Das coisas que só os venâncio-airenses entendem

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Quem nunca levou uma cadeira de praia e se sentou ao redor da Igreja São Sebastião Mártir para tomar chimarrão? Quem nunca comeu um xis do Ilgo ou cantou a segunda parte do ‘Parabéns a você’? Quem nunca foi numa Festa do Bastião ou sentiu aquele cheiro adocicado exalando das fumageiras? Quem nunca foi num show da Fenachim ou fez uma caminhada no Acesso Grão-Pará?

É pouco provável que o venâncio-airense não se identifique com algumas dessas situações. Momentos e cenários que só quem é daqui entende, afinal, são aspectos quase inerentes a tantas gerações e que alguns ainda se mostram ‘tendência’. Peguemos como exemplo o chimarrão do domingo à tarde, cujo hábito ficou grande demais para o gramado ao redor da ‘matriz’. Cada vez mais, há quem procure o Parque do Chimarrão para aquele encontro com amigos. Claro que aqui idealizamos uma realidade sem pandemia…

Se não há unanimidade, pelo menos há familiaridade, e sempre tem alguém que vai lembrar de uma coisa, e mais outra, e outra. Isso é facilmente percebido quando se buscam as referências de uma geração específica, que ainda cresceu sem as facilidades tecnológicas e, embora jovens, têm apenas a memória para guardar suas experiências.

É o caso do vendedor Cássio Julio Fockink, 41 anos, a quem a reportagem convidou para fazer um relato das suas vivências com ‘as coisas que são daqui’. O relato dele, com certeza, vai mexer com a memória de muita gente. Talvez um ponto ou outro serão desconhecidos ou muito específicos de alguma fase. De qualquer forma, a ‘jovem’ Venâncio Aires ainda tem chão e história para formar outras características, as quais podem ser do senso comum da sua gente ou únicas dentro da vida de cada um que ainda vai nascer e crescer aqui.

Lembranças do Cássio

Venâncio sempre foi uma cidade muito fria no inverno e muito quente no verão. Se bem que hoje os invernos já nem são mais tão rigorosos… Lembro de, na infância, meu pai me levando para a creche Casva, dos bueiros ‘fumando’ de tanta geada. No verão, lembro dos banhos no Castelhano. Vinha muitas pessoas tomar banho na ‘banheira’ e na ‘bacia’ do arroio.

Cássio, aos 9 anos (de pé, no meio), num campinho de futebol que já não existe mais no bairro União (Foto: Arquivo pessoal)

Lembro de acordar de manhã com a sirene da Venax e do cachorro Juruna que ficava sempre me esperando na quadra do antigo Curtume Closs. Eu morria de medo daquele Dog Alemão.

Lembro das vezes que a gente ia comer um xis no Ilgo no sábado e almoçar uma boa galinhada em alguma comunidade. Se ficava em casa, o churrasco sempre tinha que ter maionese.

Tantas coisas nossas. No entardecer dos meses frios, aquele cheiro doce pela cidade por causa do tabaco. O chimarrão no gramado da igreja, a música ao vivo no Calçadão, o chamado ‘inferninho’ nas Festas do Bastião, as domingueiras na Linha Hansel e as festas no salão Ruppenthal que marcaram muito uma geração.

Ainda, quando criança, não via a hora de ir na loja Três Guris para ganhar um balão. A gente jogava bola até escurecer, éramos ‘couro e osso’. Aqui em Venâncio, todo bairro que se prestava, tinha um campinho de futebol com goleira de madeira e as linhas do campo a gente pintava com óleo queimado. Éramos felizes com pouco. É uma época que, infelizmente, não volta mais.”

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