“Eu acredito no estudo”, diz haitiano que dá aulas de francês em Venâncio

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Quando saiu do Haiti, em 2014, o professor Felder Charles, 42 anos, buscava um lugar que oferecesse, além de emprego, oportunidade para desenvolver o conhecimento e crescer como pessoa. “Eu acredito no estudo”, destaca o profissional, que está em Venâncio Aires desde 2018 e, desde o ano passado, dá aulas de francês na Fisk Escola de Idiomas.
A chance de lecionar e retomar a antiga profissão trouxe ao morador de Venâncio Aires a oportunidade de exercer a atividade que tanto gosta. No Haiti, era professor de francês e diretor de uma escola. Apesar disso, como só leciona duas vezes por semana, o trabalho

ainda não é suficiente para, sozinho, manter a família.
Durante um período, Charles conciliou as aulas com o trabalho na padaria do Supermercado Lenz, onde preparava os recheios para as cucas, molhos para pizzas e rapaduras, entre outros itens. Há quatro meses, saiu do emprego com a ideia de migrar com a família para os Estados Unidos, o que não foi possível. Com a alta dos preços vivenciada nos últimos meses, ele relata as dificuldades e a impossibilidade de rever a família no Haiti e a irmã que vive em São Paulo.

Charles com a esposa Soline e a filha Déborah (Foto: Arquivo pessoal)

A principal motivação para buscar um novo emprego está na filha Déborah Derline Charles, uma venâncio-airense nascida em 21 de março do ano passado. “Vou fazer de tudo para ela”, destaca ele, ao lembrar que foi na Capital do Chimarrão que ele e a esposa Soline Alfrénar, 39 anos, viram se concretizar a maior realização das suas vidas, com o nascimento da filha, depois de quatro gestações mal sucedidas.

Atualmente, o haitiano está fazendo a Carteira Nacional de Habilitação (CNH). “É mais uma oportunidade para buscar trabalho, conseguir um serviço bom e uma chance de ter um carro para levar minha filha para a escola em um dia de chuva”, comenta, emocionado. “Não estou aqui para pedir dinheiro, sou uma pessoa instruída, posso colaborar”, considera ele, que fala crioulo – língua oficial do Haiti – e francês, além de saber um pouco de inglês, espanhol e português, que aprendeu ao se mudar para o Brasil.

Para Charles, que residiu em Estrela, no Vale do Taquari, antes de morar em Venâncio, a cidade é um bom lugar para morar e construir a vida. “Gosto de Venâncio, é a cidade ideal, me sinto muito bem aqui. Sei que aqui tem oportunidades e tenho muita fé em Cristo”, garante.

Trajetória

Por conta do terremoto que devastou o Haiti, grande parte da população deixou o país em busca de oportunidades. A casa de Felder Charles não foi destruída, mas a dificuldade de se manter, instabilidade política e a insegurança pela possibilidade de novos terremotos motivaram ele e a esposa Soline Alfrénar (que era proprietária de um minimercado) se mudarem para o Brasil, que estabeleceu um convênio com o Haiti para receber os imigrantes. “Queríamos achar um lugar seguro para poder desenvolver nossa capacidade”, afirma Charles.

Filha Déborah tem nove meses (Foto: Arquivo pessoal)

O casal foi para o município de Estrela, em 2014, onde trabalhou em fábrica de rações e frigorífico. Em 2016, retornou ao Haiti, mas sem a possibilidade de ficar lá, voltou ao Rio Grande do Sul. Por indicação de um conhecido, veio para Venâncio Aires para trabalhar na safra da indústria do tabaco, em 2017.

Como o trabalho era temporário, Charles ficou desempregado por nove meses, até ingressar no Supermercado Lenz, em maio de 2018, onde permaneceu por mais de três anos trabalhando na padaria. Ele conta que, nos primeiros dias, anotava o nome de todos os ingredientes na língua materna (o crioulo), para não esquecer. “Entrei sem saber nada e depois fui padeiro e confeiteiro.”

Entre os aspectos que chamaram atenção de Charles no Brasil estão a burocracia para abrir uma empresa. “Lá no Haiti, se tem dinheiro é mais fácil para trabalhar por conta”, compara. Outro fator que o impressionou é ver pessoas que não sabem ler e escrever e constatar que poucas pessoas têm acesso ao ensino superior.

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