembro simboliza sensibilidade, característica muito peculiar de alguns pequenos. Também significa mudança e transformação. De acordo com o IBGE, foram registrados 2,87 milhões de nascimentos no Brasil em 2017, sendo que 330 mil bebês vieram antes da hora.

Lembranças

Therezinha Reis, que presenciou a história contada no início desta matéria, tinha apenas 20 anos quando nasceu a sobrinha e afilhada Maria Rejane, ou Jane, como era conhecida. Como a menina veio muito antes da hora, não tinha nada pronto para o enxoval. A madrinha, que gostava de costurar, tomou a iniciativa. “Comprei um tecidinho e fiz um casaquinho.”

Nessa peça de roupa, que segura na foto da página anterior, Therezinha vai fazer um reparo para que as filhas de Jane (Cátia, Deise e Andressa Kist), a emoldurem para eternizá-la em um quadro.

“Acho que foi um milagre, porque quantas crianças grandes não sobrevivem, e ela foi indo, foi crescendo normalmente”, relata a aposentada.

Se quando nasceu, Jane quase virou anjo, hoje ela pode ser assim considerada – faleceu em maio de 2017, vítima de complicações causadas por diabetes, aos 59 anos. E, do início ao fim, no sofrimento ao nascer e no sofrimento antes da falecer, Therezinha procurou estar perto da afilhada, com fé e conforto. “Foi muito difícil, mas a gente precisa aceitar a vontade de Deus.”

Maria Rejane, com quase um ano de idade (à esquerda) e com quase 60 (à direita) (Foto: Arquivo pessoal)

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