Vereadores de situação ocupam um dos lados do plenário Vicente Schuck (Foto: Fernanda Bergamnn/AI Câmara)
Vereadores de situação ocupam um dos lados do plenário Vicente Schuck (Foto: Fernanda Bergamnn/AI Câmara)

Que a política é uma caixinha de surpresas, todos sabem. Contudo, poucos devem ter se dado conta do quanto mudou o cenário da Câmara Municipal de Vereadores de Venâncio Aires desde a eleição, em outubro de 2016. Naquele ano, quando os votos terminaram de ser contabilizados, a dobradinha Giovane Wickert (PSB) e Celso Krämer (PTB) festejou a vitória na majoritária e, além disso, ainda celebrou a obtenção de maioria no Legislativo. Dos 15 eleitos, oito eram integrantes das coligações da chapa vencedora, número que garantiu, já na arrancada da atual Administração, maioria simples, algo essencial para a governabilidade.

Aos poucos, a supremacia do governo se intensificou. Isso porque os vereadores do MDB passaram a fazer parte da base de situação, garantindo um placar de 11 votos a 4 em favor da Administração. Mais alguns meses e Ciro Fernandes – naquela época no PSC – ‘namorou e casou’ com o governo. A relação não durou muito tempo, mas foi suficiente para que os governistas festejassem o isolamento do PDT, principal partido de oposição. O vice-prefeito Celso Krämer, apontado como o articulador maior no Legislativo, fazia questão de destacar a boa vizinhança com as legendas e o protagonismo que teve no ‘sufocamento pedetista’.

O mesmo Krämer é, atualmente, apontado como pivô de muitas das crises que levaram a oposição a se revigorar no Legislativo. Primeiro, teria se desentendido com Nelsoir Battisti (PSD), que deixou o Executivo e, assim que retomou sua cadeira de vereador, passou para a oposição. Depois, bancou Eduardo Kappel (PL) para a presidência da Mesa Diretora, afastando, naquela oportunidade, André Puthin (MDB). Teve também o episódio da ‘revolta do MDB’, que exigiu comandar a Câmara com Helena da Rosa. Sem aval do Executivo, formou com a oposição e elegeu a vereadora. Por fim, Zé da Rosa (Republicanos) migrou, passando a fazer oposição e se dizendo perseguido por ter votado contra o projeto da iluminação pública.

“Muito barulho”

Ao comentar a atual conjuntura da Câmara, analisando também os reflexos que isso pode ter para a governabilidade e para a eleição que se avizinha, Krämer declarou que a Câmara, no momento, faz “muito barulho”. Ele acredita ter tomado as decisões certas em relação ao cenário político e afirma que, mesmo a situação tendo acompanhado a redução do número de vereadores na base aliada, “os partidos que permanecem estão unidos e organizados”. O vice-prefeito comentou ainda que PTB e PSB fizeram muitas boas filiações e que “é preciso renovar a política e oxigenar os partidos”. Para ele, a postura atual da oposição vai atrapalhar os vereadores nas urnas, em outubro. “Vereador não vota contra a Prefeitura, mas contra a comunidade. E este projeto da iluminação pública é exemplo disso. Vai ter cobrança”, argumentou.

Krämer destacou ainda que o ex-prefeito Airton Artus (PDT) governou com apenas dois vereadores na Câmara, entre 2009 e 2012, “e mesmo assim conseguiu se reeleger com mais de 10 mil votos de diferença para o segundo colocado”. O vice-prefeito lembrou que, na legislatura 2013-2016, Artus passou a ter o apoio de seis parlamentares. “O número de vereadores que se tem na Câmara não nos define nada. É bom ter maioria, mas não quer dizer que os projetos não vão passar ou que vai perder a eleição”, referiu. Ele também aproveitou para alfinetar os vereadores que “pularam de lado”: “As pessoas se questionam sobre os motivos de mudar de pensamento do nada. O povo não é mais bobo, todo mundo vê quem são os oportunistas, que ficam em um partido só para se aproveitar. A internet divulga tudo loguinho hoje em dia”.

“Maioria na Câmara de Vereadores é algo muito relativo quando o assunto envolve uma eleição. No último pleito, o ex-prefeito Airton Artus, do PDT, tinha nove vereadores contra seis de oposição, e não conseguiu fazer o sucessor.”

GIOVANE WICKERT – Prefeito de Venâncio Aires

“Muito tranquilo”

Já o prefeito Giovane Wickert (PSB) tem outra visão da mudança de cenário político da Câmara. O chefe do Executivo disse que entende o processo como “muito tranquilo e natural”, no entanto não concorda com a votação do projeto da iluminação pública, oportunidade em que, por maioria de 9 a 5, o Legislativo desautorizou o Município a investir R$ 14,1 milhões para a modernização do setor. “Sempre deixei claro que os poderes são independentes e que cada um deve votar com a sua própria consciência, mas ir contra a comunidade é algo que não consigo entender. Reprovaram um projeto que previa melhorias para a cidade e interior e, com isso, parte da população não vai ter o acesso às novas tecnologias”, afirmou, reforçando que pretende utilizar os mais de R$ 4 milhões disponíveis na conta da Contribuição de Iluminação Pública (CIP) para modernizar a área central e bairros. “O interior ficará para depois”, repetiu.

“O que sobrou para a Câmara foi fazer barulho. Estamos oxigenando os partidos da base aliada e, depois das eleições, vamos ver quem foi inteligente. Eles estão com mais vereadores, mas onde estão os soldados deles para buscar os votos?”

CELSO KRÄMER – Vice-prefeito de Venâncio Aires

As migrações

  •  Nelsoir Battisti (PSD): Após se eleger vereador, aceitou o convite para assumir a Secretaria de Desenvolvimento Econômico e Turismo, que atualmente já tem o Trabalho inserido em seu guarda-chuva. Por lá ficou até o fim de junho de 2018, quando anunciou o retorno à Câmara. Logo que chegou ao Legislativo demonstrou que não tinha deixado o Executivo ‘numa boa’, como ele e o prefeito Giovane Wickert (PSB) preferiam dizer. Na verdade, o ‘enrosco’ de Battisti foi com o vice-prefeito Celso Krämer (PTB), com quem não conseguia mais se relacionar. A gota d’água para ele, no sentido de abandonar de vez o governo, foi o lançamento da candidatura de Eduardo Kappel (atualmente no PL, mas na época no Progressistas) para a presidência da Mesa Diretora. A partir disso, Battisti foi um dos principais articuladores do Legislativo Independente, que somou seis vereadores contrários à indicação, número que não foi suficiente para impedir que Kappel chegasse ao comando da Casa do Povo.
  • Ciro Fernandes (PDT): Em março deste ano, anunciou a saída do PSC, partido pelo qual se elegeu, e entrada no PDT, sigla que estava coligada com o PSC na eleição de 2016. Depois do pleito daquele ano, em dado momento, o vereador esteve muito próximo do prefeito Giovane Wickert (PSB). Foram algumas as oportunidades em que divulgou fotos de visitas ao gabinete de Wickert e revelou apreço pelo governo. Mas, antes da metade da atual legislatura, já se posicionava mais uma vez como oposição. O motivo teria sido o não atendimento das demandas que encaminhava junto ao Executivo. Ele já antecipou que não vai concorrer à reeleição em 2020.
  •  Bancada do MDB: André Puthin, Izaura Landim e Helena da Rosa iniciaram a legislatura do lado do governo. Embora estivessem oficialmente coligados com o PSDB, do candidato Vinícius Medeiros, na eleição de 2016, muitos emedebistas fizeram campanha para Giovane Wickert (PSB) e Celso Krämer (PTB), com destaque para o ex-prefeito Almedo Dettenborn (MDB), marido da vereadora Helena da Rosa, ela que tinha, até recentemente, cargos em comissão (CCs) no governo. O marido da vereadora Izaura, Paulo Landim, até pouco tempo também era CC. O único que não tinha indicados era Puthin. Talvez por isso o vereador foi o primeiro a se movimentar para a oposição, o que ocorreu na eleição para a presidência da Câmara no fim de 2018, quando se formou o Legislativo Independente. E foi uma nova eleição para a presidência que afastou de vez o MDB da base aliada. No fim de 2019, o presidente Paulo Mathias Ferreira bateu pé, lançou Helena candidata e afirmou que o partido não abriria mão do comando na Câmara. Sem entendimento com a cúpula governista, o MDB formou com a oposição e mudou completamente o cenário no Legislativo. Na sequência, os CCs do partido foram exonerados da Prefeitura. Alguns conseguiram os cargos de volta, mas tiveram que se filiar às siglas da base, especialmente PSB e PTB.
  •  Gilberto dos Santos (MDB): Em março deste ano, o vereador mais votado nas urnas em 2016 mudou de ares. Deixou o PTB e foi para o MDB. O motivo? Segundo ele, estava se sentindo desprestigiado no partido. Ao trocar de legenda, deixou claro seu descontentamento com alguns integrantes do PTB e disparou até contra o deputado federal Marcelo Moraes (PTB), que conforme o vereador, privilegiava alguns políticos de Venâncio Aires em detrimento de outros. Superou muito rápido a saída e hoje já diz para quem quiser ouvir que “estava no lugar errado”. Tem a pretensão de concorrer a vice-prefeito em chapa encabeçada por Jarbas da Rosa (PDT).
  • Zé da Rosa (Republicanos): É o caso mais recente de distanciamento com o governo. O estopim se deu há pouco tempo, quando Éverton Dias, cargo em comissão (CC) da Secretaria de Saúde, foi exonerado. Dias era indicado do vereador e exercia justamente a função – organização de pacientes para transporte – deixada em aberto por Zé da Rosa quando concorreu e se elegeu. O parlamentar diz ter certeza de que a exoneração foi uma clara retaliação do prefeito Giovane Wickert (PSB) e do vice Celso Krämer (PTB) por ele ter votado contra o projeto que autorizaria o Município a investir R$ 14,1 milhões na modernização da iluminação pública. Mesmo que o Republicanos, seu partido, siga na base de governo, o vereador já atua como oposição e não vai fazer campanha pela reeleição dos atuais gestores.

Placar

  • Situação (5): Adelânio Ruppenthal (PSB), Sandra Wagner (PSB), Ezequiel Stahl (PTB), Arnildo Camara (PTB) e Eduardo Kappel (PL).
  • Oposição (10): Ana Cláudia do Amaral Teixeira (PDT), Sid Ferreira (PDT), Tiago Quintana (PDT), Ciro Fernandes (PDT), Helena da Rosa (MDB), Izaura Landim (MDB), André Puthin (MDB), Gilberto dos Santos (MDB), Nelsoir Battisti (PSD) e Zé da Rosa (Republicanos).

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