Era para ser apenas um tempo. Dois anos, três talvez. Mas a passagem de Maria Beatriz Londero Madeira por Venâncio Aires durou muito mais do que isso. Durou tanto, que rendeu participação ativa na criação de entidades assistenciais e na resolução de milhares de processos. Mas rendeu também a criação dos filhos, a construção da casa própria e as amizades.

Durante 23 dos seus 57 anos, a juíza porto-alegrense que é, de fato, venâncio-airense, disse que não será uma mudança definitiva. A magistrada se despede momentaneamente da Capital Nacional do Chimarrão para atuar na 2ª Relatoria da 1ª Turma Recursal da Fazenda Pública da Comarca de Porto Alegre. Na prática, trata-se de uma promoção à entrância final da carreira.

Antes de ir embora, Maria Beatriz reservou os últimos dias para ‘arrumar gavetas’ e deixar tudo encaminhado, claro, mas também para lembrar do que passou e do que fica. Lembrar de novembro de 1995, quando decidiu vir para Venâncio Aires. “Fiquei dois anos em Santa Vitória do Palmar e aí surgiu a oportunidade da 2ª Vara daqui. Sempre tive boas referências, é uma cidade próxima de Porto Alegre. As coisas foram andando e fui ficando”, lembra.

E ela ficou. O marido, Luís Gustavo Madeira, advogado e professor universitário, nunca saiu de Porto Alegre. A rotina e o ritmo de trabalho impediram que ele viesse com a mulher. Os filhos, Brenda, 24 anos, e Gabriel, 22, até nasceram na capital, mas cresceram em Venâncio Aires. “A vida toda deles foi aqui. Eles não conhecem outra cidade. Venâncio é a terra deles.”

Terra essa que também virou a dela, no papel e tudo. Em 2004, por proposição da então vereadora Marly Trindade, Maria Beatriz Londero Madeira recebeu o título de cidadã venâncio-airense.

Foto: Alvaro Pegoraro / Folha do MateApegada à cidade e ao trabalho, a juíza diz que por trás das pilhas de processos para julgar, estão as angústias das pessoas que precisam de resolução
Apegada à cidade e ao trabalho, a juíza diz que por trás das pilhas de processos para julgar, estão as angústias das pessoas que precisam de resolução

ORGULHO E GRATIDÃO

Em mais de 20 anos, Maria Beatriz diz que não foi apenas um período para julgar processos, mas de realmente tentar resolver os problemas das pessoas. “Sempre tive várias preocupações e elas não eram apenas um amontoado de papéis. Aquelas pilhas de processos na nossa mesa são as angústias e pretensões das pessoas.”

A juíza destacou ainda a função do judiciário. “O juiz não é mero apreciador. É exigência que ele seja também um agente de transformação social. As pessoas têm que sair daqui com a situação resolvida e não apenas com o processo julgado.”

Sobre orgulho ou frustrações, ela disse que lamenta não ter feito mais. “A gente sempre quer fazer mais, mas às vezes não conseguimos tudo. Por isso, só tenho a agradecer. Gratidão porque não foi um trabalho isolado. Servidores, assessores, oficiais e advogados. Se não fossem por eles, nada seria possível.”

Durante esse período, Maria Beatriz também atuou como juíza eleitoral, sempre no pleito municipal. A exceção foi 2018, nas eleições gerais.

VOLTA?

A relação de Maria Beatriz com Venâncio não termina a partir desta quarta-feira, 6, data da ida a Porto Alegre. Com casa e fortes vínculos construídos aqui, a juíza diz que se trata apenas de um ‘até logo’. “Venâncio também é meu lar. Acho que depois da aposentadoria eu volto e fico por aqui.”

TRABALHO SOCIAL

Sob o guarda-chuva da 2ª Vara da Comarca de Venâncio, o Juizado da Infância e Juventude também foi responsabilidade de Maria Beatriz Londero Madeia. Além de julgar processos, a atuação dela foi determinante para a implementação de entidades assistenciais importantes no município.

A Casa de Passagem, a ONG Parceiros da Esperança (Paresp) e o Posto de Atendimento à Mulher (PAM), que funciona junto à Delegacia de Polícia de Venâncio, são algumas das entidades as quais ela ajudou a tornar realidade.

Modesta, a juíza resumiu apenas ‘que reuniu as pessoas’ e o trabalho foi feito pela comunidade. “Venâncio tem gente empreendedora e parceira. É gente engajada e comprometida com o social. Todas as conquistas são méritos da comunidade, da polícia, da imprensa e do Poder Público, que sempre foram parceiros.”

“Ela é líder e motivadora”

Se a juíza diz que só tem a agradecer a cidade que lhe acolheu, entidades e pessoas com as quais ela trabalhou também destacaram seu ‘muito obrigado’. Entre elas, Sara da Rosa, coordenadora e uma das fundadoras da ONG Parceiros da Esperança, que atualmente atende 120 crianças e adolescentes. “A doutora Maria Beatriz foi uma impulsionadora desde que pensamos em criar a ONG. Nesses mais de 13 anos, ela foi presença constante, uma motivadora e defensora. Seremos eternamente gratos, porque ela sempre foi prestativa e empenhada. Ela marcou a vida de muita gente na Paresp.”

Quem também falou em tom de ‘vai deixar saudade’ foi a assessora do judiciário, Caroline Gauer. Segundo ela, a juíza sempre se envolveu diretamente nos casos. “Ela sabia o nome de cada um, de cada criança. Chegava a pegar o próprio carro para resolver uma situação. As audiências com a doutora são verdadeiras aulas de educação. Trabalho nisso há 10 anos, mas com certeza esse um ano ao lado dela foi o melhor. Ela é uma líder.”

Foto: Cristiano Wildner / Folha do MateEm dezembro, Maria Beatriz foi homenageada pelo coral da Paresp
Em dezembro, Maria Beatriz foi homenageada pelo coral da Paresp

Indefinição

Com a saída de Maria Beatriz, fica agora a expectativa sobre quem irá assumir a 2ª Vara Judicial em Venâncio Aires. Segundo a juíza, isso ainda não está definido, mas o edital deve ser aberto em março. “Isso precisa ser agilizado, porque a cidade não pode ficar sem. Há muita demanda”, destacou a magistrada. No total, a Comarca local tem cerca de 28 mil processos em andamento.