Alexandro já é formado no Ensino Médio em braille e já fez dois cursos profissionalizantes (Foto: Eduarda Wenzel)

Vencer obstáculos é o lema de Alexandro Hertz, 38 anos, que nasceu com deficiência visual. Natural de Venâncio Aires, ele passou grande parte da vida no interior de Mariante. Alfabetizado em braile, atualmente, mora no bairro Bela Vista e, aos poucos, conquistou a independência que muitas pessoas diziam que não era possível.

A deficiência de Hertz é uma má formação no nervo óptico. Assim como ele, a irmã também nasceu com o mesmo problema de visão. Ele lembra que, quando criança, tinha o sonho de enxergar e mesmo com laudo de um médico local, chegou a ir ao Hospital Banco dos Olhos, de Porto Alegre, para tentar realizar o desejo. “Fomos no Banco de Olhos, porque eu tinha esperança. Quando falaram que realmente não tinha como, eu perdi meu chão”, lamenta.

Mesmo com todas as pessoas falando que ele não conseguiria estudar, aos 7 anos, ele foi para a escola. Apesar da vontade de aprender, não conseguiu frequentar o ensino regular. Quando completou a maioridade, foi para a Escola Estadual do Ensino Médio Monte das Tabocas, onde tinha aula em braile, porém enfrentou dificuldades para se locomover. “Tive que lutar para conseguir passagem, porque não tinha condições de pagar. Então eu vinha duas vezes na semana para a cidade estudar.”

Depois que passou para o Ensino Médio precisou estudar à noite, na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Outro desafio era conseguir um lugar para dormir, pois não havia transporte para Mariante depois da aula. “Tinha duas casas que eu podia ficar, isso me ajudava muito, foram pessoas especiais que me ajudaram”, comenta. Depois de formado, fez curso de técnico em Administração no Senai e de massoterapia no Instituto Mix. “Ser alfabetizado e terminar o Ensino Médio foi um sonho realizado.”

Entre os momentos marcantes de sua vida, ele cita um que foi desagradável. Em um dia de chuva, recebeu ajuda de um homem para atravessar a rua, como é comum, depois o cara se dispôs a ajudar ele nas atividades. No entanto, o indivíduo se aproveitou da deficiência de Hertz, guiou ele até um matagal, assaltou-o e bateu nele. “Foi revoltante, ele colocou um canivete em mim, pegou dinheiro e meu celular. Depois me deu alguns socos e me deixou no mato”, lamenta.


“Não é porque eu tenho deficiência que não vou conseguir fazer as coisas. Eu não sou melhor e nem pior que ninguém.”

ALEXANDRO HERTZ – Deficiente visual


A bengala é a grande companheira de Alexandro, com essa ajuda ele consegue fazer as atividades sozinho (Foto: Eduarda Wenzel)

AUTONOMIA 

Em 2016, Hertz realizou o sonho de ter um apartamento e morar sozinho. Comprou os móveis, se mudou para fazer um teste e logo se adaptou. “Aprendi a cozinhar, limpar a casa e me virar. Tive muita ajuda de amigos que também são deficientes visuais”, conta.

Usar o transporte público sozinho também foi uma conquista. “No início, pedia ajuda para ir até a parada, mas depois aprendi ir sozinho.” Ele decorou o percurso do ônibus e, conforme o barulho, cuida a parada que precisa descer. “Sei quando entra na rua Júlio de Castilhos, porque muda o chão. Daí conto as paradas, ou quando não para, cuido os minutos que dá para descer”, detalha.

No centro, Alexandro se vira para ir em todos os lugares. Sabe ir ao mercado, a lojas e à prefeitura, tudo com a ajuda da bengala. “Há uns 5 anos, um amigo que também não enxerga, me ensinou como usar a bengala. E isso é uma das maiores conquistas, porque é o que me ajuda”, explica, orgulhoso.

Com WhatsApp e Facebook, o celular também ajuda ele a se comunicar. “Tenho um aplicativo que, tanto o celular como o computador, me fala tudo. Isso facilita.” Além disso, ele conta com um relógio que também informa a hora por áudio.

IMPRESSÕES DE REPÓRTER

Tive o prazer de guiar Alexandro na tarde de quarta-feira, 19, quando realizamos a entrevista. Ele queria ir até uma loja no centro. No caminho, encontramos e discutimos sobre algumas dificuldades. Em uma das calçadas, o piso tátil, que serve para ajudar a guiar os deficientes visuais, terminava embaixo de um parquímetro, algo que arrisca os deficientes a baterem no objeto. Antes mesmo de chegar ao destino, ele já sabia que estava próximo da loja. Assim, finalizei a entrevista tendo certeza que ele é inteligente e dedicado.

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