Foto: Beatriz Colombelli / Folha do MateConstruído em 1763, velho casarão pede socorro
Construído em 1763, velho casarão pede socorro

Nas raízes de uma história a natureza faz morada. Em silêncio, a casa construída em 1763, sente o peso da idade e o abandono. As raízes das árvores que hoje a habitam também pedem socorro. Telhado, paredes e assoalhos – por insistência – continuam a demonstrar sua imponência e a importância cultural da arquitetura luso-açoriana. Mas até quando?

 Município mãe de Venâncio Aires, Santo Amaro do Sul, hoje, 2º Distrito de General Câmara, foi um dos primeiros municípios do Rio Grande do Sul, fundado em 1752. Por sua importância cultural, em 1998, recebeu do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o tombamento de 14 prédios e a Praça da Igreja, já restaurada. 

Entre estes está a casa mais antiga, com 252 anos, que no meio dos escombros, de parte do telhado começa a enterrar a sua história. Ela que abrigou o líder farroupilha José Gomes de Vasconcelos Jardim, a primeira Câmara de Vereadores do então município, serviu de cenário para o filme ‘Um certo capitão Rodrigo’, em 1970, baseado na obra ‘O tempo e o vento’ de Erico Verissimo também guarda fatos que permanecem no imaginário social da sua gente. Reformas? Quando os recursos chegarem. Se houver tempo.

E o futuro?

O velho casarão, atualmente, pertence aos herdeiros de Tarso de Prado, já falecido. Ele que era militar, foi proprietário do imóvel por 50 anos, conforme informa a filha Margarete de Tarso do Prado, moradora de São Leopoldo. Conforme anúncio em uma das portas, o imóvel está à venda. O que foi confirmado pela herdeira, na quinta-feira, 10, em entrevista à reportagem. O valor do imóvel também está confirmado: R$ 180 mil. Valor este que deverá ser mantido, mesmo após restaurada pelo Iphan, caso aconteça. Margarete destaca que esta orientação vem do Instituto, e o comprometimento é deverá ser documentado.Quanto à reforma, Margarete relatou que, inicialmente, o Iphan informou-lhe que a casa não era tombada. De posse da informação, chegou a pedir orçamento para reparos. No entanto, os valores apenas para descritivos de materiais se tornaram inviáveis. Acompanhada de profissional da área jurídica, ela buscou a comprovação do tombamento junto ao Iphan. Diante da veracidade, iniciaram-se as negociações há um ano, junto aos técnicos do Instituto para a restauração do imóvel. Ela acrescenta que há 70 dias, também, comprovou a sua impossibilidade financeira em participar do processo de restauração.

Uma voz que se levanta

Professora aposentada, a venâncio-airenses Olinda Konrad, é uma das defensoras da cultura açoriana do local. Moradora há 15 anos, na Vila Histórica, ela retratou por meio de pintura em telas os imóveis tombados, material que já foi exposto, inclusive na Assembleia Legislativa do RS. No mês de setembro, Olinda participou em Santa Cruz de Graciosa, a convite do governo de Portugal, do 24º Colóquio de Lusofonia, com a participação de 19 países. Na pauta do encontro a imigração açoriana, arte, literatura e manifestações da cultura portuguesa. Na bagagem, a professora trouxe ideias e esperanças de preservar as raízes portuguesas do distrito. Ela defende que o prédio, objeto da reportagem, seria o ideal para reunir em um só lugar todas as manifestações artísticas e culturais portuguesas e alavancar o turismo do município. Olinda que também é presidente da Associação dos Amigos de Santo Amaro (Avasa), destaca que é preciso a união das forças municipais independentemente de partido, para a preservação da cultura local.

Municipalidade

Para o prefeito de General Câmara, Darci Garcia Freitas, há entendimento da importância histórica dos imóveis, especialmente, do prédio em referência. Freitas concorda que eles poderiam impactar o turismo cultural do local. Entretanto, o município não tem intervenção por se tratar de prédio particular. Cabe ao Iphan a fiscalização dos mesmos. Iniciativas da Administração Municipal somente podem ocorrer, a partir da titularidade. Investimento, atualmente, inviável, diante de outras prioridades nas áreas da saúde, educação, obras e agricultura, segundo o chefe do Executivo. Freitas relata, que a municipalidade está empenhada e aguarda há dois anos, projeto encaminhado, via Iphan, na ordem de R$ 250 mil, para a restauração do atual prédio, onde funciona o Clube Social e a Casa de Cultura ‘tombados’. Prédio que após 20 anos de cedência ao município foi adquirido pelo montante de 40 mil, parcelado em dez vezes. Negociação justificável à época e que se enquadrou nas finanças da Prefeitura, conforme Freitas.

 Santo Amaro é uma pérola preciosa dentro do município de General Câmara e que não é valorizada pelos administradores. O que cabe é o governo federal investir aqui, dinheiro tem. A edificação deste prédio é 24 anos mais velha que a igreja e é parte fundamental da história de Santo Amaro do Sul e do Rio Grande do Sul”- Olinda Konrad (presidente da Avasa – Santo Amaro do Sul)

 Para qualquer tipo de investimento à preservação do imóvel, em primeiro lugar o município precisa ter a sua titularidade, para posteriormente encaminhar projetos junto ao Iphan, a fim de se buscar recursos às reformas, e mantendo-se as características históricas.  

Darci Garcia Freitas (Prefeito – General Câmara)

Posição do Iphan

“Temos conhecimento do precário estado de conservação de alguns imóveis tombados da Vila de Santo Amaro. Temos solicitado recursos nos Planos de Ação Anuais para a elaboração dos projetos de restauração e obras de restauração necessárias, mas infelizmente, por contenção de gastos, os referidos recursos ainda não foram liberados. Informo que estamos executando todos os esforços para a recuperação do referido patrimônio.” Eduardo Hahn – Superintendente Estadual do Iphan

Recortes da históriaSanto Amaro do Sul, fundado há mais de 250 anos, está situado às margens do Rio Jacuí, entre Rio Pardo e Triunfo. é um dos primeiros povoados do Rio Grande do Sul. Marcado pela arquitetura colonial portuguesa, é considerada pelo Iphan, em sua página, como uma das Vilas que possui um dos mais significativos conjuntos urbanos de origem portuguesa do Estado. Nessa região, em meados do século XVIII, situava-se a fronteira entre os impérios Português e Espanhol, território habitado por índios. Em 1881, Venâncio Aires pertenceu ao município de Santo Amaro, sendo o 4º Distrito. Este pertencimento durou dez anos e seis dias. (Fontes: do livro ‘Arquitetando Santo Amaro a partir de suas origens; Iphan e Olinda Konrad