Palometas afetam a renda de pescadores

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A rotina do pescador Paulo Sérgio Vieira da Silva, 60 anos, era acordar todos os dias às 5h e ir para o Rio Jacuí pescar, mas desde o início do ano, isso está mudando por causa das palometas. O morador de Monte Alegre, em Vale Verde, continua tentando pegar peixes, no entanto agora sai de casa pelas 6h e não consegue ir muito longe. “Eu ia pelas 5h, pescava nas lagoas do rio e, depois, limpava os peixes. Voltava para casa só depois do meio-dia. Agora, vou pelas 6h, não tem mais as lagoas, pois estão muito baixas, e umas 9h já estou em casa”, relata.

Pescador há 30 anos, Silva sustenta a família somente com essa renda, mas desde janeiro ela caiu cerca de 80%. Além do baixo nível do rio, a palometa, espécie comum no Rio Uruguai, que invadiu o Rio Jacuí, também é responsável pela falta de peixes, segundo ele. “Eu nunca tinha visto uma palometa, sabia que existia pelos amigos falarem, porém eu peguei a primeira em março e, até agora, já foram mais de dez que pesquei”, comenta.

Ele conta que não foi atacado pela ‘piranha’, mas outros pescadores, até mesmo que vão pescar por hobby, já foram mordidos. Segundo Silva, os peixes que estão nas redes são atacados diariamente, principalmente os “de couro”- sem escamas. “Percebi que elas comem mais os pintados e jundiás. Quando pego os alevinos e tem uma palometa na rede, ela come mais da metade das outras espécies. Às vezes, são pequenas, daí entram na rede, fazem o estrago e saem”, lamenta, pois esses peixes comidos pelas piranhas não podem ser comercializados.

No ano passado, ele pescava em média 30 quilos de peixe por dia. Hoje não consegue pegar essa quantidade por semana. “Hoje pego na média de três quilos por dia. Além disso tudo, a gasolina também está cara, daí não compensa ligar o barco todos os dias. Está difícil sobreviver da pesca aqui no Jacuí”, atesta.

SOLUÇÃO

O pescador ressalta que, no momento, seria muito importante os pescadores conseguirem um auxílio, pois mesmo trabalhando na melhora dos alevinos, o resultado pode demorar. “Tem municípios que conseguiram, eu acho que seria muito bom. Assim como eu, tem mais pescadores que dependem somente desta renda”, destaca.

A repovoação de alevinos como pintados, dourados, lambaris e outros, para Silva, seria importante, mas antes disso ele frisa que precisam arrumar a barragem, pois desde que foram registrados problemas na estrutura, em 2018, o nível do rio diminuiu e a quantidade de peixes também. “Enquanto não fechar a barragem, não adianta soltar alevinos, pois as lagoas que eles se criavam estão secas, os barcos nem entram mais”, constata.

A palometa é uma espécie incomum na região, que parece com um peixe Lambari, porém tem dentes e é carnívora
A palometa é uma espécie incomum na região, que parece com um peixe Lambari, porém tem dentes e é carnívora (Foto: Roni Müller/ Folha do Mate)

Espécie carnívora está acabando com outros peixes

O pescador Luís Venero Machado, 57 anos, relata que está difícil viver da pesca. Ele ainda não pegou a palometa, mas já sente indiretamente as consequências da espécie de ‘piranha carnívora’. “Já estava complicado, já pegávamos pouco peixe no Rio Jacuí nos últimos tempos. Eu tirava em média um salário mínimo e, agora, nem isso. Pego cerca de dois quilos por semana, é muito pouco”, lamenta Machado, que depende da renda para sustentar a família.

Morador de Monte Alegre há 20 anos, ele diz que, talvez, os pescadores tenham que parar de usar redes, pois no equipamento, se há uma palometa, ela machuca os outros peixes. Para evitar isso, o correto seria pescar com anzol ou espinhel, o que demora e requer mais trabalho. “O ruim é que na linha é pior, demora demais. Precisamos de alguma ajuda, não sabemos como progredir nisso”, conclui.

Palometas viram tema de estudo universitário

O professor do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Fernando Gertum Becker, começou a estudar as palometas neste ano, quando começaram aparecer mais no estado. Além dele, alguns professores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e do Museu de Ciências Naturais também estão no projeto. “Eu e outros colegas da área começamos porque chamou atenção, é um problema e, como todos nós trabalhamos com peixes, precisamos entender mais”, comenta.

O grupo de docentes quer reunir mais informações sobre a situação e estudar cientificamente sobre a espécie. “Estamos organizando as ideias com a intenção de fazer um projeto concreto para auxiliar nessa invasão das palometas, mas tudo depende muito de recursos financeiros e estudos mais aprofundados”, afirma.

Ele adianta que já há registro da ‘piranha vermelha’ nos rios Jacuí e Taquari. “Mas precisamos ter tudo registrado corretamente, com validação e evidências reais. Assim mapeamos todas informações e fazemos um trabalho de detetive para começar a pensar na solução”, esclarece.

AÇÃO

A ideia do grupo é pensar nas questões de compreensão do problema e auxiliar os órgãos públicos a pensar e ter soluções para o problema da palometa. Mas, primeiro, o trabalho de monitoramento precisa acontecer. Becker lembra que já houve registro de outras espécies de peixes incomuns na região, que vieram em outros anos e, aos poucos, diminuíram. “É muito instável, não tem como dizer que essas espécies que já apareceram diminuíram por questão biológicas próprias ambientais ou outro motivo, por isso requer tanto estudos e pesquisa”, analisa.

O professor afirma que deve-se localizar onde são as vias de entrada e providenciar o bloqueio, de alguma forma. “Bloquear não seria sem passagem de água, seria sem a passagem de peixes”, diz. Se nada for feito, outras espécies que são comuns no Rio Uruguai podem aparecer no Rio Jacuí, como já aconteceu, porém eram peixes que não causavam problemas na pesca. “Tem que evitar que as outras passem para cá. Elas não são problemáticas como as palometas, mas são espécies não comuns para essa região e, se estão vindo, é porque algo está errado”, frisa.

Outra alternativa é impedir a conexão da Laguna dos Patos até as lagoas do Litoral Norte, que ainda não registraram a invasão das palometas. “É importante que evitemos a passagens das palometas para não causar problemas nesses lugares também, até porque são locais que dependem do turismo”, complementa.

Informações

• Fernando Gertum Becker explica que os docentes já sabem que a palometa é uma espécie com capacidade elevada de invasão e adaptação. Ela pode se dispersar, se estabelecer em novos ambientes e reproduzir populações locais.

• “O que não sabemos é quando ela começou isso nos rios Jacuí e Taquari. Temos relatos na mídia que foi a partir de abril, mas sabemos que no Jacuí já tinha pescadores falando disso em fevereiro”, comenta.

• Ele adianta que há várias hipóteses de como elas teriam entrado, mas é preciso estudar melhor e ter certeza, para poder planejar a solução para essa invasão das ‘piranhas vermelhas’.

‘Piranhas vermelhas’ já invadiram a região no passado

O empresário e pescador Paulo Schwertner lembra dos problemas causados pelas palometas entre os anos de 1988 e 1998. As ‘piranhas vermelhas’ foram registradas nos rios Jacuí e Taquari, mas em menor quantidade na comparação com os registro de agora.

Elas prejudicaram a proliferação de outras espécies importantes da região e, para amenizar isso, a Colônia de Pescadores de Venâncio Aires (Copeva), que está inativa no momento, repovoou os rios com outras espécies.

Schwertner conta que as palometas começaram a aparecer nas redes e nos anzóis dos pecadores e, assim como agora, comiam os peixes e prejudicavam a pesca. “Não lembro de ter tantos relatos como agora, e de ataques diretos às pessoas também não me recordo. Mas tivemos um movimento parecido, de querer solucionar, fazer reuniões e estudar a situação”, afirma.

Em 1998, a Copeva colocou nos rios Jacuí e Taquari milhares de alevinos, de diversas espécies, para repovoamento. Entre eles estavam os dourados, que são predadores das palometas. “Queríamos fazer mais vezes, mas depois mudou a legislação e o Ibama não autorizou. Mas nossa ação teve bons resultados, pois ficamos anos sem ouvir falar das palometas”, argumenta.

Em 1988, a Folha do Mate registrou o aparecimento de palometas no Rio Taquari, em Vila Mariante, interior de Venâncio Aires
Em 1988, a Folha do Mate registrou o aparecimento de palometas no Rio Taquari, em Vila Mariante, interior de Venâncio Aires

SAIBA MAIS

  1. No fim da década de 1980, houve registro de palometas no Rio Taquari.
  2. Em 2006, cerca de 20 pessoas foram mordidas no Balneário Passo do Angico, em Toropi. E, no mesmo ano, pescadores de Uruguaiana fizeram um mutirão para pescar as ‘piranhas’ e evitar ataques.
  3. Em 2020, mais de 100 pessoas foram atacadas pelo peixe na Praia das Areias Brancas, em Rosário do Sul. Uma rede para proteger os banhistas foi colocada, demarcando uma área segura para banho.
  4. Na época, também foram registrados ataques de palometas a banhistas no Balneário Jacaquá, no Rio Ibicuí, em São Francisco de Assis.
  5. Em janeiro de 2020, mais de 40 pessoas foram mordidas pela ‘piranha vermelha’ em Rosário do Sul.
  6. Em fevereiro deste ano, um ataque foi registrado no Rio Jacuí, em Cachoeira do Sul. Em março, as ‘piranhas vermelhas’ foram pescadas no mesmo rio, em Vale Verde, região incomum para elas.
  7. Em abril, a ‘piranha vermelha’ foi encontrada em Bom Retiro, no Rio Taquari. Mas, na região mais próxima de Venâncio Aires, ainda não há registros.

Audiência Pública discutiu a invasão de palometas no rio Jacuí

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