O peregrino Joshua recém deixara para trás o litoral com suas areias brancas e cheiro de maresia, e já se encontrava saudoso. No entanto, sabia que assim era a vida dos peregrinos, e que era necessário se movimentar, conhecer novos lugares e pessoas, para a elas entregar um pouco de sua verdade.O sol já se escondia no horizonte quando chegou ao vilarejo de Menina Bonita. No caminho de encontrar uma pensão, parou para tomar um pouco de água na fonte da pracinha no centro do vilarejo. Sem demora, percebeu um corpulento homem sentado em um dos bancos, perto da fonte, cabisbaixo, e Joshua sentou ao seu lado.Alguns minutos passaram, quando o homem falou:- O senhor já se sentiu como uma formiguinha? Uma titiquinha de nada?- Muitas vezes.O homem suspirou.- Só no que penso é em me esconder em algum buraco.Joshua ajeitou a bengala entre os joelhos.- Meu amigo, às vezes é sim importante retrocedermos e juntarmos forças para o próximo passo.O homem sentou ereto, esfregando as mãos nos olhos.- A vida que eu estava construindo ruiu. Meus negócios vão mal, e terei de me mudar de volta para minha cidade natal. Isso é uma vergonha! Sou um incompetente, um derrotado.- E, a coragem, não conta?O homem se virou para Joshua.- Coragem? Que coragem? Como assim?Joshua olhou para o corpulento homem.- é necessária muita coragem para reconhecermos nossas deficiências e pedirmos ajuda. Ademais, derrotados são aqueles que desistem, não os que lutam.- Tô fugindo com o rabo entre as pernas! Um corrido! Homem que é homem anda para frente, não de ré.Joshua continuava olhando para o corpulento homem.- é bem verdade que, nessa nossa vida, há momentos de atacarmos, marcharmos em frente. Mas, há tantos outros nos quais precisamos nos posicionar melhor, prepararmo-nos com mais adequação, repensar nossa estratégia. O amigo fala em fugir, eu entendo como retroceder hoje para angariar impulso para um passo maior, para frente, amanhã.- Hm… Mas e o que as pessoas vão pensar de mim?Joshua se ajeitou no banco.- Isso, de fato, importa? Quem sabe de sua vida, de seus problemas, dificuldades e necessidades é você mesmo, e a ninguém cabe julgá-lo. A única juíza que lhe importa é sua própria consciência, e é com ela que você precisa fazer as pazes. Só ela lhe entregará paz e tranquilidade.O corpulento homem coçou a cabeça.- Sabe que, pensando assim, até já me sinto melhor.Joshua colocou a mão sobre o ombro do homem.- Meu amigo, viver é uma constante batalha, uma guerra que travamos, todos os dias, com diversas situações e empecilhos dos mais variados. E, em especial com nós mesmos. é por isso que minha verdade lhe digo: muitas vezes, somos nós mesmos nosso pior inimigo. Em uma guerra, sentir pena de si mesmo não traz vitória. Retroceder, afiar a espada, descansar um pouco, e voltar para a batalha, confiante em nossas escolhas, este, sim, é o caminho da vitória.Ao Joshua concluir, o corpulento homem agiu de modo inesperado. Abraçou-se no peregrino, dando-lhe um abraço tão apertado que sentiu alguns ossos estalarem, ao mesmo passo em que falou:- Muito obrigado. Vou lá afiar minha espada.