Túmulo da 'menina milagrosa' é mantido por moradores das Linhas Castelhano e Chafariz (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Foi há mais de 300 anos que Domingos, João e Filipe ‘pescaram’, das águas do rio Paraíba, no interior de São Paulo, uma pequena escultura. Primeiro apareceu o corpo, depois as redes trouxeram a cabeça. Era a figura de uma mulher, com as mãos unidas em oração. Para o trio de pescadores, era a própria Virgem Maria, que naquele outubro de 1717 encheu o seu barco de peixes.

Logo depois e nos séculos seguintes, a devoção em torno dessa imagem só cresceu, sendo a ela atribuídos vários milagres, com a história reconhecida pelo Vaticano. Nasceu, assim, para os católicos, Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil.

Guardadas as devidas proporções e sem ousar nenhuma comparação gratuita, fato é que Venâncio Aires também guarda uma história que envolve pescadores, um rio e, dizem alguns, uma ‘santinha’. Trata-se daquela que ficou conhecida como ‘menina milagrosa’, enterrada há mais de 70 anos na barranca do Taquari e que mexe com a fé de moradores da região de Mariante.

“O que se pede, alcança”, define Lucila Lopes da Silva, 75 anos. Moradora há quatro décadas de Linha Castelhano, ela disse que já perdeu as contas de quantas vezes fez pedidos a Deus através da menina. As promessas de Lucila foram por vários motivos, como pela própria saúde, nas vezes que ‘ficou ruim’ dos rins e precisou operar a catarata. “Nunca mais precisei ir no médico.” Mas também por amigos e familiares, quando nas orações pediu que conhecidas conseguissem emprego e até que o filho, finalmente, fosse aprovado na carteira de habilitação.

Lucila sabe que não são exatamente ‘milagres’, mas para ela são pedidos atendidos e que foram importantes naqueles momentos. Como há alguns anos, quando a família enfrentou dificuldades financeiras. A aposentada lembra das vacas engordando no galpão, mas ninguém queria comprá-las. Em uma manhã, foi ao túmulo da menina, levou um ramalhete de flores e rezou. Na mesma tarde, um homem desconhecido apareceu na sua casa e comprou as vacas.

Mas, antes da propagação dessa devoção popular, existiu uma criança de carne e osso. Quem ela foi ou de quem era filha, nada se sabe. Também não há registros oficiais. Por isso, com base no relato e na memória de algumas pessoas, a Folha do Mate tenta resgatar essa breve história de vida, cuja influência segue até hoje naquela comunidade.

Um bebê dentro de uma gamela

É próximo de onde o arroio Castelhano desemboca no rio Taquari, que a criança foi enterrada (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

O ano é um mistério, mas dos que arriscam uma data, o palpite leva ao início da década de 1940. Eram tempos de movimentação intensa no rio Taquari, nas proximidades do porto de Mariante.

Dezenas de barcos cargueiros e de pescadores se cruzavam diariamente pela água. Em um deles, trabalhava Cecino do Couto, com cerca de 30 anos na época. Acompanhado de um pescador, que era conhecido apenas como Cazuza e o qual o nome verdadeiro foi esquecido com o passar dos anos, eles levavam madeira e alimentos para Porto Alegre.

Certo dia, quando as águas andavam calmas, os olhos deles alcançaram algo boiando no rio. Os barqueiros se aproximaram e viram que, dentro de uma gamela, havia um bebê recém-nascido. A certeza da idade da criança é porque ela ainda estava com o cordão umbilical.

Cecino, com a mulher Alípia e os três netos, na década de 1980. Foi ele quem encontrou o corpo da menina (Foto: Arquivo pessoal)

Cecino e Cazuza recolheram aquela gamela e constataram que era uma menina, de cor branca, mas já sem vida. Rapidamente, foram para a margem e a levaram até Rodolfo Roberto Schroeder, proprietário de terras nas proximidades. Esse senhor, então, com ajuda de Cazuza, enterrou a criança, na divisa de Linha Chafariz com Linha Castelhano. É neste local, há cerca de 30 metros do Taquari e entre os arroios Chafariz e Castelhano, que a menina repousa há mais de 70 anos.

“Meu pai me contava essa história quando eu era criança”, recorda José Silvio do Couto, 71 anos, filho do Cecino. Ele diz que, desde que se conhece por gente, as pessoas vão até o túmulo para fazer promessas e tudo sempre aconteceu. “A fé move montanhas, né?”

A esposa dele, Marlene Ana Alves, 65 anos, também teve um pedido atendido. A promessa foi pela saúde da neta, que sofria de convulsões. “Ela fez o exame e deu bom. Graças a Deus.”

Mario dos Santos Martins, 69 anos, cresceu ouvindo muitos relatos. Natural de Linha Taquari Mirim, ele costumava visitar seu tio Amaro, que morava em Linha Castelhano. “Acharam uma criança morta no rio. Então tudo mundo começou a dizer que era uma santinha. Por isso acho que a crença do povo se espalhou”, arrisca Martins.

BATISMO

Quando a menina foi enterrada, não recebeu exatamente um túmulo, nem a despedida religiosa como convinham os enterros. Nos dias seguintes, o que se conta é que alguns moradores próximos ouviram o choro de uma criança.

O povo, então, entendeu que a criança precisava ser batizada. “Dizem que a criança que não é batizada, chora”, comenta José Silvio do Couto. Assim, foi providenciada a vinda de um padre, que fez o batismo nos ‘conformes’. O que também se comenta, é que naquele dia a menina recebeu o nome de Maria. O registro disso não está em papéis, apenas na confiança das pessoas no que ‘ouviram dizer’.

O pedido de uma amiga

Iracema, à esquerda, fez uma promessa pela saúde da amiga, Véra (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

Faz seis anos que Véra Lúcia Wagner, 60 anos, conheceu a história contada em Linha Chafariz. Em 2013, a professora aposentada, moradora de Picada Mariante, passou por uma cirurgia. Além da assistência médica, Véra nem sabia, mas estava contando com a suposta ‘força’ da menina milagrosa. Isso porque uma amiga dela, a agricultora Iracema Martins, 46 anos, fez uma promessa. “Não falei nada pra Véra. Só dizia pra ela ter fé que ficaria boa”, conta Iracema.

Passada a cirurgia e o retorno pleno da saúde, chegou a hora de retribuir. “A Iracema veio me dizer que eu precisava levar flores no túmulo, por causa da promessa que ela tinha feito para mim. Então fomos juntas”, recorda Véra.

Assim como o pedido pela amiga, Iracema já fez muita promessa para a ‘menina milagrosa’. Criada na Linha Castelhano, sempre ouviu os relatos de moradores e, desde criança, ia no dia de Finados visitar o túmulo. “Vi tanto pedido se realizar, que não tem como não acreditar. Eu acredito nela e tenho fé. Se tu acredita em Deus, impossível não dar certo”, afirma.

Quando a enchente se aproxima, Lucila ‘guarda’ os objetos que estão sobre o túmulo para a água não levar embora (Foto: Débora Kist/Folha do Mate)

TÚMULO

Durante décadas, a menina não teve um túmulo. Quando foi enterrada, apenas uma laje indicava o local. Lucila Lopes da Silva conta que familiares de Rodolfo Roberto Schroeder, que moram em Porto Alegre, enviaram dinheiro para a construção de uma sepultura.

Com o recurso, foi feita uma estrutura bem maior do que geralmente são os túmulos para crianças. O revestimento é com azulejos, para facilitar a limpeza. Ao pé dela, aliás, há uma ‘casinha’ com panos e água sanitária para visitantes que quiserem contribuir e manter o lugar limpo.

Sobre o túmulo, há uma pequena gruta (doada por moradores) e, dentro dela, as imagens de Nossas Senhoras do Rosário e Aparecida, além da estátua de um anjo. Também há vasos de flores, seja de plástico ou naturais. Chama atenção alguns objetos deixados no local, como brinquedos, mamadeiras e até chupetas. Ou são promessas ‘pagas’ ou apenas presentes para a menina.

Com o rio Taquari e dois arroios passando próximos, a região tradicionalmente sofre com enchentes. Quando a água se aproxima da barranca, Lucila vai até o túmulo, recolhe a gruta e os demais itens e os guarda no alto de um paiol de milho, para que nada se perca na cheia.

ORAÇÃO

• Quem foi testemunha daqueles tempos é Pedrolina da Fonseca Coutinho, que faleceu em março de 2019, aos 102 anos. Natural de Linha Chafariz e onde morou durante décadas, ela costumava relatar inúmeros ‘causos’ da região ribeirinha.

• A história em torno da ‘menina milagrosa’ era uma delas. Foi assim que Estela Maris de Freitas, 52 anos, ficou sabendo do que teria acontecido.

• A funcionária pública conta que dona Pedrolina, que durante anos foi ministra na comunidade São Cristóvão, falava muito sobre o fato. “Eram feitas promessas, principalmente para crianças que ficavam doentes. Ela ia lá e rezava muito, sempre com uma oração relacionada a Santa Terezinha das Rosas.”

Sobre o que move a fé e a devoção

Para o padre Rodrigo Hillesheim, pároco da comunidade católica de Venâncio Aires, essa devoção popular que ocorre naquela localidade pode ser entendido como um movimento de oração comum, o mesmo que acontece com qualquer pessoa que reza por falecidos.

Quanto às promessas e pedidos, Hillesheim entende que ela deve estar ligada a Deus, para ser fé autêntica. A menina, seria assim, “um meio para obter de Deus as graças”. “Tudo está relacionado à sensibilidade da fé das pessoas que buscam proteção, consolo e graças para a sua vida.”

Já para a historiadora Angelita da Rosa, cientificamente não se prova nada, mas essas devoções populares estão vinculadas, geralmente, a uma promessa de salvação imediata ou uma doutrinação das pessoas. “Elas se agrupam e acham que algo muito especial acontece ali. É como um desejo comunitário, de uma comunidade que se une em torno de algumas pessoas e que nelas, então, colocam sua fé e devoção.”

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