Greice fala sobre a importância do autocuidado e de enfrentar as lutas com coragem e otimismo (Foto: Taís Fortes/Folha do Mate)

Durante 11 anos, a farmacêutica Greice Catrine Goerck, 37 anos, lutou para vencer o câncer de mama. Ao longo desses anos, ela recebeu três diagnósticos da doença, passou por uma cirurgia para remoção do tumor e da mama esquerda, sessões de radioterapia e de quimioterapia. Mas também foi neste período que ela obteve muitas vitórias: a maternidade, em 2014, e a alta oncológica, neste ano.

Em 2009, quando tinha 26 anos, Greice começou a perceber sinais de que algo estava errado com a sua saúde. “Sempre falo que temos que aprender a nos autoconhecermos, a escutarmos os sinais que o corpo nos passa. Eu não tinha o hábito de fazer o autoexame e eu comecei a sentir fisgadas no peito do lado esquerdo. Cheguei a pensar que podia ser algum problema no coração ou ansiedade. Não dei muita bola até que um dia, no banho, senti a fisgada, coloquei a mão no peito e percebi que ele endureceu”, recorda.

Após realizar os exames e receber o primeiro diagnóstico de câncer de mama, a farmacêutica iniciou o tratamento, que envolveu a realização de 30 sessões de radioterapia, oito de quimioterapia e uma cirurgia para a retirada do tumor e da mama do lado esquerdo. “Sempre digo que eu não tinha medo de morrer. Meu maior medo foi, quando eu tive o diagnóstico, não poder ter filhos. Só tive medo de morrer depois, no meu terceiro diagnóstico, quando os meninos já tinham nascido”, relata.

A preocupação em relação à maternidade era tanta, que um dos primeiros pedidos feitos ao médico era que ele levasse em consideração na hora de escolher o tratamento que ela ainda não tinha filhos. Além disso, Greice decidiu fazer o congelamento de óvulos. “O tratamento não interferiu na minha fertilidade, mas o relevante na hora da escolha foi a qualidade dos óvulos. Os que eu tinha guardado não foram expostos à quimioterapia”, observa.

Segunda luta

Em 2012, Greice percebeu, novamente, que algo não ia bem com a sua saúde. “Esse me autoconhecer eu tive em todos os diagnósticos”, comenta. Quando voltou a sentir as fisgadas no peito, não fazia muito tempo que havia realizado exames de acompanhamento. Contudo, não conformada com o incômodo que estava sentindo, decidiu refazê-los e teve a confirmação do segundo diagnóstico.

Desta fez, Greice teve um câncer mais agressivo, que ocasionou comprometimento ósseo. Entretanto, ela fez a quimioterapia, reagiu bem ao tratamento e não precisou passar por uma cirurgia mais radical. A moradora de Mato Leitão explica que o câncer de mama em pessoas jovens, como era o caso dela, não é hormonal. Ele se chama triplo-negativo.

Após passar pelos tratamentos não foi necessário seguir com a ingestão de medicamentos, somente precisou continuar o monitoramento por meio de exames. No segundo tratamento, Greice passou por seis sessões de quimioterapia, novamente no lado esquerdo.

Diagnóstico e maternidade

Na terceira vez em que foi diagnosticada com câncer de mama, Greice começou a ter os sintomas no fim da gravidez dos filhos gêmeos Joaquim e Benjamim [hoje com 6 anos], em 2014. “Todos os meus diagnósticos fui para a mesa de exames sabendo que eu estava doente, porque eu aprendi a me conhecer e a reconhecer os sinais do meu corpo. O exame era para confirmar o que eu já sabia.”

Um mês após o nascimento dos filhos, Greice foi para Porto Alegre, cidade na qual fez todos os tratamentos, refazer os exames, que confirmaram o terceiro diagnóstico. Quando os filhos completaram dois meses ela iniciou as quatro sessões de quimioterapia e depois 30 de radioterapia. “Mas foi meu último tratamento e espero que para o resto da vida.”

Após os três diagnósticos e os tratamentos que precisou passar, Greice ressalta a importância de estar atento aos sinais do corpo. “Hoje o câncer de mama tem uma alta prevalência, principalmente no Rio Grande do Sul. Mas vemos muitos casos de cura justamente por diagnósticos precoces. Isso é comprovado e temos que relevar ”, ressalta.
Ela ainda menciona a importância das pessoas não se omitirem dos sinais que o corpo apresenta. “Quando alguma coisa se mostra é para tu ter tempo hábil de ir atrás. Nunca me omiti, apesar de saber que seria necessário passar por tudo de novo. Eu sempre vi cada passo como uma nova chance”, conta.

Ao longo desses 11 anos, a farmacêutica relata que passou por uma mudança de sentimentos. Ela lembra que após terminar o primeiro tratamento, não imaginava que teria força para enfrentar uma nova luta. No entanto, aprendeu a tirar forças de lugares que nem imaginava e a se fortalecer com as dificuldades. “Tem algumas coisas na vida que a gente não tem escolha. Ficar doente é uma delas. Mas se sentir doente é escolha. Enfrentar com bom humor é escolha. Se ajudar é escolha. Pensar positivo é escolha”, salienta.

Para Greice, a fé e o apoio da família e dos amigos são fundamentais para poder vencer as lutas. Além disso, apesar dos desafios em conciliar o nascimento dos filhos com o tratamento, ela sempre encontrou nos dois motivação. “Não tinha como olhar para eles e não pensar que eu tinha que me curar. Eles potencializaram toda a minha força de vontade.”

Greice com os filhos gêmeos Joaquim e Benjamin, hoje com 6 anos (Foto: Taís Fortes/Folha do Mate)

“Enfrente com otimismo e coragem”

Durante os tratamentos, Greice sempre buscou continuar com a rotina de trabalho, lazer e convivência com outras pessoas. Ela também buscava manter o pensamento positivo. “Sempre fui muito das mentalizações, de plantar na minha cabeça a cura, de me ver bem, de querer ficar bem e acho que isso faz muita diferença. Quando as pessoas perguntavam como eu estava, sempre dizia ‘cada dia melhor’. Falei isso milhares de vezes e realmente foi assim que me senti. Sinto que essa frase me ajuda muito e eu continuo usando ela.”

Desde o último tratamento, já se passaram cinco anos, período que é considerado uma grande vitória, levando em consideração o tipo de câncer que Greice teve. Neste ano, ela recebeu alta. Apesar disso, segue realizando exames, mas eles não são específicos oncológicos. “É um acompanhamento para a vida toda”, observa.

Para Greice, hoje o sentimento é de que tudo valeu a pena. “Me sinto muito mais completa. Acho que tudo na vida é crescimento. Temos que saber aproveitar todos os momentos. Sempre tentei ver pelo lado positivo, de me tornar uma pessoa melhor, de poder transmitir alguma coisa positiva. Precisei disso para me sentir completa. Hoje me sinto forte, preparada para enfrentar qualquer dificuldade.”

Greice, o marido Claudir Eli Trojack, 43 anos, e os filhos gêmeos Joaquim e Benjamim durante o terceiro tratamento (Foto: Arquivo pessoal)

Ela também ressalta a importância de as mulheres se prevenirem, mas, se necessário, enfrentarem a doença. “Enfrente com otimismo e coragem. A vida vale a pena, tem muita coisa reservada para vivermos e não podemos desistir jamais.” Além disso, ela lembra que passou por muitas situações difíceis, mas também obteve muitas conquistas. Por isso, acredita que na importância de valorizar a oportunidade de viver e de aprender a conviver com as limitações e não supervalorizá-las. “Tudo deu muito mais certo do que o grau de dificuldade que eu tive. O câncer é um marco na vida da gente, no sentindo de enxergamos as coisas diferentes e de valorizarmos e darmos importância ao que precisa.”

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