Tradição dos ovos decorados e recheados de cri-cri

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Presentear alguém na Páscoa com ovos é uma tradição muito antiga. Antes dos ovos de açúcar e os de chocolate, eles eram confeccionados de uma forma simples e totalmente artesanal: eram utilizados ovos de galinha recheados com algum tipo de doce.

A tradição pode até estar ‘se perdendo’, mas principalmente em famílias com descendência alemã, essa época é de muito trabalho manual. Em Centro Linha Brasil, interior de Venâncio Aires, mãe e filha se dedicam na decoração e no enchimento dos ovos. Adriane Meri Metz, 45 anos e Lori Adela Röhsler, 65 anos, guardaram casquinhas de ovos de gansa e de galinha e agora realizam o preparo dos presentes.

Lori recorda que a avó sempre fazia os ovos de galinha recheados com cri-cri (amendoim com açúcar). “A gente já esperava pela época da Páscoa. Ficávamos esperando ansiosamente o coelho trazer os ovos que a avó preparou.”

Depois de alguns anos, foi a vez de Lori assumir essa atividade e ensinar para as filhas. “Hoje tem adulto que espera mais que criança”, comenta. A tarefa de decorar os ovinhos é um lazer e passatempo para Lori e Adriane nos fins de semana que antecedem a Páscoa. Juntas, elas presenteiam mais de 25 pessoas da família entre filhos, netos e afilhados. “É sempre uma festa, muitos já esperam”, acrescenta Adriane.

Apesar de presentearem com ovos de chocolate feitos em casa, os mais tradicionais são os decorados recheados de cri-cri. “Esse ano guardamos bastante casquinhas, e os presentes vão ser a maioria com os ovos de galinha e gansa”, comenta Lori.

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Preparo dos ovos recheados com cri-cri

Após lavar bem a casquinha do ovo e deixar secar, é utilizado papel crepom para decorá-lo. O papel é molhado na água e enrolado na casquinha. “Eu lembro que, na minha infância, já existia esse papel crepom. É algo bem antigo”, salienta Lori.

Depois que a ‘pintura’ seca, de preferência de um dia para o outro, o ovo é recheado com o cri-cri. “A gente cozinha um quilo de açúcar com uma xícara de água. Quando começa virar uma calda acrescento um quilo de amendoim e mexo até virar o cri-cri”, destaca Adriane.

Mãe e filha ressaltam que o cri-cri precisa estar em temperatura ambiente para rechear os ovos. Depois de rechear, pode-se utilizar forminhas de papel para brigadeiro ou recortar moldes nos pacotes de farinha para fechar as casquinhas recheadas. “A gente não usa cola, pois isso faz mal ao entrar em contato com o amendoim. Fizemos uma misturinha de farinha e água, tipo uma cola, e fechamos as casquinhas”, revela Lori.

Ela explica que a forma de fazer segue o modelo tradicional, como a vó dela ensinou. “Hoje, além das minhas filhas, minha neta de oito anos já mostra o interesse em ajudar e continuar com a tradição”, comenta Lori.
Adriane lembra que, antigamente, as famílias plantavam o amendoim para coincidir a colheita na época da Páscoa, já com o objetivo de rechear os ovos. “Tinha uma época em que a gente plantava amendoim também, mas aqui em Centro Linha Brasil, nos últimos anos se tornou inviável, os quatis não deixam nada na lavoura, a gente nem consegue colher. Por isso compramos”, observa a produtora de tabaco e leite.

Lori molha o papel crepom na água, enrola nas casquinhas de ovos e espera secar para rechear. (Foto: Roni Müller/Folha do Mate)

“Esse ano vai ser diferente de novo. Não vamos ter o tradicional almoço de Páscoa, então é mais um motivo de fazer os ninhos e entregar para aqueles que a gente ama.”

LORI ADELA RÖHSLER- Moradora de Centro Linha Brasil

“Desde pequena, eu sempre ajudava minha mãe, aprendi com ela. Esse momento sempre foi muito aguardado. Assim como nossa família já espera pelo momento de receber seus ninhos com os ovos artesanais.”
ADRIANE MERI METZ-  Produtora rural

Resgate de tradições

A Emater de Venâncio Aires vem trabalhando fortemente com o resgate das tradições no município. A decoração de ovos de Páscoa é um dos exemplos disso. Conforme a extensionista rural social, Viviane Röhrs, muitas atividades e ritos foram perdidos e substituídos por coisas prontas, pois se tornam mais práticas. “Muitas vezes as pessoas acabam não tirando um tempo para fazer essas atividades.”

Uma das grandes preocupações, segundo Viviane, é com a participação das futuras gerações nas atividades. “Muitas histórias, tradições e valores estão se perdendo, a gente precisa fazer esse resgate, seja em uma data especial ou em um qualquer momento. Para a tradição não se perder, precisamos inserir os jovens nas tarefas, mas a gente sabe que infelizmente muita coisa vai sendo deixada de lado.”

Emater vem trabalhando fortemente com o resgate de culturas e tradições mesmo em tempos de pandemia. (Foto: Roni Müller/Folha do Mate)

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