O casal não sabe de onde partiu a ligação do golpe, mas acredita que tenha sido de dentro da Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (Peva).
Preso diz que colega de cela tem dois celulares e os usa para aplicar golpes (Foto: Alvaro Pegoraro/Arquivo FM)

Um casal jovem e instruído conseguiu sair bem de uma tentativa do falso sequestro, que na maioria das vezes é praticado de dentro da cadeia. No domingo, o homem conversou por telefone por longos minutos com pessoas que se diziam assaltantes e sequestradores e que exigiam dinheiro ou ouro para libertar a filha dele. Detalhe é que ele e a mulher não têm filhos.

O casal não sabe de onde partiu a ligação, mas acredita que tenha sido de dentro da Penitenciária Estadual de Venâncio Aires (Peva). Durante a conversa, que foi gravada, um dos ‘sequestradores’, que tinha sotaque diferente do nosso, falou da praça da Matriz, dando a entender que conhecia Venâncio Aires. Na gravação fica claro que havia várias pessoas com o ‘sequestrador’ e, por isso, a suspeita de que o golpe tenha partido de uma das celas da casa prisional de Vila Estância Nova.

Conforme as vítimas, que encaminharam o áudio à redação, assim que elas atenderam a ligação, tinham certeza que se tratava de um golpe. “Logo vi o sotaque e sabia que a ligação tinha partido de dentro da cadeia”, comentou a mulher, que estava ao lado do marido, para quem a ligação foi feita.

Em um primeiro momento, um homem conversou com a vítima e só depois disse que eles tinham sequestrado a filha dele e passaram a fazer exigências. “Até imitaram o choro de uma pessoa”, revelou a mulher.

Veja a conversa do golpe

Assim que falou do sequestro, o homem passou a exigir dinheiro e disse que queria R$ 70 mil. A vítima mencionou que não tinha esse valor, mas que tinha uma quantia aplicada, no banco. O ‘sequestrador’ pediu uma transferência ‘on-line’, mas a vítima disse que não conseguia fazer. No desenrolar, outras pessoas conversaram com a vítima e pediram joias e outros objetos de valor, até que ele falou ser um policial civil (que não é verdade) e, então, a ligação é encerrada. “Antes, é possível ouvir um deles dizer … eu falei, ele sabia, ele sabia”, conta a vítima.

Veja na sequência a transcrição da conversa entre os ‘sequestradores’ e a vítima, a partir do momento em que ele pede o valor do resgate:

SEQUESTRADOR – Abaixo dos R$ 70 mil, quanto que o senhor tem agora pra mim?
VÍTIMA – Tenho dinheiro aplicado, mas não consigo mexer agora, só na segunda-feira, mas não mata ela.

Quanto o senhor tem no banco, fala pra mim, fala pra mim…
Olha, no máximo uns R$ 15 mil, no máximo.

Quinze mil, tudo bem, qual o banco, a caixa do senhor, fala pra mim?
Trabalho com três bancos..

Então consegue fazer uma transferência on-line pra mim, agora?
Não tenho aplicativo.

Olha só, ouro, joias, o que você tem de valor dentro de casa agora? Fala pra mim.
Só tenho uma corrente de ouro e uma aliança.

Uma corrente de ouro e uma aliança. Você tem mais, fala pra mim, pois ela (a filha) falou pra mim que tem mais. O que tem de valor dentro de casa, fala pra mim?
Mas o que vai resolver, eu preciso de dinheiro.

Olha só, quero a todo momento, a todo instante, a calma e a tranquilidade do senhor, tá ouvindo?
Mas eu ‘to’ calmo.

O senhor não tem nada, nada em mãos. Dinheiro nenhum em mãos?
Não, só no banco, 15 mil disponível, pra sacar.

Quero calma e tranquilidade do senhor a todo instante e a todo momento. Eu vou passar pro meu patrão e ele vai conversar com o senhor…está ouvindo?
Pois não…com quem estou falando?

Quem fala é o André, assaltante e sequestrador, entendeu, escuta só. Esses 15 mil estão aonde, fala pra mim?
Está no banco.

Qual a agência bancária do senhor?
Vítima disse o nome de uma agência.

Escuta, o senhor tem aplicativo de dentro de casa que o senhor consegue transferir pra mim, on-line?
Eu não tenho, sou de mais idade.

Quantos anos o senhor tem?
Tenho 50, coitada da minha filha.

Qual a garantia que o senhor me dá que vai me dar este dinheiro sem envolvimento da polícia e nem de ninguém?
E qual a garantia que vai me dar?

A garantia é a minha palavra de homem, que eu não mato pelo dinheiro, mas eu mato pela palavra. Se você me der a tua palavra que vai me dar o dinheiro sem envolver ninguém, eu também dou a minha palavra que vou soltar a tua guria da mesma forma que eu peguei ela, sem tocar num fio de cabelo e nem na integridade física e moral dela.
E tu vai largar ela onde. Aonde tu vai fazer o acordo?

Vou largar lá na praça da Matriz, lá perto da igreja. A igreja católica.
Tem várias católicas aqui, qual delas?

Escuta meu camarada. A hora é de falar do dinheiro. Eu quero saber do dinheiro. Quanto tempo o senhor demora pra chegar na agência bancária do senhor?
Uns cinco minutos.

Neste momento, um terceiro indivíduo entra na conversa. Alô, olha só meu amigo, vai querer resolver ou posso dar um tiro na cabeça dessa f…d…p…, fala.
Quem é o responsável aí?

Quem é o responsável é o c… Responsabilidade tu tem pela tua filha. Vai querer me pagar ou posso matar ela aqui?
Eu falei com o teu chefe, tu é o chefe?

Chefe é o c…, o f…d…p…, eu quero saber do teu dinheiro.
Olha aqui, sou policial civil e….
Neste momento a conversa é interrompida, se ouvem várias vozes e uma delas diz ‘ele já sabia, já sabia’, e a ligação é encerrada.

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