Quem eram os possíveis alvos do resgate frustrado na Peva

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Por Alvaro Pegoraro e Carlos Dickow

Desde que uma quadrilha fortemente armada abriu fogo contra a Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (Peva), na madrugada do dia 23 de maio, por volta das 2h, as forças de segurança começaram a trabalhar para colher informações sobre os possíveis alvos do resgate frustrado, que rendeu cenas cinematográficas em Vila Estância Nova. Um dia depois, a Superintendência dos Serviços Penitenciários (Susepe), com o suporte da Brigada Militar, providenciou transferências de dois apenados apontados como prováveis objetivos do bando. Eles foram para a Penitenciária de Alta Segurança de Charqueadas (Pasc). Outros dois possíveis alvos foram remanejados dias depois para outros municípios.

Oficialmente, as autoridades não confirmam os nomes dos possíveis alvos, entretanto a reportagem da Folha do Mate apurou que se tratam de Fabiano Rodrigo Huff, o Turco, de 38 anos, e Edinilson Silva dos Santos, o Nito, 30. O primeiro é natural de Lajeado e responde pelos crimes de homicídio e tráfico de drogas. É apontado como mentor de vários assassinatos, mas não tem condenações. Ele está preso preventivamente, sob acusação de ter participação em um duplo homicídio, ocorrido em Lajeado, no dia 29 de dezembro de 2019. Turco é integrante da facção Os Manos, uma das maiores e mais violentas do estado.

O segundo é natural de Porto Alegre e uma das mais influentes lideranças da facção V7, conhecida também como Anti-Bala, por ter como principal rival o grupo Bala na Cara. Nito responde por nada menos do que 19 homicídios, tráfico de drogas, roubo e disparo de arma de fogo. Tem condenações por roubo, tráfico e receptação. O total da pena a cumprir pelos crimes que já foi condenado é de 8 anos e 8 meses. Como faltam apenas 6 meses para o encerramento das penas aplicadas, está preso de forma preventiva em razão de outros processos.

Mais transferências

Além deles, também foram transferidos outros dois possíveis alvos. Cleiton Chistmann Maciel, de 27 anos, é natural de Concórdia e já foi absolvido de uma tentativa de homicídio em Itá, em Santa Catarina. Estava na Peva depois de passagem pelo Presídio de Passo Fundo, onde foi preso duas vezes, ambas em 2019: primeiro por crime de falsidade ideológica e, depois, com 34 quilos de maconha. Os dois flagrantes foram feitos pela Polícia Federal. Ele tinha obtido liberdade do sistema prisional poucos meses antes das detenções, ao pagar fiança relacionada ao crime de receptação. O catarinense tem condenação de 16 anos e 1 mês por tráfico transnacional de drogas. Falta cumprir, ainda, 14 anos e 6 meses.

O quarto remanejado foi identificado como Murilo da Silva, de 32 anos. Natural de Santa Cruz do Sul, era uma das lideranças da facção Os Manos na galeria C da Peva e foi enviado à Penitenciária Modulada Estadual de Montenegro. Silva foi um dos apenados que escapou do Presídio Regional de Santa Cruz do Sul, no dia 17 de novembro de 2017, data em que uma fuga em massa foi registrada da casa prisional. Recapturado no dia 17 de janeiro de 2018, foi encaminhado à Peva em março do mesmo ano. Tem antecedentes por roubo, tráfico de drogas, homicídio, receptação, furto e ameaça. As condenações somam 21 anos e 6 meses, duas por tráfico, uma por receptação e uma por roubo. Tem que cumprir 12 anos e 7 meses.

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Coincidência de sobrenome e cidade de origem de presos

Uma situação chamou a atenção das autoridades que colhiam informações sobre o ataque à Peva, 15 dias depois do episódio. Em uma ação ocorrida em Caxias do Sul, o agente penitenciário Clóvis Antônio Roman, 54 anos, foi morto por bandidos que invadiram a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Zona Norte para resgatar um preso.

O alvo era Guilherme Fernando Huff, de 29 anos, coincidentemente com o mesmo sobrenome de Fabiano Rodrigo Huff, um dos prováveis alvos da quadrilha que atacou a Peva, em Vila Estância Nova. Os comparsas resgataram Guilherme e, além de matarem Roman, balearam outro servidor da Susepe e dois funcionários da UPA, uma higienizadora e um agente de portaria.

Guilherme Fernando Huff estava na Penitenciária Estadual de Caxias do Sul, no Apanhador. Preso na região de Osório, havia sido transferido para Caxias do Sul em março deste ano. Para conseguir ser levado à UPA, fingiu necessidade de atendimento e foi escoltado por uma equipe. Lá, por volta das 3h30min, quatro homens portando armas longas e com uniformes da Polícia Civil desceram de um veículo atirando.

O detento resgatado por comparsas foi encontrado morto na manhã do dia 9 de junho, em Porto Alegre. Guilherme Fernando Huff estava escondido em um apartamento na Avenida Independência, no Centro da capital dos gaúchos. Ele teria desferido um tiro contra si mesmo quando as equipes do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e do setor de inteligência da Brigada Militar chegaram ao local.

Fontes ouvidas pela reportagem da Folha do Mate confirmaram que, ao notarem o sobrenome idêntico dos apenados e, também, o fato de que ambos eram naturais de Lajeado, chegaram a buscar informações sobre possível parentesco, bem como saber se os ataques à Peva, em Venâncio Aires, e à UPA, em Caxias do Sul, poderiam ter relação. Porém, descobriram que os dois não são familiares e as ações não foram planejadas por um mesmo grupo.

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Saiba mais

• Fabiano Rodrigo Huff, o Turco, tem 38 anos e é natural de Lajeado. Integra a facção Os Manos e é apontado como mandante e mentor de uma série de homicídios. Também responde três processos por tráfico de drogas. Entrou em isolamento na Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (Peva) no dia 14 de maio deste ano, preventivamente, sob acusação de ter participado de um duplo homicídio ocorrido em Lajeado, no dia 29 de dezembro de 2019. Apesar da extensa ficha criminal, ele não tem condenação transitada em julgado.

• Edinilson Silva dos Santos, o Nito, tem 30 anos e é natural de Porto Alegre. Integra a facção V7, também conhecida como Anti-Bala, por ser rival do grupo Bala na Cara. Responde por um total de 19 homicídios, tráfico de drogas, roubo e disparo de arma de fogo. As condenações (uma por roubo, uma por tráfico e uma por receptação) somam pena de 8 anos e 8 meses. Como faltavam 6 meses para cumprimento da pena já imposta e Nito é acusado de envolvimento em vários outros crimes, está recolhido preventivamente.

• Cleiton Christmann Maciel tem 27 anos e é natural de Concórdia, em Santa Catarina. Nas suas informações policiais consta relação estreita com o município de Marechal Cândido Rondon, no Paraná. Foi preso duas vezes em Passo Fundo, em 2019, por falsidade ideológica e tráfico transnacional de drogas, de posse de 34 quilos de maconha. Os dois flagrantes foram feitos pela Polícia Federal. Condenado a 16 anos e 1 mês por tráfico, ainda tem que cumprir 14 anos e 6 meses de reclusão.

• Murilo da Silva tem 32 anos e é natural de Santa Cruz do Sul. Apontado como liderança da facção Os Manos na galeria C da Peva, para onde foi em março de 2018, quando foi recapturado após fugir do Presídio Regional de Santa Cruz do Sul. Silva Foi um dos 26 apenados que se evadiram da casa prisional na fuga em massa registrada no dia 17 de novembro de 2017. Responde por roubo, tráfico, homicídio, receptação, furto e ameaça. Já foi condenado a 21 anos e 6 meses de prisão e ainda tem que cumprir 12 anos e 7 meses.

O ataque na Peva

• Uma tentativa frustrada de resgate causou cenas de guerra na Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (Peva), na madrugada do dia 23 de maio, por volta das 2h. Foram registrados pelo menos sete minutos de intenso tiroteio no local.

• Os criminosos utilizaram fuzis de calibre 556, FAL 762 e AK 47. Os disparos foram direcionados contra o policial militar da guarda externa, que estava na guarita. Ele se abrigou e não foi ferido durante a ação. Os agentes penitenciários reagiram – um, em especial, enfrentou o bando com tiros de espingarda calibre 12 – e conseguiram fazer a quadrilha bater em retirada.

• Foram apreendidos um escudo e localizada uma touca utilizada pelos criminosos, com manchas de sangue e massa encefálica. Os criminosos ainda abandonaram no local um Jeep Renegade e uma Captiva blindada. Também foi necessário explodir um artefato que seria usado para derrubar uma parede da Peva, para consolidar a fuga pretendida.

• Também foram apreendidas bananas de dinamite, coquetéis molotov, garrafas com gasolina e álcool, além de uma esmerilhadeira. Na RSC-287, miguelitos foram espalhados em ambos os sentidos, como forma de dificultar uma perseguição policial à quadrilha. Acredita-se que até 10 bandidos possam ter participado do ataque.

• Logo após o episódio, foram acionados policiais do Grupo de Ações Especiais da Susepe (Gaes), Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope), Polícia Civil e Brigada Militar. O acesso à Peva foi bloqueado e buscas foram realizadas, mas nenhum criminoso foi encontrado.

• Dias depois da tentativa frustrada de resgate, o vice-governador do Estado, Ranolfo Vieira Júnior, que também responde pela Secretaria de Segurança Pública, determinou o reforço do policiamento nas imediações da Peva e rondas frequentes de homens do Batalhão de Choque da Polícia Militar, de Porto Alegre, na Capital Nacional do Chimarrão.

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