Allan Kardec Nunes Bichinho com os integrantes do Coral da Paresp/CTA, entidade que ele e a empresa ajudam a manter (Foto: Divulgação)

Das 100 maiores empresas de Venâncio Aires, 36 são indústrias. De acordo com dados da Secretaria Municipal da Fazenda, o setor é o que mais cresceu na última década – um percentual de 13%. Hoje, a indústria responde por 61% da economia da Capital Nacional do Chimarrão e, segundo o titular da pasta, Eleno Stertz, “sem a indústria, a cidade quebra”. Stertz argumenta também que boa parte do comércio, da agricultura e da prestação de serviços gira em torno do setor industrial, conferindo-lhe um papel de ‘garantidor’ da economia e do desenvolvimento do município e dos seus mais de 70 mil habitantes. São 139 indústrias registradas em Venâncio Aires, segundo informações da Secretaria Municipal da Fazenda.

No topo desta pirâmide estão as indústrias de tabaco, que exportam anualmente centenas de milhões de quilos do produto, empregam milhares de pessoas e têm atuação econômica e social fundamental na comunidade. “Temos em Venâncio 17 indústrias tabacaleiras. Em relação ao número de empresas da cidade, que é de 1.458, elas representam pouco mais de 1%. Contudo, são responsáveis por mais de 50% do PIB do município. Muitas outras empresas existem por conta do nosso setor industrial”, destaca Stertz.

GIGANTE

A maior delas, responsável por quase 17% do Valor Adicionado Fiscal (VAF) de Venâncio Aires, é a CTA-Continental Tobaccos Alliance S/A, que em junho de 2019 completou 25 anos. Atualmente, de acordo com o CEO da indústria, Allan Kardec Nunes Bichinho, o faturamento anual chega a R$ 700 milhões, riqueza gerada a partir da exportação de 56 milhões de quilos do produto. “Já chegamos a produzir mais de 90 milhões de quilos em um ano. Temos 12 mil produtores vinculados”, contabiliza.

Da indústria instalada às margens da RSC-453 – rodovia que liga Venâncio Aires a Lajeado, no Vale do Rio Pardo -, o tabaco beneficiado segue até o Porto de Rio Grande, na região Sul, e é embarcado, segundo Bichinho, “para o mundo todo”. O mercado asiático é o maior comprador. “O país onde se fuma mais é a China. No Japão também há muitos consumidores”, comenta. Para manter esta gigante em pleno funcionamento, no auge da safra são cerca de 2,1 mil funcionários, muitos deles vindos de fora da Capital do Chimarrão.


“Nosso trabalho é desenvolvido levando em consideração o serviço, a qualidade e o preço competitivo. E, acima deste tripé, está a responsabilidade social.”

ALLAN KARDEC NUNES BICHINHO – CEO da CTA-Continental Tobaccos Alliance S/A


Ações sociais que deixam fortes marcas

A relação de Allan Kardec Nunes Bichinho com Venâncio Aires iniciou há mais de 50 anos, quando era um acadêmico de Ciências Econômicas & Contábeis na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre. Natural de São Leopoldo, na Região Metropolitana, Bichinho viu um cartaz no mural da universidade. “Era uma vaga para contador da Fumossul, uma grande empresa do setor tabacaleiro. Me candidatei e, uma semana depois, estava trabalhando. No começo, fiquei em Porto Alegre mesmo. Depois de formado, acabei em Venâncio, como terceiro contador da empresa”, recorda.

As saídas de dois colegas do setor rendeu a Bichinho o posto de contador-geral da Fumossul, cargo que ocupou durante sete anos, até ser promovido a diretor. Quando a indústria foi vendida, ele já era o presidente. Em 1994, estava de malas prontas para deixar Venâncio, mas algo o levou a fazer uma aposta: fundar a CTA. Iniciou “pequeno”, como ele mesmo diz, com 1,4 mil toneladas de tabaco por ano, em paralelo a atividades com café e detergentes. Entretanto, o progresso veio a galope, levando a indústria ao topo do setor.

Durante a trajetória na comunidade venâncio-airense, Bichinho e a CTA têm deixado fortes marcas a partir de ações sociais. Ele se orgulha, por exemplo, de ter contribuído para reformas no Hospital São Sebastião Mártir (HSSM) e por disponibilizar à casa de saúde o medicamento Metalyse, que é utilizado em tratamentos trombolíticos (dissoluções de coágulos) em episódios de infarto agudo do miocárdio. “É um medicamento utilizado em casos de ataques cardíacos, coisa que eu não desejo a ninguém, mas que a gente sabe que acontece bastante. Cada ampola custa entre R$ 4 mil e R$ 5 mil e dura só seis meses. Já salvamos umas 300 pessoas, pois o Metalyse garante estabilidade do paciente de seis a sete horas para o atendimento”, esclarece.

ONG PARESP

Contudo, a grande paixão do CEO da CTA tem nome e, hoje, endereço próprio: Organização Não Governamental (ONG) Parceiros da Esperança (Paresp). Bichinho conheceu o trabalho e, há muitos anos, é o responsável direto pela manutenção das atividades da entidade. Quando a Paresp iria ficar sem teto, liderou um grupo de empresários na construção de uma sede, na rua Pedro Grünhauser, no bairro Morsch. Em 2015, iniciou a construção de um ginásio. Obra concluída em 2018, com parte térrea, paredes e cobertura. “É a nossa forma de dizer obrigado a Venâncio Aires, por ter acolhido a CTA”, define o industrial.

Diretora da Paresp, Sara da Rosa é enfática ao falar sobre o apoiador: “É nosso pai, nosso ponto de referência. Estamos com 14 anos de atividades e, até hoje, a alimentação é garantida por ele. Foi a pessoa que acreditou no nosso trabalho, que atualmente beneficia 120 crianças carentes”, comenta, acrescentando que a nutricionista da CTA é também responsável pelo cardápio da ONG. “Só posso dizer que ele é um ser iluminado, que jamais negou alguma coisa pra gente e que é tão carismático e desprovido de vaidade que não quer divulgação das suas ações”, diz Sara. Atividades pedagógicas, esportivas e culturais colaboram para o desenvolvimento das crianças atendidas.


“O apoio do doutor Allan Kardec e da CTA é fundamental para que tenhamos condições de tirar muitas crianças do marasmo da vida e preparar gerações para o futuro. Já passaram por aqui mais de 1,7 mil pessoas, que hoje são pais de família e exemplos de cidadãos.”

SARA DA ROSA – Diretora da ONG Paresp


Valorização interna, segurança inspiração pelo exemplo

Janaína e Luciane, funcionárias da CTA, com as filhas Bianca e Júlia, que são atendidas na escola da educação infantil da empresa (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Luciane Luisa Meurer, de 38 anos, está há 20 na CTA. Iniciou na carteira agrícola, e há sete anos trabalha no setor de contabilidade. Tem duas filhas – Isabela, de 5 anos, e Júlia, de 1 ano e 5 meses – fruto do relacionamento com Luís Renato Cruz Erpen, de 43 anos, que atua na área de tecnologia da informação da CTA. Sim, foi na empresa que os dois se conheceram e é lá que a família fica a maior parte do tempo, com exceção de Isabela, que já passou da idade de frequentar a escola de educação infantil da empresa. “Como TI, ele atendia os setores, daí tínhamos um grupo que saía eventualmente pra um happy hour e acabamos nos relacionando. Em outubro completamos dez anos”, relata.

Ela se diz realizada profissionalmente e segura em relação à família. “Até pouco tempo, vínhamos todos para a CTA. A Isabela foi para uma escola, mas a Júlia continua aqui”, comenta, em referência ao atendimento que a filha mais nova recebe na escola de educação infantil da empresa. “Como mãe a gente gosta de estar o mais perto possível, pois isso tranquiliza. Sem contar que os professores são também funcionários e conseguimos ter um contato mais estreito. Facilita para todo mundo”, avalia. Luciane também ressalta as oportunidades recebidas na empresa, já que foi graças à prioridade para o recrutamento interno que subiu degraus no organograma. “Foi aqui que me encontrei na profissão. Sou muito grata à CTA e amo o que faço”, declara.

PLANOS

Janaína Inês Brandt, de 29 anos, trabalha há dois na tabacaleira. Está no controle de qualidade, onde coleta o fumo e analisa para garantir que o produto seja encaminhado ao cliente exatamente como ele espera. “Também precisamos ter atenção aos pesos”, explica. Foi ouvindo amigos dizerem que a CTA era um bom lugar para trabalhar que ela decidiu buscar uma vaga na indústria. Hoje, diz que é “feliz, segura e cheia de planos”. Janaína quer cursar Técnico em Administração ou Enfermagem, duas áreas em que pode atuar na empresa. “Temos vários exemplos de crescimento profissional que servem de inspiração. As oportunidades existem, então precisamos estar preparados quando chegar a nossa vez”, diz. Para o trabalho, vai com ela, todos os dias, a filha Bianca, de 3 anos, que também é atendida na escola de educação infantil. “A CTA é a minha segunda casa”, conclui.

Só pela 20ª safra

Clarici Ruppenthal é revisora na CTA e afirma que, enquanto trabalha, também se diverte (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Clarici Ruppenthal, de 59 anos, é só felicidade quando está trabalhando. Ela é revisora de mesa de blend na CTA há 19 anos e garante que não vê a hora de começar a 20ª safra. Está entre as primeiras pessoas a serem contratadas e últimas dispensadas. “Normalmente sou chamada em fevereiro e saio quase em setembro”, comenta a safrista. Na indústria, segundo ela, ganhou muitas amizades. “Tem aqui a turma do chimarrão e também temos o nosso momento de almoço, que mais parece uma festa de casamento, de tanta gente, todos os dias”, brinca. Clarici garante que os seis meses de trabalho na empresa são suficientes durante o ano. “Já organizei a minha vida dessa maneira. Antes da CTA eu morava na colônia, depois me mudei para a cidade e consegui me adaptar bem à sazonalidade”, afirma.


“Me sinto bem aqui. Ao mesmo tempo que trabalho, me divirto. Enquanto Deus me der saúde, é o que eu quero fazer.”

CLARICI RUPPENTHAL – Safrista


Marcelo Campos, da Metalúrgica Venâncio, defende que a inovação e a abertura de novos negócios é o antídoto para as dificuldades (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

Inovação e qualidade para manter a competitividade

Por influência do pai, Guaraci Alberto Campos – ex-diretor da Venax Eletrodomésticos -, Marcelo Campos, hoje com 60 anos, escolheu a metalurgia como caminho para o empreendedorismo. Há 28 anos, começou a produzir e comercializar fogões à lenha no Rio Grande do Sul e na Argentina. O crescimento da empresa, segundo ele, “foi precoce” e houve a necessidade de acompanhamento do mercado, o que levou a Metalúrgica Venâncio a ampliar sua linha de produtos. Em pouco tempo, as estufas de aquecimento (buffets), chapas, fritadoras, fornos amassadeiras e armários faziam parte do portfólio da empresa.

Aquecedores de ambientes, máquinas de gelo e bebedouros, entre outros itens, foram se integrando à diversidade de produtos oferecidos, bem como os mercados se ampliaram – as exportações, hoje, são para toda a América do Sul, América Central, Estados Unidos e África, especialmente. O ciclo virtuoso elevou a indústria ao posto de maior representante do setor metalmecânico de Venâncio Aires e quarta maior do município em Valor Adicionado Fiscal (VAF), atrás de três indústrias do setor tabacaleiro.

Atualmente, são 720 funcionários – já foram 980 – responsáveis pelos processos de produção para os ramos de gastronomia e panificação. “Nestas quase três décadas, enfrentamos dificuldades de todos os tipos. Nos orgulhamos de sempre buscarmos a saída dos problemas pela inovação e qualidade do que oferecemos ao mercado”, avalia o diretor. Investimento constante em maquinário e treinamento e valorização dos recursos humanos, conforme Campos, são prioridades para quem quer se manter em condição de competitividade. “Em 2019, os investimentos em automatização já somam quase R$ 15 milhões”, revela. São 33 colaboradores da Metalúrgica Venâncio que cursam graduação ou pós-graduação com algum incentivo da empresa.


“Investir no Rio Grande do Sul é quase uma teimosia, tanto pela questão logística quanto pela elevada carga tributária. No entanto, nossa proposta é seguir abrindo mercados e frentes de negócios, pois só a constante inovação pode garantir competitividade.”

MARCELO CAMPOS – Diretor da Metalúrgica Venâncio


Projeto Haiti: do caos ao acolhimento

Empresa bancou passagens aéreas, ônibus, alojamento e alimentação para o primeiro grupo de refugiados em 2013 (Foto: Divulgação)

Em 2013, cinco anos após a pacificação do Haiti por tropas brasileiras, registros de confrontos entre gangues e militares voltaram a ser realidade. O medo se tornou novamente uma companhia diária dos haitianos, e muitos decidiram deixar o país em busca de segurança e trabalho para o provimento de suas famílias. O primeiro destino de quem saía do caos – três anos antes, em 2010, um terremoto devastou o Haiti – era Manaus, no Amazonas. Lá, os refugiados esperavam por oportunidades para a sequência da ‘viagem’.

Diretor da Metalúrgica Venâncio, Marcelo Campos acompanhava pela televisão as notícias sobre as vítimas da fome, da violência e de catástrofes naturais. Com espaço para absorção de mão de obra e decidido a contribuir com o acolhimento dos haitianos, resolveu bancar as passagens aéreas para um grupo. Reservou também um ônibus para transportar os refugiados do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, até Venâncio Aires. E alugou uma casa de dois andares, com cinco quartos, para seus novos colaboradores.

Entre eles estava Roles Gerome, na época aos 36 anos, que tinha deixado no Haiti, por necessidade, a esposa e uma filha de 1 ano, além de outra menina fruto de relacionamento anterior. Na Venâncio, passou a exercer a função de polidor de metal, tarefa que ainda executa nos dias de hoje. Agora, no entanto, o coração não fica apertado como antes, pois a família – que já aumentou – está na Capital do Chimarrão. Há quatro anos nasceu a filha venâncio-airense de Gerome, um dos pioneiros do que ficou conhecido, na empresa, como Projeto Haiti. Atualmente, além de dez haitianos, a metalúrgica conta com um colombiano.

“Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida. Entreguei meu destino nas mãos de Deus e portas se abriram. Agora já tenho a minha própria casa e estou cada vez mais adaptado à cidade”, comenta Gerome, com um português que precisa da ajuda de colegas de trabalho para ser compreendido. Ele afirma que a vida vai bem e que a intenção é permanecer em Venâncio Aires e evoluir com o tempo. “Gosto muito do Brasil”, diz. A lamentar, somente a distância de familiares e da filha, hoje com 13 anos, que ficou no Haiti.

SENSIBILIDADE

Cláudio Ruppenthal é gerente de fábrica na Metalúrgica Venâncio. Tem 53 anos, 20 deles dedicados à empresa e lá se vão seis em que a preocupação do dia a dia é diferente. “Desde que recebemos os funcionários vindos de fora do Brasil, foi necessário ter sensibilidade para ver que a adaptação deles dependia de nós. Aos poucos fomos nos integrando e, quando não nos entendíamos pela fala, gestos e mímicas resolviam”, lembra. Ruppenthal, que começou na Metalúrgica Venâncio “ali no chão de fábrica, juntando a sucata”, classifica a decisão da empresa como “louvável, pois estamos diante de uma questão de humanidade”.

Oportunidade e realização profissional

Para Cléo Schwantes, de 49 anos, e Juliana Inês Ribeiro, 37, a indústria é sinônimo de oportunidade e realização profissional. Ele está na Metalúrgica Venâncio há 13 anos e, atualmente, além do cargo de líder de marcenaria, responde também pela Comissão Interna de Prevenção de Acidentes (Cipa). Ela atua há sete anos como supervisora do Departamento Químico, responsável desde a compra dos produtos utilizados nos mais variados setores da empresa até o tratamento de efluentes e destinação correta de resíduos sólidos.

Juliana, Schwantes e Gerome: histórias de evolução, oportunidade e superação (Foto: Alvaro Pegoraro/Folha do Mate)

“Aqui tive a chance de mostrar as minhas habilidades e crescer na profissão. Meu trabalho é o que possibilita dar conforto à família, ter vida social e construir novas amizades. A indústria é a minha vida”, afirma Schwantes. Juliana destaca a a satisfação pessoal e profissional por fazer parte de uma “equipe que pega junto e sabe da sua responsabilidade no processo de produção de itens que estão em vários países do mundo”.

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