Casal comemora chegada de Maíra, que está prestes a completar dois meses (Foto: Taiane Kussler/Folha do Mate)

Coragem e autoconfiança ela tem de sobra. Talvez isso fez com que a cabeleireira Nedi Pereira dos Santos, 51 anos, encontrasse forças para vencer dois grandes desafios: assumir o relacionamento com um homem 18 anos mais novo e gerar um segundo filho depois dos 50 anos. Mas afinal, qual foi o principal motivo para que Nedi fizesse esta escolha? Só há um sentimento que explica isso: o amor incondicional da pessoa que estava ao seu lado, Júlio César de Oliveira, 32 anos.

A presença do companheiro amenizou o medo e a insegurança, para que ambos tivessem a chance de construir uma nova história e serem felizes. Apesar das circunstâncias do destino, nem tudo foi um ‘conto de fadas’. Pelo contrário, o casal teve que enfrentar muitas barreiras até receber nos braços a pequena Maíra, que veio ao mundo no dia 29 de julho, às 10h10min, oficializando a realização de um sonho e a construção de uma nova família. Quando a menina sorri para o casal, um filme passa à cabeça e faz lembrar quando tudo começou.

Nedi e Júlio são naturais de General Câmara, lugar onde se conheceram, pois as famílias dos dois tinham contato. Nedi já trabalhava como cabeleireira, profissão em que atua há 30 anos. “Lembro que até cortei o cabelo dele, por isso que não esqueceu mais de mim”, brinca.

Contudo, o destino fez com que os dois tomassem rumos diferentes. Nedi casou-se teve um filho, Darlan Santos de Oliveira, hoje com 25 anos, e foi morar em São Leopoldo. Em 1998 veio para Venâncio Aires e em 2005 se divorciou do marido. “Depois disso, fiquei uns sete anos sozinha, não queria ter outro relacionamento até que meu filho completasse 18 anos. Neste período, me dediquei ao meu trabalho e a ele”, recorda.


“Mudei toda a minha vida para gerar a Maíra e ela veio para mudar ainda mais a minha. Para mim, ser mãe novamente foi um recomeço. Me sinto com mais saúde, vitalidade e, acima de tudo, uma mulher mais forte.”

NEDI PEREIRA DOS SANTOS – Mãe da Maíra


Mas o destino falou mais alto e o caminho de Júlio e Nedi se cruzou novamente quando ele, recém-formado em Biologia, mudou-se para Venâncio para atuar na área. Em 2012, eles se reencontraram e mantiveram uma amizade, que durou pouco tempo. “Apesar de eu conhecer bem a família dele e as intenções dele comigo, tinha muito medo de me machucar. Estava insegura, pois tinha medo que fosse apenas uma aventura”, afirma.
Por fim, Nedi achou que devia dar uma chance a Júlio, que no primeiro momento ‘abriu o jogo’ com ela ao dizer que um dos projetos de vida dele era ser pai. Na época, aos 44 anos, Nedi não mediu esforços para realizar este sonho, que tornou-se seu também, pois estava decidida que se fosse possível, seria mãe pela segunda vez.

Após fazer esta escolha, a cabeleireira não conseguiu engravidar de forma natural e optou pela fertilização. Porém, para que isso acontecesse, era preciso perder peso: o primeiro desafio. Depois de várias tentativas sem sucesso, ela tomou uma decisão. Era preciso abrir mão do relacionamento de quatro anos para não interferir no sonho de Júlio. “Pedi para ele ir embora e encontrar uma pessoa que pudesse presenteá-lo com um filho, não queria interferir neste desejo que ele tinha de ser pai. Quando fiz isso, percebi que algo mudou dentro de mim, fui tomada por uma grande tristeza.”

Depois de muita insistência da parte dela, Júlio alugou uma casa, separou suas coisas e não foi embora. Ficou esperando que Nedi mudasse sua decisão.

A RECONCILIAÇÃO

A quase mudança de endereço e a proximidade da separação não impediu que Nedi e Júlio continuassem amigos. “Ele sempre foi muito atencioso comigo e procurava saber se eu estava bem”, afirma. Em um certo dia, Nedi foi surpreendida pelo então ex-companheiro, quando ele olhou em seus olhos e disse: “Não quero ir embora, os meus sonhos são contigo, quero que você seja a mãe do meu filho”, revelou Júlio.

Nedi não teve como negar esta prova de amor e deu mais uma chance aos dois para recomeçar. “Comecei a fazer um tratamento intensivo para emagrecer e no tempo de exercícios, sempre mentalizava a maternidade, este foi o meu principal foco”, ressalta. Durante este período, ela levantava às 6h para fazer caminhada, mudou a alimentação e o estilo de vida. “Sempre pensei positivo e o amor que recebi de Júlio me deu cada vez mais força para não desistir deste objetivo”, recorda.

Desejo de ser mãe aos 50

De abril a outubro (mês que fez o processo de fertilização), Nedi perdeu 23 quilos. Depois de muito esforço e determinação estava apta a fazer o procedimento. Um dia antes de ir a Porto Alegre, a família que mora no bairro Aviação, foi surpreendida por um temporal. “O vento destelhou toda a casa e, mesmo assim, eu tinha que me manter tranquila”, recorda.
Apesar dos imprevistos, tudo ocorreu como o esperado. Em 31 de outubro, Nedi realizou o procedimento e depois de 12 dias recebeu a notícia de que estava grávida. “Este foi o momento mais emocionante para mim, ter a certeza de que tudo deu certo e que nossa filha estava a caminho”, afirma.

Júlio que tanto sonhava em ser pai, também não conseguiu conter a alegria que só não foi maior que o dia do nascimento da pequena Maíra. “Acompanhei todo o processo de parto, foi o momento mais marcante da minha vida”, confessa.

O casal esperou a confirmação da gravidez para dar a notícia à família, para não criar expectativas, já que o processo poderia ser lento. Durante todo este tempo, apenas o casal e o filho de Nedi acompanharam o passo a passo deste sonho. “Desde que assumimos o relacionamento recebemos o apoio da família. Tenho nove irmãos e eles ficaram muito felizes, de avós eles viraram tios”, afirma.

Nedi engravidou na primeira tentativa da fertilização (Foto: Arquivo pessoal)

DESAFIOS

A diferença de idade entre o casal, nunca foi um problema para Nedi e Júlio. Mesmo assim, apesar do apoio da família e dos amigos, eles tiveram que enfrentar muito preconceito depois que assumiram a relação. “Muitas pessoas nos olhavam com desconfiança quando frequentávamos alguns lugares”, afirma a cabeleireira. Contudo, o comportamento dos outros não os atingia, pelo contrário, o amor só se fortalecia. “Se o relacionamento se constrói com respeito e segurança, a diferença de idade não interfere”, comenta.

Além das barreiras devido à idade, Nedi sabia que a decisão de ser mãe aos 50 também seria um desafio. “Quando eu estava grávida era vista com olhares desconfiados das pessoas quando entrava na fila preferencial”.

O preconceito também ocorreu entre os profissionais da área da saúde. “Fui muito questionada quando fiz meus exames de saúde e isto me marcou muito”. Júlio, que estava sempre ao lado da companheira, percebe o quanto é importante buscar mais de uma opinião. “Muitas pessoas veem o lado negativo das coisas e acabam desmotivando os demais, que mudam seus planos pela falta de informação. É preciso medir cada palavra porque por trás da maternidade, muitas vezes, há uma grande história”, desabafa o pai.

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