Produtores, como Ivete Kappaun, esperam uma majoração no preço do leite. (Foto - Edemar Etges/Folha do Mate)

“Nos mais de 20 anos que fixamos residência aqui, enfrentamos três fortes estiagens. Essa, sem dúvida, é a que mais vem causando perdas nas nossas duas principais atividades e fontes de renda, que são o tabaco e o leite. As estiagens de 2005 e 2011 foram mais amenas”, afirma Ivete Kappaun, moradora de Linha Arroio Grande, ao avaliar os prejuízos provocados com a estiagem, desde o dia 4 de dezembro de 2019.

Ivete e o marido João contam, atualmente, com um total de 16 vacas em lactação que, em época de clima normal, produzem mais de 400 litros por dia. Hoje, há uma redução de três a quatro litros por vaca, ao dia. A situação tende a piorar se a chuva não normalizar, pois tanto as pastagens perenes quanto as de verão secaram completamente por causa da falta de umidade. Se chover logo, as pastagens rebrotam e elas são um complemento alimentar do plantel leiteiro, cujo trato principal é a silagem de milho e ração.

QUALIDADE

“Quando se fala da estiagem que acomete o estado e o município de Venâncio Aires, não se pode esquecer de falar dos prejuízos que vêm ocorrendo no milho destinado para silagem”, observa o engenheiro agrícola do escritório municipal da Emater/RS-Ascar, Diego Barden dos Santos. Ele acrescenta que o milho grão, a soja e o tabaco são culturas que conseguem ser mensuradas após o momento da colheita. “O milho silagem que normalmente o produtor colhe para o consumo de seus animais, acaba não tendo uma mensuração de sua perda devido à não venda deste produto e não contagem de produção especificamente.”

Santos destaca que efetuou alguns levantamentos no município e que em algumas propriedades as perdas chegam a 60% na silagem de milho. “Além da perda da silagem do milho do volume, há, também, uma perda de qualidade porque temos menor quantidade de grãos dentro desta silagem”, frisa. Além disso, continua Santos, o milho também está maturando em pontos diferentes do que normalmente ocorre. Nas lavouras que ainda têm espiga, muitas delas ainda não estão no ponto de colheita, porém, as palhas dos pés inteiros estão secas. Com isso, o produtor acaba se obrigando a colher este milho um pouco mais cedo e isto também diminui a qualidade da silagem. “O resultado desta baixa qualidade somente será percebida no momento em que os produtores de leite e os de gado de corte forem tratar os seus animais e esta produção somente vai ocorrer daqui a seis, oito meses, quando eles forem abrir os silos para tratarem os seus rebanhos.


“A perda da qualidade do milho e da própria silagem é mais uma situação complicada que está ocorrendo na nossa região.”

DIEGO BARDEN DOS SANTOS – Engenheiro agrícola do escritório municipal da Emater/RS-Ascar


PREÇO 

Com a estiagem, está ocorrendo uma acentuada redução na produção e oferta de leite. Com isso, o produtor tem a expectativa de um aumento no preço recebido pelo litro. No mês passado, Kappaun registrou um incremento de R$ 0,10 por litro.

DICAS

  • Antes de fazerem a silagem, o engenheiro agrícola Diego Barden dos Santos recomenda que os produtores procurem mensurar, ou seja, jogar o volume que foi produzido neste momento para o consumo o ano inteiro. Segundo ele, o produtor precisa perceber se terá alimento suficiente para os animais para passar o ano todo com comida suficiente.
  • Do contrário, observa Santos, a melhor estratégia é, ou diminuir a quantidade de animais ou adquirir/comprar os alimentos de outro lugar para fazer a complementação, e ao longo do ano, já irem usando para diminuir esta perda de volume de produto para tratar os animais.
  • Outra dica importante como prevenção para os próximos anos se acaso ocorrer estiagem, é o produtor aumentar a quantidade da área com pastagens permanentes, pois elas não precisam ser plantadas todos os anos.
  • Segundo Santos, são diversas as vantagens com as pastagens permanentes, ou seja: não precisam ser plantadas todos os anos; para a entrada dos animais e o ponto de corte há uma antecipação de dois a três meses para aproveitar este alimento; há um rendimento por área muito maior. Em uma situação de estiagem, como agora, nas pastagens que estão implantadas há mais tempo, o enraizamento é melhor e maior. Além disso, as plantas não sofrem tanto com atual situação de falta de chuva.

Pastagens perenes e anuais de verão também registram perdas

Além das perdas com o volume, quantidade e a qualidade do milho para silagem e da própria silagem, também estão sendo registradas perdas das pastagens permanentes de verão e anuais de verão. Elas são utilizadas como complemento na alimentação dos rebanhos leiteiros e de corte.

Santos explica que as duas tiveram perdas um pouco diferentes. As permanentes, que já estão plantadas, não sofreram tanto quanto as anuais. “As permanentes tiveram o problema da entrada do gado no momento atual, e com isso, não está tendo a capacidade de rebrote normal”, observa. O melhor, agora, segundo Santos, não é deixar os animais terem acesso a estas pastagens enquanto elas não estiverem em condições ideais para estes poderem consumi-las, pois do contrário, haverá uma perda maior ainda. “Poderemos ter morte de plantas, e consequentemente, redução da produção.”

Santos reforça que as pastagens anuais sofrem um pouco mais pois, como são plantadas anualmente, o produtor já deve ter efetuado o preparo do solo, a semeadura das sementes, e elas nasceram, porém, encontraram no fim do último ano, um período sem chuva e isto ocasiona o mau desenvolvimento das plantas. No caso das anuais, como foram recentemente plantadas, muitas delas – quando os animais foram para cima destes pastos para comerem – tiveram todo o pé arrancado ou o animal comeu ela muito baixa e, com isso, não terão capacidade de rebrote.

Comendo elas muito baixas, a quantidade de água que fica interna na planta, consequentemente, ela é menor e vai ter a possibilidade de rebrotar. Ela poderia rebrotar se houvesse uma boa chuva, porém, como isto não está ocorrendo, muitas pastagens de verão foram severamente comprometidas, provocando um sério prejuízo para o verão, mesmo que volte a chover. “E aí é que está a gravidade de nosso problema, pois não temos muito tempo hábil para replantar estes pastos. Se não plantarmos eles agora, estaremos passando o verão e precisaremos plantar as culturas de inverno”, acentua.

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