Ex-prefeito Gilberto Weber, reivindicando o asfaltamento da ERS-405 ao governador Alceu Collares, em 1993, na presença de outros prefeitos (Foto: Arquivo pessoal)

Por Gilberto Weber – Empresário e ex-prefeito de Passo do Sobrado*

Em um dos últimos comícios da União Democrática Passo do Sobrado – UDPS (PDT/PDS) antes das eleições de 1992, o convidado especial foi o Dr. Matheus Schmidt, hoje falecido, então secretário dos Transportes do governador Alceu de Deus Collares.

Em seu pronunciamento, o secretário, naturalmente, pediu que todos os eleitores presentes no comício votassem nos candidatos a prefeito e vice, Gilberto e Leonor. Se eles fossem eleitos, ele, Matheus, iria defender nosso pedido junto ao governador para asfaltar o trecho de Passo do Sobrado a Pinheiral. Foi aplaudido de pé naquela ocasião e suas palavras nunca mais foram esquecidas.

A PROMESSA É CUMPRIDA

Assim que assumimos nossos cargos de prefeito e vice-prefeito de Passo do Sobrado, o Leonor e eu nos deparamos com o tamanho da nossa tarefa. Nada havia, mas em compensação, tudo podia ser planejado e feito da melhor maneira possível. Nosso município era novinho em folha, não tínhamos vícios de origem, nem dívidas de campanha, apenas comprometimento e uma vontade enorme de colaborar, de fazer certo. Montamos uma pequena equipe de trabalho e nos colocamos a trabalhar.

No tocante ao asfalto tão sonhado, tínhamos a palavra do secretário Matheus, homem de fibra e honrado trabalhista, e fomos já nos primeiros dias de janeiro ao seu gabinete, no edifício do Daer, em Porto Alegre, para iniciar nossas conversas. Ele nos recebeu, nos parabenizou pela vitória nas eleições, nos desejou sorte e reafirmou suas palavras: lutaria conosco para a realização do asfaltamento. Sua promessa seria cumprida.

POR ONDE COMEÇAR?

Eu havia me filiado ao PDT naquele mesmo ano de 1992, por onde começo esta história. Faço este registro para que aconteça a compreensão dos leitores acerca dos fatos. Esta filiação ocorreu por convite e insistência do presidente do partido, Adão Pinto. Eu dizia a ele, nas nossas conversas, que minha tarefa principal foi conduzir o processo de emancipação, de cuja comissão era o presidente.

Mas ele era perseverante, chato até, e afirmava com sua experiência e convicções que a escolha de um partido era da maior importância para lideranças como nós, e obviamente defendia o PDT. Exaltava as bandeiras do partido, como educação e agricultura, e entendia que este seria o partido ideal para governar Passo do Sobrado na primeira administração, pois teria o apoio do governador Collares durante os dois primeiros anos, 93 e 94. Fiz a minha opção, e com muita honra minha filiação ao PDT foi abonada pelo próprio governador Collares, em um ato no Palácio Piratini. Muito mais tarde fui entender a importância daquele momento, e a diferença que ele fez nas nossas conquistas.

A FORÇA DO PARTIDO

Leonor e eu colocamos a questão do acesso asfáltico como central no nosso governo, e esta tarefa deveria andar junto com todas as outras com as quais havíamos nos comprometido com nossos eleitores. Assim, logo descobrimos que a missão era imensa, a equipe era pequena, e que precisaríamos de ajuda para conseguir lidar com decisões que não dependeriam da nossa própria vontade ou força, mas muito mais de escolhas políticas.

O PDT de Passo do Sobrado, jovem na sua constituição, mas com lideranças políticas experientes e comprometidas, foi chamado para ajudar. O presidente começou a trabalhar a articulação política para defender nossas ideias. Nas suas horas de folga do trabalho de fotógrafo e animador de rodeios, estava sempre à disposição para ajudar. E o fez de forma muito eficiente, aproveitando a estrutura partidária em todos os níveis, local, regional e estadual, sempre em nosso favor, como explicaremos adiante.

OS PRIMEIROS CONTATOS – O PROJETO

Gilberto Weber foi o presidente da comissão emancipacionista e ex-prefeito de Passo do Sobrado (Foto: Arquivo pessoal)

Nas primeiras conversas com o secretário Matheus Schmidt e com técnicos do Daer, já descobrimos que a rodovia ERS-244 que estava sendo iniciada no trevo de Venâncio Aires em direção a Vale Verde, ainda não possuía seu projeto final de engenharia. Havia pontes construídas anteriormente (até hoje em desuso) e um traçado com previsão de passar quase todo pela várzea de Passo do Sobrado. Ora, nós sabemos, e os técnicos muito mais, que para construir uma rodovia em um solo difícil como a nossa várzea, é preciso a retirada de centenas de milhares de metros cúbicos de terra não adequada, e a consequente colocação de aterro (areia ou argila) capaz de suportar o peso do tráfego previsto.

Esta era uma conta que ainda não havia sido feita para aquele trecho de 17 quilômetros, e que só é descoberta com o referido Projeto Final de Engenharia. Assim, esta falta de projeto para efetivamente começar a obra em Venâncio Aires acabou definindo nossa estratégia política: precisávamos urgentemente produzir um projeto alternativo.

Precisávamos convencer o Daer a contratar uma empresa que fizesse um projeto em cima de uma estrada já mantida pelo próprio Daer. Um traçado conhecido, de solo já compactado, poucas curvas e apenas um pequeno trecho de serra na divisa com Vale Verde, sem nenhuma necessidade de recursos para desapropriações, com jazidas de argila e brita bem próximas. Tínhamos que apresentar muitas vantagens para compensar a diferença de 5 quilômetros a mais, ou seja, 22 quilômetros.

Precisávamos deste projeto para convencer o governador a autorizar esta obra não mais iniciando no trevo de Venâncio Aires em direção a Vale Verde, mas sim partindo de Pinheiral e passando por Passo do Sobrado em direção a Vale Verde, onde encontraria o trecho que já vinha sendo construído por outra empresa desde General Câmara. Vale lembrar que o traçado de Venâncio Aires excluía a sede do município de Passo do Sobrado. Estávamos no segundo mês do governo, não tínhamos nada em mãos, mas já estava definida a nossa estratégia: precisávamos de um projeto.

VIAGEM A SÃO LOURENÇO DO SUL

O governador Collares tinha uma maneira de conversar com os prefeitos. Quando viajava para o interior, acionava a direção estadual do partido para que esta convidasse os prefeitos para acompanharem a comitiva. Assim, num convite destes, fomos nos reunir com o governador em São Lourenço do Sul, onde fomos recebidos pelo prefeito Beto Grill.

Conseguimos conversar de forma privada com o governador, e falamos para ele da importância de construir o asfalto por Passo do Sobrado, desafogando a Tabaí-Canoas e criando um corredor que ligasse a região central direto com o porto de Rio Grande. Ele nos ouviu com atenção, disse que o secretário Matheus já havia lhe falado do assunto, mas foi só isso. Lembro que, por conta destas conversas, o almoço só foi servido pelas 16h e que estava muito quente e abafado. Voltamos para casa sem muita expectativa.

EM BAGÉ FOI MUITO MELHOR, MAS “SÓ JESUS PODE TE AJUDAR PREFEITO”

Em outra oportunidade, soubemos que o governador receberia os prefeitos do partido quando estivesse visitando Bagé, sua cidade Natal. Convidei o presidente Adão para ir comigo. Precisava dele, mas ele ainda não sabia para quê. Nossa estratégia estava sendo construída. Fomos os dois no único carro bom que a Prefeitura tinha, um Voyage. Bagé é bastante longe, saímos atrasados, já estava fazendo frio nos campos de lá e o carro estragou faltando uns 50 quilômetros para chegar na cidade. Parece que só nós estávamos viajando naquelas paragens desertas, mas de repente surge um carro indo na mesma direção. Pedimos ajuda. Casualmente era o secretário de Saúde do prefeito de Bagé, nosso já conhecido companheiro Varguinhas.

A ajuda que pedimos veio bem mais tarde. Fomos rebocados com uma corda até Bagé por uma ambulância muito velha, uma veraneio. Fomos direto ao hotel, porque bem cedo visitaríamos a Prefeitura com o governador e mais tarde conversaríamos com ele. De fato, quando chegou minha vez de falar, o governador me perguntou: prefeito, o que falta em Passo do Sobrado que eu possa ajudar? De imediato respondi: governador, em Passo do Sobrado nada falta, exceto uma rodovia asfaltada. Ele pediu mais detalhes, lembrava bem do assunto.

Destaquei a importância do aspecto social da nossa rodovia. Que passava por várias pequenas localidades além de dois núcleos urbanos, Passo do Sobrado e Vale Verde. No final ele disse: “prefeito, este caso é complicado, tenho falado com o Matheus sobre isso e te digo, penso que só Jesus pode te ajudar!” Eu respondi: “governador, eu recém fiz 40 anos, ainda não quero me encontrar com Jesus. Tenho muito o que fazer antes disso.” Os companheiros ao redor riram às gargalhadas e ele, rindo também, disse: “prefeito, o Jesus de que te falo é este ‘negrinho’ sentado bem atrás de ti. O ‘negrinho’ de quem o governador falava era o Dr. Jesus dos Santos Rodrigues, diretor-geral do Daer.

É claro que grudei no Jesus. Ele era um homem muito quieto, bom ouvinte, e me deu toda a atenção com o nosso pedido. Depois de o Voyage ter sido consertado, retornamos. Fazia muito calor. O carro não tinha ar-condicionado, mas eu estava muito animado e cheio de planos. O meu companheiro de viagem não imaginava, mas ele fazia parte destes planos. Na minha cabeça, só um pensamento: como conseguir autorização para fazer um projeto por Passo do Sobrado.

UMA VISITA SURPRESA

Numa certa tarde daquele começo de ano, uma ligação telefônica do gabinete do secretário Matheus nos avisa que o mesmo viria nos visitar no dia seguinte. Ele viria de carona com um carro do DAER até Pinheiral, onde queria que eu mesmo o buscasse, sem o conhecimento da imprensa. Na manhã seguinte, aguardei no trevo da RST-287. O secretário Matheus chegou, e estava acompanhado do diretor de Planejamento.

O Dr. Matheus conhecia muito bem aquele trecho, e queria que o diretor também visse o traçado que nós reivindicávamos para ser asfaltado. Eu dirigia o voyage e o Dr. Matheus ia convencendo o diretor da facilidade de asfaltar aquele trecho. Num certo momento, bem em frente onde hoje está instalada a Safra Leilões, o diretor disse: secretário, o senhor quer me convencer, tem argumentos, mas não é tão fácil assim.

Depois de conhecer o trecho todo, convidei o secretário para tomar um chimarrão na Prefeitura (na época era no Salão Paroquial), e o Leonor acompanhou o diretor para conhecer a Várzea dos Camargo, no trecho por onde estava previsto passar a rodovia se fosse mantido o traçado Venâncio-Vale Verde. Na volta o diretor se disse impressionado com a dificuldade que seria asfaltar um trecho tão grande somente em solo de várzea. Ponto para nós. A ideia do Dr. Matheus deu certo. O DAER passou a olhar nosso traçado como mais favorável, mas ainda faltava o projeto.

PRESIDENTE, PRECISO DE TI

O secretário Matheus Schmidt e o presidente Estadual do PDT, Dr. Sereno Chaise, estavam já trabalhando abertamente para nos ajudar, mas se a questão técnica era muito complexa, a questão política também era. Se tratava da vontade de um município muito pequeno como o nosso fazer com que o Estado abandonasse uma obra, onde a Construtora Pelotense era a responsável, já devidamente instalada em Venâncio Aires, e decidisse fazer um novo traçado que também ainda não tinha projeto.

Pensando na nossa necessidade de ter alguém para os contatos políticos, chamei o presidente para uma conversa. Disse: “Adão, preciso que tu assumas um cargo temporário aqui na Prefeitura para coordenar nossos esforços políticos e conseguir o asfaltamento da ERS-405 aqui por Passo do Sobrado.”

A resposta veio direta: “Prefeito, na campanha muitos adversários me acusavam de querer um emprego, e eu não posso aceitar.” Eu disse: “Adão, não é um emprego apenas. É uma tarefa que precisa ser feita e não vai durar muito tempo. E não é um convite, é uma convocação que te faço. Me acho no direito de pedir ajuda. Nos ajude a garantir esta obra, por favor.” Ele relutou, pediu para pensar e perguntou qual a tarefa.

Eu senti que ele aceitaria e disse: “o começo é o seguinte: tu sabes aquele Del Rey que recebemos da Prefeitura de Rio Pardo, e que era o carro do prefeito Paulo Begnis? Pois quero que tu pegues este carro e saia daqui, sem pressa, e vá até Santa Maria, entrando inclusive em Cachoeira do Sul. Quero que tu chegues em cada cidade ao longo da rodovia. Procures todos os companheiros do PDT que tenham algum cargo, seja no Executivo, Legislativo ou dentro do partido. Explique a cada um a nossa situação. Queremos ajuda política para convencer o governador a asfaltar uma rodovia que será um caminho mais curto para Porto Alegre e zona sul, o que vai favorecer a todos eles também. Os argumentos tu tens.” Ele aceitou o desafio.

O RETORNO DA VIAGEM

A viagem foi preparada com cuidado e, quando o Adão voltou, trouxe cartas e mais cartas de apoio à nossa causa. Assinadas por prefeitos, vices, presidentes de Câmaras de Vereadores e presidentes do PDT de 14 municípios. Aquelas cartas eram nosso trunfo político. Algumas cartas estavam assinadas por todos os vereadores, de diversos partidos. Juntas, mostravam unidade e apoio de dezenas de lideranças ao nosso projeto. Com muito cuidado e argumentos, fizemos com que estes documentos chegassem ao governador com o apoio do secretário Matheus.

E POR AQUI, COMO ESTAVA A NOSSA CÂMARA

Naquela eleição de 1992, a nossa coligação tinha conseguido eleger a maioria: 5 vereadores, mas a oposição tinha 4 vereadores bastante atuantes, que não davam folga ao presidente Armindo Dettenborn.

Naturalmente, era indispensável que o pedido para o governador estivesse assinado por todos os nove vereadores de Passo do Sobrado. Entretanto, a oposição estava dando sinais de que não iria assinar, pois entendia que isto valorizaria muito o prefeito do PDT, que era eu.

Num final de tarde, estava eu em casa, lembro bem, sentado debaixo de uma ramada de Três Marias, lendo As Brumas de Avalon, ouvindo um CD do ABBA e tomando chimarrão, tudo ao mesmo tempo. De repente, para um carro na rua. Reconheci o motorista, nosso conterrâneo vereador em Rio Pardo, Elo Moraes, recentemente falecido.

Na carona, o deputado Sérgio Moraes, que logo desce e me pergunta: prefeito, como estão se comportando meus vereadores? Estão lhe ajudando? respondi: deputado, o senhor chegou em boa hora. Relatei a questão do abaixo assinado. Ele logo respondeu: mas que barbaridade! Deixa comigo. No outro dia, todos assinaram o documento. Dias atrás encontrei o ex-deputado em Candelária, e relembramos este e outros episódios das nossas relações.

O PRÓXIMO PASSO – MARCAR A AUDIÊNCIA COM O GOVERNADOR

Conseguimos marcar uma audiência com o governador para o mês de agosto daquele ano. A próxima etapa do nosso articulador seria convencer todos os apoiadores da nossa causa para irmos juntos nesta audiência.

Num tempo em que não haviam celulares e muito menos grupos do WhatsApp (Passo do Sobrado ainda nem tinha telefonia automática), foi difícil para ele coordenar e encontrar uma data única na agenda de tantas autoridades de tantos municípios.

QUEM PAGA A CONTA?

O ponto de encontro marcado para todos foi a Churrascaria Galpão Crioulo, de onde depois do almoço iríamos juntos para a audiência com o governador. Eu, pessoalmente, conhecia poucos daqueles companheiros que tinham vindo para mostrar unidade política e nos ajudar na nossa reivindicação. Mas fomos nos apresentando e nos conhecendo por intermédio de nossos companheiros pedetistas da região, lá presentes.

Ao fim do almoço, enquanto uns já se preparavam para pagar suas despesas, alguém, que não sei quem era, disse: se fomos convidados por Passo do Sobrado, o prefeito de Passo do Sobrado paga a conta. Foi um susto! Éramos mais de 50 pessoas, com certeza, pois estavam também na comitiva diversos motoristas das Prefeituras convidadas.

Em valores de hoje, uma despesa de R$ 5 mil no mínimo. Na minha conta bancária não tinha este saldo, então perguntei ao presidente: o partido me devolve este valor se eu pagar esta conta? Sem dúvida, ele respondeu, vamos pagar esta conta. Fui ao caixa da churrascaria, expliquei a situação e pedi uma semana para descontarem o cheque que eu daria. Aceitaram. Pagamos a conta, ganhamos muitos abraços e, talvez, mais apoio ainda.

O QUE É ISSO, COMPANHEIRADA?”

Com estas palavras fomos recebidos pelo governador Collares, pelas 15h daquela tarde de agosto de 1993. Nós, de Passo do Sobrado, estávamos muito felizes em liderar aquela comitiva de mais de 40 pessoas, todos companheiros do PDT de 14 municípios da nossa região central, todos apoiando nossa reivindicação de asfaltar a ERS-405 de Pinheiral a Vale Verde.

Acompanhados do secretário Matheus Schmidt, dos deputados Pompeo de Matos e Heron de Oliveira, fomos calorosamente recebidos pelo governador, que demonstrou a maior admiração pela nossa estratégia política. Afinal, fomos reconhecidos. Passo do Sobrado liderou a maior caravana do PDT de que se tenha notícia e que faziam uma só solicitação.

Para sermos mais exatos, creio que só não era do PDT nosso saudoso ex-presidente da Câmara de Vereadores, vereador Armindo Dettenborn, do PDS, que não poderia faltar naquela hora. Lembro muito bem que ele foi o último a deixar a sala do governador, com quem estava numa prosa muito animada.

Depois de cumprimentar a cada um, pediu ao Dr. Matheus que falasse a respeito da visita. Rapidamente o secretário relembrou ao governador do nosso pedido, garantindo que esta seria a melhor opção. Passando-me a palavra, relatei nossa necessidade da inclusão de Passo do Sobrado na malha rodoviária do estado e as vantagens econômicas e sociais daquele traçado.

O governador então disse: não posso deixar de atender esta demanda de vocês, ainda mais que vinda acompanhada de tantos e tão importantes lideranças do nosso partido. E prosseguiu: mas é só isso que estão pedindo? É claro que não era, eu sabia. Me afastei para o lado e disse aos nossos convidados: é com vocês agora.

Naquele momento foram plantadas as sementes de outras rodovias na região. No ano seguinte o dr. Matheus me pediu para acompanhá-lo num roteiro pela nossa região. Fomos conferir os pedidos de Vera Cruz, Candelária e Cerro Branco. Algumas destas obras ainda foram executadas no Governo Collares, mas uma delas, Rio Pardo a Cachoeira, até hoje não foi concluída. Fica muito claro que o nosso retorno para casa foi extremamente leve e feliz.

REVIRAVOLTA COM A PRESSÃO DE VENÂNCIO AIRES, MAS HERON ENTRA EM CENA

O governador havia me dito uma vez que tinha grande admiração pelo deputado Gleno Scherer (somos primos, seu pai, Alfredo, era também meu padrinho e irmão de minha mãe, Hilda). É claro que a decisão do governador mexeu com as lideranças políticas de Venâncio Aires, que foram com tudo para manter o traçado original, Venâncio-Vale Verde.

Eu penso até que não acreditavam na nossa capacidade de mobilização e articulação política. Mas, enfim, iniciaram uma contraofensiva muito dura. Com total acesso e crédito junto ao governador, dr. Gleno conseguiu com que o governo balançasse na decisão. O governador deu sinais de dúvida, e eu me mandei para Porto Alegre.

Procurei na Assembleia o Deputado Heron de Oliveira, que a tempo nos assessorava na nossa demanda. Pedi a ele: Heron, atravessa a praça e vai, por favor, conversar pessoalmente com o governador. O Heron se assustou com a minha preocupação e foi.

De lá mesmo, me ligou e colocou o governador na linha, que me acalmou e me disse que ficasse tranquilo, pois não tinha esquecido o nosso pedido. O Heron conta até hoje por onde passa que eu estava tão nervoso que até chorei no seu gabinete, o que não é verdade. Mas se fosse preciso, eu chorava mesmo. O susto passou, a ainda estávamos na briga.

O PROJETO DE PASSO DO SOBRADO

Um projeto de construção de uma rodovia é extremamente complexo. Envolve estudos detalhados de várias naturezas. Solo, clima, regime de precipitações pluviométricas, escavações, distâncias e disposições das jazidas, etc. Finalmente, o Daer autorizou a contratação de uma empresa para fazer o projeto do trecho Pinheiral até encontrar a ERS-244 que vinha sendo construída de General Câmara até Vale Verde.

Uma equipe de técnicos instalou-se em Passo do Sobrado e iniciou os trabalhos. Algumas destas pessoas da equipe acabaram adotando a nossa região, por aqui ficaram e constituíram suas famílias, como é o caso do Guga, Antônio Augusto Pereira Nunes, atualmente vereador em Vale Verde.

A MUDANÇA DA PELOTENSE

Feito e aprovado o projeto, foi dada a ordem de serviço para o início das obras, e a Construtora Pelotense iniciou a mudança do seu acampamento em Venâncio Aires para Taquari Mirim, em Passo do Sobrado. Em todos os momentos nós estávamos acompanhando esta mudança, providenciando contatos da empresa com os proprietários das jazidas de pedra para britagem e argila e areião para a base. Buscamos fazer com que a empresa contratasse o máximo de funcionários no município. Uma empresa deste porte é capaz de gerar muitos empregos e renda para o local. Serviços como alimentação, mecânica, borracharia e caminhões para transporte também foram muito usados pela Pelotense.

DR. EVERALDO E O CIGARRO

A Construtora Pelotense naquela época era de propriedade da família do Dr. Luiz Roberto Ponte, conhecido político gaúcho de origem cearense. Dr. Ponte foi o autor da Lei de Licitações, implantada no país em junho de 1993 e em vigor até hoje. Em função da 405, ficamos amigos, e, certa vez, em Brasília, em 1995, visitei-o em seu gabinete e ele me disse que precisava de um favor meu. Eu disse, às ordens deputado.

Ele me pediu que precisava de mim, para reunir um grupo de deputados federais do PDT, pois ele queria explanar sua ideia de implantar no Brasil a Lei do Imposto Único, uma maneira bastante simples de estabelecer uma única regra para os tributos, tipo o cigarro: direto na fonte.

Através dos deputados que eu conhecia e estes convidando outros, reuniram-se numa manhã e sentaram-se para ouvir a proposta do dr. Ponte. (Hoje, 25 anos depois, este assunto volta a ser falado no Congresso). A proposta em si não evoluiu, pois neste país o emaranhado tributário precisa atender os interesses de cada estado num quadro extremamente complexo e abusivo, com uma das maiores cargas do mundo.

Sei que fugi do assunto, pois é tão fácil escrever, mas quero falar do Dr. Everaldo Renner, engenheiro de confiança do Dr. Ponte e responsável por toda a obra da ERS-405. Dr. Everaldo tinha, talvez ainda tenha, o hábito de fumar muito. Não conseguia falar sem fumar, ele dizia.

Nas dezenas de vezes que vinha na sala em que eu trabalhava, um pequeno espaço no fundo do Salão Paroquial antigo, que tinha sido forrado com carpete, sempre pedia: prefeito, posso fumar? Eu respondia: mas Doutor, este cheiro vai ficar entranhado no carpete e não sai mais (eu era e continuo sendo ex-fumante). Mas ele sempre me convencia, que a conversa era muito importante e que só conseguiria falar se estivesse fumando. O máximo que eu conseguia era instalá-lo perto da janela. Saudades do Dr. Everaldo.

A pedido do meu amigo jornalista Cláudio Froemming, busquei relatar os passos que foram dados para a realização de uma obra rodoviária tão importante, como a construção da ERS-405. Eu diria até que é uma obra feita em dois tempos: um tempo que se dividiu entre logística e política e outro que é o tempo da obra em si. Busquei falar sobre o primeiro, especialmente, pois dele fui um dos atores.

Acho que nos superamos em ousadia e planejamento, capacidade de interlocução e trabalho. Muito deste artigo para a Folha do Mate, edição especial em comemoração aos 28 anos de Emancipação de Passo do Sobrado, está registrado nos jornais da época. Uma outra parte são lembranças pessoais minhas, pela participação que tive. Destas últimas, peço desculpas pela inclusão ou omissão de algum nome ou fato. Minha principal vontade é realmente agradecer a todos os que ajudaram na nossa conquista.

*Matéria integrante do caderno especial do aniversário de Passo do Sobrado, no qual pessoas da comunidade enviaram suas histórias para a Folha do Mate.

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