Última parada: Hotel Schmidt

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“Ué, o que o governador tá fazendo aí?” Naquele início de uma manhã qualquer na década de 1950, o comerciante Avelino Klein se surpreendeu ao avistar Ildo Meneghetti tomando chimarrão tranquilamente, sentado em um banco à frente do Hotel Schmidt.

Klein, hoje com 95 anos e vizinho há mais de sete décadas do local, não se lembra o que o então comandante do Rio Grande do Sul (1955-1959) fazia em Venâncio Aires. Mas o governador, com certeza, é um exemplo dos milhares que passaram em algum momento naquele que era considerado um ‘centro’, uma ‘referência’ na região e da qual a história já tem quase um século.

História que talvez muitos desconheçam, mas cujo endereço é comum a todos. Pergunte a qualquer venâncio-airense: antes de apontar o cruzamento da rua Júlio de Castilhos com a Reynaldo Schmaedecke, a indicação será sempre a mesma: “naquela esquina, a do Hotel Schmidt.”

A propaganda de um nome proibido

Foi há quase um século que o agricultor Emílio Schmidt trocou a Linha Arroio Grande pelo centro de uma cidade ainda não tão urbana. Isso foi na metade de 1921, quando Venâncio Aires era só uma ‘balzaquiana’ em seus recentes 30 anos.

Na Júlio de Castilhos que não passava de uma estrada com muito pó em dias secos e muito barro em dias chuvosos, Schmidt começou com serviços de hospedaria. Iniciou pequeno, em uma casa comprada da família Nietzke e que ficava no terreno ao lado do atual prédio.

O movimento vinha, principalmente, com a passagem de caixeiros viajantes, a maioria em carroças ou mesmo com tudo no lombo do cavalo. Esse tipo de condução também exigia um galpão para animais, árvores para amarrá-los e um potreiro para pastagem. Para os raros automóveis que existiam naquele tempo, também havia garagem. Todo um luxo à disposição.

Ainda sem a ‘estrada da produção’ (BR-386), a movimentação era intensa com gente da Serra e da região noroeste do Rio Grande do Sul, que fazia uma última parada em Venâncio antes de seguir a Porto Alegre. Para dar conta, Emílio Schmidt decidiu construir um novo hotel, na esquina. Um prédio gigantesco, com dois andares.

Neste momento, já era década de 1940 e a 2ª Guerra Mundial (1939-1945), que parecia tão longe, teve seu impacto por aqui. Ao declarar guerra aos países do Eixo (Alemanha, Itália e Japão), o presidente Getúlio Vargas determinou que tudo precisava ser o mais nacional possível. Falar alemão? Nem pensar! E o que dizer de um estabelecimento que levava na identificação um nome germânico? A saída foi trocar e, por um período, o Schmidt virou o Hotel Brasil.

No selo do então Hotel Brasil, que muitos hóspedes colavam nas malas, os principais serviços: ótimo serviço de cozinha, banhos quentes e frios, galpão para animais e autos, além de bom potreiro. Tudo isso, por ‘preços módicos’.

João Leo Gassen, que administrou o hotel por mais de 30 anos, guarda o selo da época que o Hotel Schmidt trocou de nome (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Família

Emílio Schmidt foi casado com Ottília Bencke, neta do primeiro imigrante de Centro Linha Brasil, Christian Henrich Bencke (que, de forma aportuguesada, dá nome à escola daquela localidade). O casal teve três filhos: Leocádia, Artur e Eni, todos falecidos. Ainda na década de 1920, o pai de Emílio – Pedro – , também se mudou para a cidade e construiu uma casa ao lado do primeiro hotel. Ela ainda existe e é o atual Celta Irish Pub. No alto da fachada, as iniciais indicam o primeiro dono: ‘P Sch’, de Pedro Schmidt.

Curiosidades

Além de comandar um hotel, Emílio Schmidt comprou um ônibus particular, que fazia a linha até a região serrana do estado, garantindo a logística de muitos dos hóspedes. Também comprou dois carros e foi um dos primeiros taxistas de Venâncio, junto com Herberto Henn e Alberto Klamt.

Nome influente na sociedade venâncio-airense, Emílio Schmidt foi um dos sócios beneméritos do Hospital São Sebastião Mártir, contribuindo para a ampliação da instituição, em 1937. O diploma está guardado com o genro, João Leo Gassen.

O vizinho de esquina, Avelino Klein, o qual se deparou com um governador perto de casa, recorda que, depois de cavalos e carroças, também chamava atenção carros com placas de outros países, como da Argentina. “O hotel era uma referência. Quem vinha de fora, parava nele.”

Emílio Schmidt, à esquerda, manteve o serviço de hospedaria durante 20 anos em uma casa menor, até construir um prédio novo, no início da década de 1940 (Foto: Arquivo pessoal)

A memória tem gosto

Há quem diga que memória tem ‘cheiro’ ou ‘sabor’ e, no caso do Hotel Schmidt, algumas lembranças remetem a essas sensações devido ao restaurante que atendia hóspedes e outros frequentadores.

Um dos saudosos é Avelino Klein, que lembra de Schmidt como um grande amigo e parceiro de negócios, já que o comércio dele fornecia alimentos para o restaurante. “O Schmidt teve uma das primeiras churrascarias e era incrível o movimento. Ao domingos, a fila contornava a quadra. Era uma comida muito saborosa.”

Durante mais de três décadas, quem comandou o espaço foi João Leo Gassen, hoje com 84 anos. Ele era genro de Emílio Schmidt e assumiu a gerência do hotel em 1970. Na cozinha, as responsáveis no início eram Ottília e a filha Eni (então esposa de Gassen). “Chegava a mais de 100 refeições ao meio-dia e também servia café da manhã e janta, de domingo a domingo”, destaca João Gassen.

Escadaria e demais estruturas do hotel são originais da época da construção (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Presente

O atual prédio chegou a ter 38 quartos, 54 camas e seis banheiros. Mas, há quase 10 anos, ninguém se hospedou mais nele. O local, que hoje pertence ao casal Janice e Julio Carvalho, está à venda. “Muita gente de fora ainda para e pergunta por hospedagem ou mesmo pelo restaurante”, conta Janice, que é neta de Emílio Schmidt.

São mais de 1,7 mil metros quadrados, a maior parte vazia, escura e silenciosa, mas com a estrutura original praticamente intacta. O material e o estilo das escadas, por exemplo, são semelhantes à escadaria do hospital e do antigo acesso ao segundo piso da Prefeitura.

Dos tempos de grande movimentação ao atual cenário, restaurante parou de funcionar antes mesmo do encerramento do serviço de hospedagem (Foto: Arquivo pessoal)

Dúvida

Com o serviço de hospedagem iniciado em 1921, não há certeza se Emílio Schmidt foi o pioneiro na hotelaria no centro de Venâncio Aires. Isso porque não se sabe exatamente o ano de funcionamento de outro hotel antigo, que ficava na rua Tiradentes, na quadra da Delegacia de Polícia. Segundo Nelson Becker, o pai, Raimundo, comprou esse prédio em 1943 e o transformou no Hotel Becker. Mas, se o local já oferecia hospedagem antes disso, fica a dúvida.

Impressões de repórter

A maior parte da história contada aqui é relato de João Leo Gassen. Além de gerenciar o Hotel Schmidt por 30 anos, é conhecido pelo trabalho na Prefeitura. Foi secretário de Agricultura no governo Celso Artus (1997-2000) e no último mandato de Almedo Dettenborn (2005-2008).

Natural da localidade de Trombudo, que na década de 1930 pertencia a Santa Cruz do Sul e hoje é Vale do Sol, recebeu o título de cidadão venâncio-airense em 2016. Município esse que ele ‘quase’ ajudou a comandar como vice-prefeito. Explico: em 1976, quando Ireneu Lenz concorreu a prefeito, fez mais votos que Alfredo Scherer e não foi eleito pela soma das legendas, Gassen concorria a vice na mesma chapa. Essa história foi contada pela Folha do Mate no último dia 14 e, por despretensão desta repórter, o nome de Gassen não foi mencionado.

Dias depois, na ideia de fazer uma matéria sobre o Hotel Schmidt, esse senhor surge como ‘primeira fonte’. Por coincidência ou não, foi a oportunidade de fazer uma espécie de ‘mea culpa’. João Leo Gassen me narrou tudo isso e que sorte a minha poder entrevistar mais uma pessoa que também é memória viva em Venâncio Aires.

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