Eliezer ficou 11 dias internada no HSSM (Foto: Marina Kerkhoff/Divulgação)

Foram 11 dias de internação, sendo dois na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Sebastião Mártir (HSSM). O diagnóstico de coronavírus chegou quando já estava internada devido às complicações da doença. Passou por momentos em que chegou a acreditar que seria o fim e, por isso, quer valorizar e fazer valer a pena a nova chance.

No dia 10 de julho, a professora Eliezer Dias Martins dos Santos Okajima, 57 anos, começou a ter dores nas costas, nos olhos e febre e procurou atendimento médico da Unidade de Pronto Atendimento (UPA), onde foi solicitado o exame de sangue para descartar diagnóstico de dengue e recebeu analgésicos para dor. Porém, nos dias seguintes, passou a ter também dor no tórax, garganta e seguia com febre e, por isso, procurou atendimento médico particular. Já com desconfiança de infecção por coronavírus, o médico pediu que fizesse uma tomografia do tórax e exame PCR.

Na terça-feira, 14 de julho, fez a tomografia e, no mesmo dia, recebeu a ligação do hospital dizendo que deveria buscar atendimento, pois o pulmão estava muito comprometido, que já atestava a Covid-19. Eliezer foi internada no dia seguinte, ainda sem o resultado do PCR, e no mesmo dia já foi encaminhada para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI). “Eu tinha muita dor, no fim descobri que era falta de ar, era uma dor muito grande no peito”. Eliezer afirma que o pior sintoma era a dor nos olhos, mal conseguia abrir, doía muito.

Ela conta que o que agravou a situação foi a diabetes que nem sabia ter. Começou a fazer injeções de insulina no hospital e deve seguir com medicação constante. “Eu não fui entubada porque eu ouvi eles dizerem que não tinha condições, minhas vias aéreas são muito estreitas”, recorda.

Transmissão

Professora da Escola Estadual de Ensino Médio Jubal Junqueira, em Vila Deodoro, diz que ficou preocupada pela possibilidade de ter passado o vírus para as colegas na escola. “Como tenho 20 horas como professora e 20 horas na supervisão, ia pelo menos três dias da semana para a escola. Estava seguindo a rotina, com todos os cuidados, até dois dias antes de começar com os sintomas”, afirma.

Ela conta que muitas colegas disseram não entender como logo Eliezer tinha sido infectada, pois era a mais cuidadosa de todas. “Eu costuro e fiz muitas máscaras para doação, distribuía na escola, sempre disse que não ia atender sem máscara. Tem muita gente que subestima, acha que está distante”, observa.

“Eu não tinha medo de morrer, mas eu senti”

Enquanto estava na UTI, Eliezer relata que sentiu que ia morrer. Ela conta que não conseguia piscar os olhos e a dor era insuportável. “Eu percebia pequenas engrenagens, que estavam se diluindo. Em um determinado momento, a dor era muito forte, como se estivesse fincando uma faca nos pulsos. Com a dor tão intensa, as engrenagens começaram a se diluir, tinham pontos pratas como se estivesse me carregando e tirando a dor que eu tinha”, relata. A professora conta que neste momento sentiu que conseguiu voltar. Ela lembra de ouvir a voz da médica Jacqueline Froemming, que a estimulava para reagir, a ter forças que ia conseguir.

Eliezer diz que não tem religião e acredita que a experiência que teve foi uma questão da natureza, que se encarrega de dar força. “Quando você é do bem tem direito de receber o bem. Eu acredito que sim nós temos uma força da natureza, é a perfeição da humanidade”, afirma.

Depois dessa experiência, relata que tem vontade de uma mudança de vida. “Vou adotar um estilo de vida mais voltada para mim e meu marido. Vou procurar fazer mais o que eu quero, sair sem ter o porquê”, declara.

Ela também ressalta o sentimento de agradecimento aos profissionais da saúde, amigos e familiares que sempre torceram e auxiliaram. “Eu fui muito bem atendida no hospital, pessoas maravilhosas. Meu sentimento é de gratidão enorme por esses profissionais. A vida é o detalhe e se todo ser humano parar e pensar vê que tem algo a mais a oferecer”, finaliza.

Surpresa na alta hospitalar

O marido de Eliezer, Mitsuo Okajima, também positivou para Covid. Ele tinha dores no corpo, garganta e febre, mas não teve complicações e se recuperou sem necessidade de internação. Companheiros fiéis um do outro, ele organizou uma saída em grande estilo para a esposa.

A professora teve alta no domingo, 26 de julho, e alguns dos familiares e amigos a recepcionaram, enquanto um violinista tocava ‘Aleluia’. O marido, como havia prometido, estava de terno e gravata. “Meu marido é muito emotivo, gostamos muito de música. Foi linda a surpresa”, conta.

O vídeo da saída fez sucesso nas redes sociais entre os familiares que estão em outros municípios e puderam acompanhar essa vitória. Eliezer tem três filhos do primeiro casamento, que moram em Cascavel, Erechim e Passo Fundo e cinco netos. Okajima também tem três filhos do que moram em Porto Alegre e Ijuí. Ela conta, com alegria, que recebeu um vídeo de um neto, que atualmente mora na Inglaterra, quando estava no hospital. “Nunca mais tinha tido contato com esse meu neto. Acho que a distância e o medo de perder alguém faz, sim, o sentimento florescer e revigorar em nossos corações”, percebe.

“Eu não sabia quem era mas ouvia a voz me incentivando para eu reagir. Isso faz uma diferença muito grande para uma pessoa que está fora do contexto. A gente tenta reagir, mesmo sem forças.”

ELIEZER SANTOS OKAJIMA – Professora

Espiritismo explica experiências de quase morte

O médico pneumologista e intensivista, André Luiz Rocha Puglia, que também é espírita, explica que já foram realizadas diversas pesquisas com base em relatos de pessoas que estiveram em situação de quase morte. Ele comenta que muitas pessoas que estiveram internadas na UTI ou mesmo que sofreram uma parada cardíaca e foram reanimadas relatam que viram os atendimentos de emergência de fora do corpo. “Existem vários estudos sobre essas situações, em que a pessoa é ressuscitada e depois relata a lembrança de ver alguém fazendo massagem cardíaca, assistindo de fora do corpo, como se estivesse flutuando”, diz.

O médico, que participa de casas espíritas desde a infância, ressalta que esses relatos se assemelham a ideia de que quando dorme a pessoa se afasta do corpo e visita outros lugares. Puglia diz que a doutrina espírita defende esse conceito, que na maioria das vezes a pessoa não lembra quando acorda. Pacientes de UTI, que ficam sedados, provavelmente também saem do corpo. “O que acontece é que na maioria das vezes a pessoa não lembra porque isso é um mecanismo natural que acontece, a nossa lembrança está no cérebro e nosso cérebro não está lá, só o espírito”, explica.

Por outro lado, ele defende que a doutrina estimula que se olhe com cautela a questão do sonho, porque não necessariamente tudo o que a pessoa lembra é o que, de fato, aconteceu. “No caso dessa senhora pode ser que ela tenha saído, lembrado e voltado. O espiritismo explica isso”, defende.

Médico diz que doutrina do espiritismo explica que a alma sai do corpo (Foto: Cassiane Rodrigues/Folha do Mate)

Já a medicina em si não aponta uma justificativa para esses relatos. Puglia observa que a medicina não aceita a existência de algo a mais do que o corpo. “Não se aceita a existência da alma e não teria explicação para isso. Já o espiritismo diria que provavelmente a pessoa estava fora do corpo. O que se sabe é que nossa ligação com o corpo é muito forte no momento que estamos acordados, mas se a pessoa ingerir alguma substância que possa diminuir a consciência dela, isso faz com que se liberte com mais facilidade como se estivesse dormindo”, completa.

Desde que chegou em Venâncio Aires, em 1998, o médico André Puglia frequenta a Casa Espírita Em Busca da Verdade. A relação dele com o espiritismo começou ainda na infância, em Porto Alegre, já que os pais eram espíritas. Ele exerce a profissão de médico, mas procura não unir a medicina e espiritismo. “Respeito a crença das pessoas, cada religião tem o direito de fazer a pregação dentro de seu templo. Fora dele é preciso cuidado para não agredir a pessoa com ideias que não concorda”, afirma.

Força

Eliezer relatou que ouvia palavras de estímulo das pessoas à sua volta como lembranças soltas, sem conseguir identificar quem era, mas que a ajudaram e deram força para reagir. O médico defende a importância da comunicação com os pacientes, mesmo que estejam sedados. “Temos uma possibilidade grande de mesmo em coma ela perceber o que é dito. Demonstrações de carinho e palavras de estímulo muitas vezes ajudam na melhora”, sugere.

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