Crenças e tiros: a história que marcou Vila Arlindo e ganhou repercussão nacional

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Na segunda metade do século XIX, dois fatos semelhantes mexeram com regiões opostas do Brasil: Antônio ‘Conselheiro’ e seus seguidores, no Nordeste, e a família Maurer junto dos ‘muckers’, aqui no Sul. Ainda que em anos diferentes, as crenças de ambos incomodaram autoridades e resultaram em violência e sangue.

As revoltas de Canudos e dos Muckers são, até hoje, descritas nos livros de História e exploradas na literatura e no cinema. Dificilmente há quem não conheça pela menos uma delas. Guardadas as proporções, Venâncio Aires também viveu um episódio que tem certa semelhança e impactou a região de Vila Arlindo na década de 1950. Há 67 anos, a prática religiosa de um homem conquistou simpatizantes, mas também desagradou outros, e a consequência desse embate resultou em um tiroteio, repercutido em revistas nacionais, e que deixam marcas até hoje.

Para recontar esse fato, a Folha do Mate traz as versões de quem viveu aquela noite emblemática em 4 dezembro de 1953, além de descendentes dos envolvidos que já faleceram. Os relatos do que viram ou que lhes foi contado, relacionam aquilo que, por convenção, não teria vínculo. Mas, nesse caso, fé e religião, violência e mágoa, acabaram virando parte do mesmo enredo.

Sobre ‘milagres’ e outras coisas boas

“Se encosta nos nervos, incomoda. Isso me dói até hoje.” A dor mencionada por Maria Alvina de Borba, 85 anos, remete a um passado longínquo, a poucos dias de completar 18 anos. No início da década de 1950, a então adolescente recebeu uma marca para a vida toda: a cicatriz na mão esquerda, depois que uma bala de fuzil atravessou o membro e estraçalhou nervos, tendões e ossos.

Cicatriz está na mão esquerda de Maria de Borba há 67 anos, depois de levar um tiro (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Maria foi uma das dezenas de pessoas que se envolveram em um episódio quase trágico, quando a localidade da então chamada ‘Linha’ Arlindo, interior de Venâncio Aires, ainda não era cortada por uma rodovia e o movimento se restringia a cavalos, bois e carroças.

Era com esses meios de transporte que a jovem, moradora de Linha Tangerinas, costumava ir com os pais, Pedro e Joana, até a casa de Estevão Baierle, agricultor, descendente de alemães, que morava próximo à região onde futuramente seria construído o pedágio de Vila Arlindo. Nos encontros tomavam chimarrão ou participavam de um grupo oração. “O Estevão era muito religioso, tinha muitas imagens de santos em casa. Ele tinha uma reza bonita, boa, e às vezes benzia quem procurava ele. Não sei por que teve gente que não gostou. Depois aconteceu tudo aquilo.”

A menção leva ao dia 4 de dezembro de 1953, quando chegou a Porto Alegre e mais tarde ao Brasil todo, informações sobre uma briga com tiros que envolveu agricultores e sua crença, e as maiores autoridades municipais da época: prefeito, delegado e o vigário. Tal fato marcou, de uma forma ou de outra, as famílias Baierle, Kolberg, Borba, Pereira, Juchem e até os Scherer.

Nome de Deus

Maria de Borba não esqueceu aquela noite, assim como seu irmão, Leo Kolberg, hoje com 87 anos. Mas a memória do aposentado ‘puxa’ um pouco mais e leva à década de 1940, quando o acesso a medicamentos e à assistência médica eram restritos ao centro da cidade ou a quem tinha condições financeiras. Como alternativa, se buscava quem tinha ‘jeito’, ‘poder’ ou simplesmente uma fé gigantesca para tentar curar alguma doença. Isso se dava através da reza ‘forte’ e da benzedura.

Naquela região, Estevão Baierle era considerado o nome certo para essas coisas e surpreendeu o então jovem Leo Kolberg, que ainda andava em calça curta no auge dos seus 13 anos. Ele viu um amigo, considerado um caso crítico pelos pais, mudar depois que foi atendido por Estevão.

“Ele disse pro guri: ‘tu acreditas em Deus? Então vou rezar por ti.’ E aí ele rezou, em três encontros. Depois mudou tudo. O guri saiu feliz, dizendo que agora sim, o sol brilhava. Antes só chorava, não conversava, vivia arisco com todo mundo. O que o Estevão fez, para mim, foi um milagre.”

Leo Kolberg mora ainda hoje próximo de onde tudo aconteceu e afirma: “Não sei por que a reza do Estevão incomodou tanta gente.” (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Leo conta que, a partir dali, a fama se espalhou. “Tinha dias que ia até a meia-noite por lá. Juntava umas 30 pessoas. O Estevão rezava, dava conselhos, fazia tipo uma palestra. Não era nada demais.”

Mas, assim como fazia bem para quem lhe acreditava, incomodou outros e as reclamações chegaram aos ouvidos do então vigário de Venâncio Aires, Albino Juchem (1892 -1965). Segundo Leo Kolberg, o cônego apareceu lá acompanhado de mais dois padres. Queria ver como era o ‘serviço’ e, depois de acompanhar tudo, concluiu: a reza era boa, estava nos conformes, mas faltava citar o nome do bispo. A observação não agradou o agricultor, que respondeu: mas o nome de Deus não é maior? “Dizem que daí os padres da cidade começaram a falar mal do Estevão. Mas ele só benzia e rezava, não sei por que incomodou tanta gente”, lembra o aposentado.

“Acho que o Estevão não foi entendido. Só queria ajudar, falava em Deus e adorava santos católicos. Depois de tudo aquilo, não foi mais na igreja e não tocou mais no assunto.”

LEO KOLBERG
Presenciou o tiroteio e, anos depois, se tornou genro de Estevão Baierle

O desagrado de Albino Juchem

Luiz Carlos Juchem tinha 16 anos quando viu o padrinho começar a reclamar mais abertamente sobre o que acontecia pelos lados de Linha Arlindo. Era nas missas dos domingos na igreja São Sebastião Mártir, sempre quando a cerimônia ia para o fim, que padre Albino passava alguns recados à comunidade e aproveitou, em dois ou três sermões, para falar.

Luiz, à esquerda, lembra que o padrinho, cônego Albino Juchem, estava descontente com a situação. A foto do padre foi publicada na revista O Cruzeiro

“Ele se manifestou contrário ao movimento que tinha a ver com o Baierle. Estava contrariado com aquilo. O padrinho não tinha uma autoridade impositiva, mas era pelo correto. Naquele tempo e desde a Idade Média, o que era diferente da igreja era considerado errado, proibido. Alguns deixaram de ir na igreja para ir na casa do Estevão e outros diziam que era meio espírita. Imagine isso naquele tempo? Não era aceito”, conta o administrador de empresas, hoje com 83 anos.

Luiz foi morar com o padre Albino aos 7, depois que ficou órfão de pai (Alwisio, irmão de Albino). A mudança foi necessária porque na década de 1940, para uma mulher se virar sozinha com os filhos em Porto Alegre, era, no mínimo, mais difícil.

Dessa forma, a mãe, Zoé, escreveu aos cunhados gêmeos, padrinhos dos filhos Clarissa e Luiz, para que cuidassem dos respectivos afilhados. Luiz parou em Venâncio sob a tutela de Albino. Já Clarissa, hoje com 85 anos, foi morar num internato em Estrela, município onde o padre Reinaldo, gêmeo de Albino, trabalhava.

“Acho que aqui a questão da intolerância religiosa tem a ver. Meu padrinho, por ser da igreja católica, não podia ‘passar pano’ no que era considerado diferente. Tenho impressão que tudo ficou meio abafado, até porque não havia meios informativos locais.”

LUIZ CARLOS JUCHEM
Afilhado de Cônego Albino Juchem

‘O Estevão’ de Vila Arlindo

Luiz conta o que o padrinho era um homem extremamente discreto, nunca o viu bravo, mas tomava decisões e tinha seu jeito de lidar com as coisas. Assim era quando precisava deixar o afilhado ocupado, mesmo nas férias escolares.

Albino (que na época já tinha o cargo honorário de cônego), era amigo de Edmundo e Malvina Fischer, que moravam na Linha Arlindo, e recebiam o jovem Luiz para passar um tempo na sua casa. “Foi lá que eu tive mais noção, porque o padrinho não falava muito. Lembro um dia que a gente passou de carroça por um homem e apontaram: lá vai ‘o Estevão’. Então entendi que ele era influente por lá, mas a liderança que ele tinha não foi bem aceita pela igreja e alguns católicos.”

Os 68 ferimentos do delegado Tito Pereira

Entre o fim da década de 1940 e início de 1950, a prática de Estevão não causou embates diretos, mas continuou conquistando simpatizantes e, ao mesmo tempo, contrários. Do lado dos que reprovavam, as reclamações seguiam junto ao ouvido do vigário, de que os encontros na casa de Estevão não eram apenas para rezas católicas, mas algo relacionado a espíritos.

Sentindo-se pressionado e ele próprio há muito incomodado, padre Albino foi, certo dia, ao Clube Sete de Setembro, onde interrompeu um jantar entre o prefeito Alfredo Scherer (1909-1992) e o delegado José Tito Pereira (1903-1977). “Meu vô contava que o padre ouvia muitas queixas e ele estava perdendo a clientela de fiéis para esse fanatismo. Daí pediu para intervirem de alguma forma”, conta Alexandre Pereira, neto do delegado.

O pedido de Albino Juchem não era estranho, afinal, eram tempos em que o vigário tinha importância e influência igual ou próxima a do prefeito. No dia seguinte, Alfredo Scherer, Tito Pereira e um praça (um soldado da Brigada Militar), seguiram de jipe até a casa de Estevão.

Alexandre Pereira guarda as páginas das revistas O Cruzeiro e do Globo, que noticiaram o fato em todo Brasil (Foto: Arquivo pessoal)

Conforme Alexandre Pereira, o avô bateu na porta, à espera de uma conversa informal, já que, sem registro policial, Tito não tinha motivos para cobrar nada. “Quando abriram a porta, apareceu a Otília Borba, que estaria invocando o espírito de Santo Moisés, e bateu com um crucifixo de ferro no rosto do meu vô.”

Ainda segundo Alexandre, a jovem teria ‘atiçado’ Estevão a atirar contra o delegado. “Quando o Estevão descarrega o revólver na direção deles, o prefeito e o praça fugiram correndo. O praça deixou o prefeito para trás, era muito rápido, jogava na ponta do Guarani. Meu vô se escondeu atrás de uma árvore.”

Costumeiramente, Tito Pereira tinha seu Smith & Wesson carregado com cinco balas e deu dois tiros para o alto, como se fosse uma ordem para cessar tudo. Achando que estava resolvido, virou as costas e seguiu para o jipe. “Nisso, o Estevão vem atrás dele e atira de novo.”

Alfredo Scherer, em 1953, também foi alvo de tiros, mas saiu ileso. O registro é do fotógrafo Antônio Ronek, da revista O Cruzeiro

As balas atingiram o pescoço, o tórax e uma ‘deslizou’ pela coluna. Mesmo gravemente ferido, o oficial atira duas vezes contra Estevão e o atinge no cotovelo e no tornozelo, para impossibilitar qualquer ação do agricultor.

“Restava uma bala no revólver, mas não deu tempo. Vários ‘fanáticos’ caíram em cima do meu vô, com facão e foice, e bateram muito nele. Acabou desmaiando, mas estava tão ferido que acharam que tinha morrido e jogaram num mato de gravatá.”

Essa versão, Alexandre, que tem 62 anos e é microempresário em Porto Alegre, ouviu desde criança, quando perguntava ao avô por que ele tinha tantas cicatrizes. O ataque deixou 68 lesões, uma delas na mão esquerda, e não pode mais atirar. Depois que se recuperou dos ferimentos, Tito foi transferido para Porto Alegre, para trabalhar na parte burocrática de um presídio.

“Isso acarretou em uma injustiça histórica também. Porque o padre virou nome de escola, o prefeito foi homenageado com nome de rua e escola. Os dois seguiram em Venâncio. Já para meu avô, só ficaram as cicatrizes.”

ALEXANDRE PEREIRA
Neto do delegado José Tito Pereira

Delegado Tito Pereira é amparado pela esposa Maria Luisa, no hospital. O registro é do fotógrafo Nito Vidarte, da Revista do Globo

Tiroteio em Vila Arlindo

Depois do embate que quase matou o delegado, a notícia chegou ao comando da polícia em Santa Cruz do Sul e dezenas de policiais foram até a casa de Estevão Baierle. Lá, estavam reunidas cerca de 40 pessoas e um deles era José Kolberg, hoje com 91 anos. Ele era amigo de Evaldo, um dos filhos de Estevão, e diz que foi até lá para cortar o cabelo de alguns rapazes. “Eu não estava lá antes, só mais tarde, quando apareceu um monte da polícia e começaram a discutir. Eu não gostava de briga e não me meti”, relata José.

O aposentado conta que Evaldo tinha uma arma de caça e deu um tiro pela janela, o que fez os policias reagirem e metralharem a casa. As balas atravessaram o telhado e a parede de madeira, atingindo algumas jovens, entre elas, Maria (apresentada no início desta reportagem).

Após cessar os disparos, José conta que todos da casa, incluindo crianças, foram colocados em um caminhão e seguiram para a delegacia de Venâncio, onde passaram a madrugada. “Levaram todo mundo, menos o Evaldo e o Antônio [outro filho de Estevão] que fugiram pro mato.”

Entre as crianças, a irmã de José, Terezinha, que tinha 11 anos na época, e Agostinho, um dos filhos caçulas de Estevão, que tinha apenas 7.

Espiritismo?

Sobre a possibilidade de a prática de Estevão misturar catolicismo, espiritismo e até outros rituais, os Borba e os Kolberg não sabem especificar. A versão é que ele tinha santos dentro de casa e realizava as mesmas orações da igreja católica.

Na versão do delegado, um dos pivôs do tiroteio foi Otília Borba que, ‘incorporando’ um espírito, teria mandado Estevão atirar. A jovem casou com José Kolberg, em 1955. O aposentado conta que a mulher, que faleceu na década de 1990, não falava sobre assunto nos anos de casamento, nem tinha alguma prática religiosa diferente do ‘convencional’. “Era católica”, afirmou.

Os irmãos Terezinha e José Kolberg testemunharam o tiroteio. Ela tinha apenas 11 anos na época (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Quem também citou Otília, foi Gleno Scherer, 88 anos, filho de Alfredo Scherer, o prefeito em 1953. “Diziam que tinha uma mulher lá nos encontros que fazia uma espécie de ‘pregação’.”

Para o ex-deputado estadual, a questão religiosa era assunto delicado décadas atrás. “Às vezes, sem acesso a maiores informações, as pessoas se reuniam entorno de algo que lhes fazia bem, dentro do que compreendiam. Mas isso não era bem visto por alguns.”

Scherer conta ainda que o pai também não comentava o assunto em casa. A não ser quando era perguntado. “O pai era um homem expansivo, a casa sempre estava aberta. Lembro de algumas pessoas da comunidade que apareciam na hora do almoço para perguntar sobre o que aconteceu.”

Os registros das revistas O Cruzeiro e do Globo

Até 1959, quando entrou no ar a Rádio Venâncio Aires AM (o primeiro veículo de comunicação do município), a comunidade tinha a chamada ‘Voz do Poste’, cuja programação chegava através de caixas de som penduradas na rua Osvaldo Aranha.

Matéria da Revista do Globo foi publicada em 23 de dezembro de 1953

Dessa forma, não há registros se o caso de Estevão Baierle foi repercutido, jornalisticamente, de forma local em 1953. O que se sabe é que a história foi manchete de duas grandes revistas brasileiras na época: O Cruzeiro, do Rio de Janeiro (1928-1975) e Revista do Globo, de Porto Alegre (1929-1967). As fotos em preto e branco publicadas aqui são dessas edições.

Naquela época, as reportagens das revistas trouxeram informações atreladas às versões das autoridades ou do que constava nos depoimentos colhidos pela Polícia. Nos textos, há termos como “Pai Estevão”, “fanáticos”, “seita”, “espiritismo”, “versão germanizada de Antônio Conselheiro”.

Também sugerem o momento que Estevão começou a praticar sua ‘religião’: teria sido na década de 1940, quando uma das filhas faleceu ainda criança (outras duas meninas morreram bebês). A menina teria sofrido de ataques de epilepsia, sendo desenganada por médicos. Foi quando Estevão teria participado de uma sessão espírita e, depois que a filha faleceu, passou a misturar catolicismo (na maioria das vezes rezava em alemão), com livros de espiritismo e até exorcismo.

Matéria da revista O Cruzeiro foi publicada em janeiro de 1954

As reportagens das revistas estão publicadas no grupo ‘Venâncioairenses’, do Facebook, enviadas por Alexandre Pereira, neto do delegado Tito, que guarda as páginas em casa, em Porto Alegre.

Agostinho mantém itens da casa que pertenceram ao pai, como o quadro na parede e que pode ser visto na capa da Revista do Globo (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

História para esquecer

A casa onde tudo aconteceu foi demolida há mais de 30 anos. Mas partes dela ainda estão guardadas na residência de Agostinho Baierle, 75 anos, filho de Estevão. Ele aproveitou algumas tábuas para construir uma parede nos fundos, no mesmo terreno onde nasceu e cresceu. Agostinho também guardou alguns quadros, que podem ser vistos na foto principal da Revista do Globo.

O agricultor conta que tinha apenas 7 anos quando “primeiro apareceram entre três e, tarde da noite, um monte da polícia”. Agostinho não lembra quanto tempo o pai ficou no hospital (ferido a tiros pelo delegado), nem se ficou detido pela polícia. Só recorda o que aconteceu depois, do desgosto de Estevão, que não foi mais na igreja, nem rezava mais. “E a gente era acostumado a rezar o rosário três vezes por dia. Mas depois o pai não queria mais saber.”

Agostinho, sentado à esquerda, com apenas 7 anos. O registro é do fotógrafo Nito Vidarte, da Revista do Globo

Filha de Agostinho, a agricultora Luciana Inês Vogt, 42 anos, diz que pouco sabe porque a história foi praticamente esquecida pela família. “Muita gente não quer que toque no assunto, porque é uma lembrança triste. A gente perguntava para os tios, mas sempre diziam: ‘esquece isso’.”

Luciana entende que há outras versões sobre o fato, mas, do que ouviu de conhecidos e familiares, é de que o avô era “um cara tranquilo e um católico que benzia.”

 

Foto do casamento de Estevão e Clara. O casal teve 15 filhos ao todo (Foto: Arquivo pessoal)

Família

Estevão Baierle (11/11/1904-20/9/1969) nasceu na localidade de Rincão de Nossa Senhora, hoje interior de Passo do Sobrado. O ano em que foi morar em Linha Arlindo não se sabe, mas tinha uma vasta quantidade de terras na região próxima ao pedágio, nos arredores da RSC-287.

Foi casado com Clara Maria (1907-1960), com quem teve 15 filhos ao todo, entre vivos e falecidos. Agostinho, que mora na propriedade que era do pai, é o 14º na ordem dos nascimentos. Estevão está enterrado no cemitério de Vila Arlindo e, conforme a neta Luciana, teria falecido devido a um problema no coração, aos 64 anos.

Luciana e Agostinho, respectivamente neta e filho de Estevão Baierle, no terreno onde ficava a casa que foi cenário do episódio de 1953 (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

História de Vila Arlindo motivará pesquisa

A história a respeito do caso Estevão Baierle, de Vila Arlindo, vai virar projeto de pesquisa. A ideia será colocada em prática pelo professor de História, Jair Luiz Pereira, que soube do fato pelo grupo ‘Venâncioairenses’ no Facebook, na página criada por Paulo Cesar Schmaedecke e Losane Wazlawovsky e que conta com mais mais de 15 mil membros.

“Fui tomado por uma vontade irresistível de conhecer o outro lado dos fatos, a visão dos envolvidos diretamente. A versão oficial da igreja, da polícia, está expressa nos jornais e revistas mais famosos e conhecidos do país inteiro, à época.”

Como historiador, ele conta que também remeteu a história a outros fatos, como os mencionados na abertura da matéria, e de motivações familiares. “Talvez por descender de uma cultura baseada no sincretismo [reunião de doutrinas diferentes], uma vez que meus avós, católicos fervorosos, frequentavam o espiritismo e benzedores, ao mesmo tempo em que recebiam a visita do padre.”

Na infância, Jair Pereira costumava ouvir, nas rádios de Porto Alegre, histórias de espiritismo, sobrenatural, parapsicologia e umbanda. “Essas pessoas eram perseguidas, presas ou mortas por autoridades religiosas, jurídicas e policiais, talvez por se sentirem, de alguma forma, ameaçadas. Os argumentos eram os mesmos usados pela igreja católica na Idade Média: de feitiçaria, bruxaria, curandeirismo, charlatanismo e satanismo.”

Impressões

Ao analisar a adesão que Estevão teve, o professor explica que a assistência médica mais direta se dava a famílias mais abastadas em detrimento da maior parte da população que vivia na zona rural. “Essa população recorria a benzedores na busca por um alento, tratamento de doenças. No caso de Estevão, até o dialeto foi usado como se fosse uma linguagem usada por demônios, pois os jornalistas e autoridades não entendiam o que eles falavam. Diziam que os ‘fanáticos’ falavam uma linguagem de ‘difícil compreensão’.”

A pesquisa está na fase de formulação da metodologia, com o levantamento de fontes, escritas (documentais) e orais. O trabalho já conta com a ajuda de Bruna Baierle e Girlene Manganelli, que também são descendentes dos Baierle.


Revoltas na História

  • Canudos

Na abertura da matéria, são citados dois fatos históricos que remetem (ainda que numa proporção bem diferente), ao caso Estevão Baierle. Um deles é a Guerra de Canudos (1896-1897), que foi um confronto entre os moradores de um vilarejo na Bahia e o Exército Brasileiro, no qual mais de 25 mil pessoas foram mortas. O vilarejo era liderado por Antônio Conselheiro, um líder religioso, que tinha milhares de seguidores. O embate teria sido motivado por questões relacionadas à intolerância religiosa e política. O fato virou tema daquele que é considerado o primeiro livro-reportagem brasileiro: Os Sertões, de Euclides da Cunha, que cobriu parte da revolta como correspondente do jornal O Estado de S.Paulo.

  • Muckers

A Revolta dos Muckers (1873-1874) também foi um conflito entre militares e integrantes de uma comunidade religiosa na região que hoje pertence ao município gaúcho de Sapiranga. Moradores do Morro Ferrabrás seguiam o casal Jacobina e João Maurer. Cerca de 20 pessoas morreram. Essa história foi adaptada no livro ‘Videiras de cristal’, de Luiz Antônio de Assis Brasil, e no cinema, com ‘A paixão de Jacobina’. O filme, lançado em 2002, teve cenas gravadas na cascata do Chuveirão, em Linha Harmonia da Costa, interior de Venâncio Aires.


Impressões da repórter

Se você chegou até aqui, saiba que pode haver muito mais. Mas o papel do jornalista também é sintetizar, destacar pontos e, o mais importante, trazer todos os lados. Foi essa, talvez, a principal preocupação ao encontrar pessoas que sabiam sobre o assunto e que aceitassem falar sobre algo que é traumático ou, no mínimo, delicado.

Uma busca em nomes nas redes sociais, uma troca de informações, pergunta daqui, pergunta dali. Venâncio Aires, que é um território grande com mais de 70 mil pessoas, também é pequena e, assim, não parece ser tão difícil encontrar as pessoas.

Nessa aventura, com muitas visitas às cegas, sem contato prévio, tive a oportunidade de ouvir quem viveu tudo aquilo em dezembro de 1953, quando Venâncio Aires não tinha a metade da idade que tem hoje. Assim como, descendentes de outros, que dividiram as memórias dos familiares. Cada uma com sua versão, seja do que viu ou que ouviu.

A proposta da matéria não era apenas repercutir o que foi publicado nas revistas O Cruzeiro e do Globo. Buscamos recontar a história, com a ressalva de que é um reportagem feita em 2021 sobre um fato de 67 anos atrás, ou seja, não há documentos mais precisos. Mas, felizmente, o jornalismo se vale da história oral e também vira registro.

É provável que irão surgir dúvidas, questionamentos, outras informações, outras versões. E, se isso acontecer, um dos objetivos será alcançado: o de provocar algo, instigar, buscar mais. Tem vezes que as perguntas são mais importantes que as respostas.

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